Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / De brisa a furacão

Texto publicado na edição #108

De brisa a furacão

Crescer é difícil. Mas o tempo, esse vento — ora furacão, ora brisa —, não deixa de passar por ninguém. […]

> Por ANDREA RIBEIRO

Crescer é difícil. Mas o tempo, esse vento — ora furacão, ora brisa —, não deixa de passar por ninguém. Nunca. Tanto faz se por segundos ou por décadas. Nas épocas em que é brando, nem percebemos, tão envolvidos que estamos sendo apenas o que nos acostumamos a ser. Mas quando o pé de vento pega de jeito, ah… Não há como não sentir o chacoalhão. O corpo se ressente, dói, perde o equilíbrio. E a cabeça, grudada a ele, sofre também. Rodopia confusa, demora a encontrar o prumo. Mas encontra. Quase sempre.

Belarmino estava com 12 anos e sem os dois dentes da frente quando sentiu o primeiro tufão. Bambeou. Chorou um pouco e, mais ou menos resoluto, pôs-se a encarar a ventania. Meio de lado, é verdade. Um tanto enrubescido e tonto também. Mas um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer, não é mesmo? Ele não tinha percebido as brisas e agora era tarde. Estava diferente, com responsabilidades e desejos que nem havia sentido chegar. Não havia ninguém mais a culpar pela falta de atenção com o tempo além dele mesmo. E a culpa, sabemos todos, é um poderoso alucinógeno. Transforma um risco em corda, um degrau em penhasco. Mas, antes de pular, Belarmino abriu os olhos.

Belarmino, esse piá banguela, foi o único protagonista de ficção criado por Sérgio Buarque de Holanda. Nasceu e morreu para o conto A viagem a Nápoles, publicado originalmente em 1931 na Revista Nova (destinada a propagar as idéias modernistas que teve vida curtíssima, menos de dois anos). No ano passado, o conto foi relançado pela Editora Terceiro Nome em edição bacana, com ilustração de Vallandro Keating — que conviveu com Sérgio quando estudava na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU).

A história desse menino que se dá conta de que está crescendo é muito parecida com a de Alice, aquela que foi parar no país das maravilhas pelas mãos de Lewis Carroll. Não há um coelho branco para avisar o guri que já é tarde, que ele está atrasado. Mas há a empregada e a mãe, que o empurram para a escola. Mesmo sem os dentões da frente, envergonhado. A mãe de Belarmino, aliás, dá um conselho bem ao estilo de Alice: “Se quiser um bom conselho de mamãe, que só deseja o seu bem, leve para a escola um copo cheio de água e beba um gole a cada cinco minutos. Desse jeito, quando você chegar à Praça da República, os dentes estarão certamente crescidos. Mas cuidado para não entornar na roupa, pois não quero ninguém com veneno aqui em casa”. Lembra da Alice? “Tudo bem dizer ‘BEBA-ME’, mas a sábia Alice não ia fazer aquilo apressadamente. ‘Não, eu vou olhar primeiro’, disse ela, ‘e ver se está marcado veneno ou não’; Alice já lera muitas lindas histórias sobre criancinhas queimadas ou engolidas por feras selvagens e outras coisas desagradáveis, tudo porque não tinham lembrado das regras simples que seus amigos falavam para elas.”

História onírica
Alguns dizem que o conto de Buarque de Holanda é simbolista. Outros, que é modernista. Terceiros, como eu, acham que não é necessário enquadrá-lo em nenhum movimento específico. É uma história onírica, sobre a estranha passagem da infância para a adolescência, recheada pelos delírios totalmente pertinentes a este momento da vida. Agora, só porque trata de um menino virando um homenzinho, não quer dizer que seja um conto estritamente infanto-juvenil. Não. Pode ser lido — assim como a história de Carroll — por gentes de todas as idades. Exatamente porque fala de aflições e medos pelos quais todos passamos ou vamos passar.

Belarmino acordou sem os dentões e está com vergonha de enfrentar os amiguinhos da escola. Quem nunca passou por isso? (E não só com os dentes!) Ele também está se martirizando pelo papelão que fez no dia anterior quando, por ter ficado de castigo em uma sala da diretoria, “atacou” um quadro com a figura de Tiradentes com bolinhas de papel. Mas o pior não foi isto: como uma bolinha ficou presa atrás do quadro e Belarmino lembrou que dentre os papéis que tinha no bolso havia um desenho de um homem e uma mulher nus, ele entrou em desespero. Imagine se os professores vissem aquela indecência grudada logo no mártir da independência! Foi então que decidiu lançar um relógio de bolso na cara do inconfidente, que se espatifou em muitos pedaços. O julgamento certamente seria rigoroso. E ele teria de enfrentá-lo sem os dentes! Que culpa pesada para um garotinho!

