Dom Casmurro

setembro 2018 / Dom Casmurro / Daniel Francoy

Texto publicado na edição #221

Daniel Francoy

Dois poemas de Daniel Francoy

> Por Daniel Francoy

Poema claro

Há inevitavelmente, em qualquer período
entre catástrofes, uma noite de chuva boa.
O trabalho termina mais cedo e pensamos
ainda ontem tudo era cálculo, sordidez
e sangue, mas agora a paz respira amplamente.
Ainda há, inevitavelmente, o amor
que ainda se ergue, que ainda caminha
como um animal sem medo dos relâmpagos.
Como pode um cadáver oferecer resistência?

Como pode um cadáver oferecer resistência?
Como pode Heitor evitar que Aquiles
arraste o seu corpo perante os muros de Troia?
Como pode Joana D’Arc, com um sopro de cinzas,
impedir que as labaredas lhe consumam a carne?
Como pode um homem executado
desatar o nó da corda que lhe quebrou o pescoço?

Dirá o leitor: mas o poeta que escreve não é um cadáver
e eu concordarei. De fato, não sou
mas não é essa a questão. É justamente outra,
de modo que a restituo, vencida, em forma de verso.

Como pode um cadáver oferecer resistência?

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