E houve, realmente, um julgamento. E foi, realmente, rigoroso. Primeiro, pediram para que recitasse um poema. Até que se saiu bem — não sem receber críticas sobre sua entonação. Mas a coisa começou a apertar, mesmo, quando perguntaram o que era anástrofe… Ele sabia a resposta. Mas escorregou num pedacinho.

É a figura de sintaxe que consiste na…
Bobo alegre! Ignorante! Que consiste propriamente na…

O “propriamente” lhe faltou. E isso, para aquele júri, era praticamente imperdoável. Como o piazão ousava não decorar o exato sentido da figura de sintaxe? Certamente seria condenado à morte. E, como não havia escapatória, aceitou o convite de Dona Leonor (filha de um dos inquisidores), e fugiu com ela para Nápoles, logo ali, atravessando um portão. Por ali, encontraram a casa do Imperador, onde passariam a noite. E foi lá, em Nápoles, que Belarmino começou a perceber que não era mais um piá. Tudo se confundia em sua cabeça: culpa, desejo, medo, pressa.

Ficaremos os dois aqui… toda a noite?
E por que não? […]

Dona Leonor deixou-se escorregar ao lado dele. Agora sorria novamente. O mesmo sorriso um pouco embaraçado de há pouco. Belarmino sentia uma agitação estranha. Sua respiração era irregular. Ao mesmo tempo, a presença da companheira enchia-o de sentimentos agradáveis, de um torpor mágico que lhe invadia o corpo todo. E estava tão satisfeito que a beijou entre os dois olhos, pois gostava muito dela.

E então, como se fosse tempo de dormirem, Dona Leonor começou a despir-se rapidamente. Belarmino não ousava fazer o mesmo e considerava com curiosidade os gestos de sua companheira.

Muito deve se especular o que significam Nápoles, Dona Leonor, Tiradentes… Mas literatura é sempre subjetiva. Podemos inferir milhões de coisas, mas vamos ver somente o que quisermos ver. Então, o que vale é deixar-se levar pelas imagens propostas por Sérgio Buarque de Holanda e embarcar numa fantasia que pode ser qualquer coisa, em qualquer tempo. A leitura é rápida, como aquele ventinho que aparece e desaparece sem nem percebermos, mas que nos refresca e nos deixa confortáveis. Mas ele marca: pode ser que passe bagunçando nossos cabelos de leve, como a brisa. Mas também pode arrancar nossas perucas, como o furacão.

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SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

O paulistano Sérgio Buarque de Holanda é considerado um dos maiores intelectuais brasileiros. Foi jornalista, sociólogo, crítico literário e historiador. Antes de se dedicar à história e sociologia brasileiras, trabalhou como jornalista e tornou-se amigo dos principais representantes do Modernismo, como Mário de Andrade, Paulo Prado e Alcântara Machado — os diretores da Revista Nova. Foi a pedido de Mário de Andrade, aliás, que escreveu o conto A viagem a Nápoles. Era formado em Direito, mas continuou exercendo o jornalismo e chegou a ser correspondente internacional dos Diários Associados, na Europa. Quando voltou ao Brasil, em 1936, passou a ensinar História Moderna e Contemporânea na então Universidade do Distrito Federal e publicou o seu clássico Raízes do Brasil (1936). Foi para a Itália, em 1952 e fez parte da cadeira de Estudos Brasileiros na Universidade de Roma, durante dois anos. Tornou-se catedrático de História da Civilização Brasileira na USP (1958), onde permaneceu até se aposentar como professor, em 1969. Em 1979, recebeu o prêmio Juca Pato, como intelectual do ano. No ano seguinte, foi membro-fundador do Partido dos Trabalhadores. Sérgio Buarque de Holanda foi casado com Maria Amélia Alvim Buarque de Holanda, a Memélia (a quem dedica o conto), com quem teve sete filhos: Heloísa Maria, Sérgio, Álvaro Augusto, Francisco, Maria do Carmo, Ana Maria e Maria Cristina. Morreu em São Paulo, em 1982. Suas obras mais famosas são Raízes do Brasil (1936), Cobra de vidro (1944), Caminhos e fronteiras (1957) e Visão do paraíso (1959).c

Sergio Buarque de Holanda_livro

Sérgio Buarque de Holanda
Terceiro Nome
80 págs.