Nossa América, nosso tempo

janeiro 2014 / Nossa América, nosso tempo / Culturas shakespearianas (final)

Texto publicado na edição #166

Culturas shakespearianas (final)

Shakespeare e relações triangulares Na última coluna, anunciei o tema deste mês: o exame das inúmeras triangulações que formaram o […]

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Shakespeare e relações triangulares
Na última coluna, anunciei o tema deste mês: o exame das inúmeras triangulações que formaram o mundo moderno. As redes globalizadas, que hoje monopolizam dados em escala planetária, impondo sua dinâmica no dia a dia de todos nós, conheceu sua emergência remota nos séculos 15 e 16, na época das Grandes Navegações.

Na Inglaterra, foi justamente durante o período elisabetano que foi possível esboçar o projeto do futuro império britânico. Shakespeare é contemporâneo desse momento. Ora, o teatro shakespeariano articulou a primeira reflexão radical sobre essa nova constelação de poderes imperiais e de trocas econômicas e simbólicas.

Na última coluna, arranhei essa noção na análise de Othello.

Em The Tempest o motivo é muito mais evidente e incontáveis autores latino-americanos sentiram-se provocados a reescrever a peça; afinal, a própria possibilidade de imaginar culturas latino-americanas foi fruto de complexas triangulações — como mostrarei adiante. Do ponto de vista ensaístico, destacam-se Ariel (1900), de José Enrique Rodó, e Caliban (1977), de Roberto Fernández Retamar — isso sem mencionar a miríade de textos dedicados à história de Próspero, como, por exemplo, o extraordinário soneto No alto, de Machado de Assis.

Se a ilha de The Tempest é a imagem acabada de um espaço distante dos centros de decisão — o centro mesmo da periferia —, numa radicalização do papel tanto da ilha de Chipre como da espectral Mauritânia, de igual modo, o personagem Calibã multiplica a instabilidade existencial do moro. No final da peça, a situação de Calibã — como diz Próspero, “my slave, who never / Yields us kind answer. (…)[1] — permanece indefinida — e essa indefinição leva longe em termos de reflexão. Seguirá com o Duque para Milão? Recuperará a posse da ilha?[2] Alternativa que antecipa em séculos as futuras reivindicações coloniais; como Aimé Césaire o fez em Une Tempête, recriando um Calibã, negro e guerrilheiro, adepto da revolução. Lampedusa observou com agudeza: “Eis o inquietante Calibã, a quem tanto se promete de maneira tão ambígua”.[3]

Nesse contexto, cabe observar que a estrutura da peça inclui um detalhe que uma leitura inspirada na perspectiva apresentada nesta coluna assinala sem dificuldade: a ação dramática começa antes do primeiro discurso de Próspero.

Explico.

Tudo começa quando Próspero e sua filha, Miranda, já se encontram exilados na ilha. Então, sabemos que seu irmão, Antônio, o traiu para obter o apoio do Rei de Nápoles, Alonso. Próspero era “apenas” o Duque de Milão, porém sempre resistiu às investidas da cidade mais poderosa, recusando-se a aceitar a autoridade do Reino de Nápoles, mantendo assim a autonomia do Ducado de Milão. A simples formulação, Reino de Nápoles, Ducado de Milão, explicita a assimetria das relações entre Alonso y Próspero.

Aqui, a prosperidade pertencia ao Rei, nunca ao Duque.

Que fez o irmão do sábio para usurpar o poder? Submeteu-se à autoridade do Rei de Nápoles, convertendo Milão numa cidade sob sua influência. Sem essa necessária introdução, a ação dramática perde sentido. Ou, o que seria o mesmo, a peça seria reduzida a uma história romântica de “amor à primeira vista”, através do encantamento de Miranda e Fernando.

Vejamos.

Na segunda cena do primeiro ato, as palavras de Próspero são enfáticas, revelando o jogo político que permitiu a ascensão de Antônio ao poder:

To have no screen between this part he played
And him he played it for, he needs will be
Absolute Milan. Me, poor man, my library
Was dukedom large enough. Of temporal royalties
He thinks me now incapable; confederates —
So dry he was for sway — wi’th’ King of Naples
To give him annual tribute, do him homage,
Subject his coronet to his crown and bend
The dukedom yet unbowed — alas, poor Milan! —
To most ignoble stooping.[4]

Em outras palavras, para que se compreenda a força de The Tempest é necessário recuperar as tensões políticas que definiam as relações de centro e periferia no interior da Europa.

Uma vez mais, a triangulação se impõe: Nápoles é o centro mesmo; Milão a periferia no centro; a ilha, o centro mesmo da periferia.

Se recordamos Othello: então, Nápoles é Veneza; Milão, Chipre; a ilha, Mauritânia.

E se nos imaginamos nessa intriga: Nápoles é França ou Inglaterra; Milão, Espanha ou Portugal; a ilha, as ex-colônias latino-americanas.

A triangulação moderna (e colonial)
Com base nessa ideia, não parece difícil imaginar uma leitura distinta, por exemplo, de Madame Bovary.

Não é verdade que o romance também discute, e de modo igualmente pioneiro, a criação de áreas periféricas numa cultura central? Yonville, o povoado fictício no qual Emma não deixa de imaginar-se em Paris, é para Rouen, o que Rouen é para a Cidade Luz. Há uma clara hierarquia que conduz do centro mesmo da periferia —Yonville — ao centro por antonomásia — Paris — incluindo ainda a posição bifronte de Rouen — cidade periférica em relação a Paris, porém central em relação à imaginária Yonville.

Uma parte considerável da intriga do romance depende dessa triangulação, como se chegar a Rouen fosse um prenúncio necessário da futura viagem a Paris, que nunca ocorre, como se sabe. As alusões a esse circuito atravessam o texto.

No segundo capítulo da primeira parte, o médico Charles Bovary conhece a senhorita Rouault, a futura Emma Bovary, ao tratar de seu tio. Nesse contexto, palavras em aparência triviais se convertem em motivo estrutural do romance:

O pai Rouault dizia que não teria sido mais bem curado pelos primeiros médicos de Yvetot ou mesmo de Rouen.[5]

Isto é, o médico de província parecia destinado a ocupar postos importantes, sempre mais próximo do centro do país — e, quem sabe?, um dia chegaria a Paris.

No primeiro capítulo da segunda parte, o narrador situa a fictícia Yonville empregando o mesmo critério: “Yonville l’Abbaye (…) é uma vila a oito léguas de Rouen”.[6] Para os que vivem em pequenas cidades, Rouen é o centro possível e, portanto, o modelo quase exclusivo de comparação. Por assim dizer, é como se não existisse outro horizonte imaginável. Contudo, no capítulo seguinte, a triangulação se completa, pois, no diálogo de Emma com o estudante Léon, a sedução principia pela menção ao eixo de suas aspirações:

Foi assim que, um ao lado do outro, enquanto Charles e o farmacêutico conversavam, estariam eles numa dessas vagas conversas em que as frases ocasionais voltam sempre ao centro fixo de uma simpatia comum. Espetáculos de Paris, títulos de romances, novas quadrilhas e o mundo que não conheciam, Tostes, onde ela vivera, Yonville, onde se encontravam, examinaram tudo, falaram de tudo até o final do jantar.[7]

A tradução é fidelíssima. Flaubert escreveu com a precisão que caracteriza sua prosa: “(…) une de ces vagues conversations où le hasard des phrases vous ramène toujours au centre fixe d’une sympathie commune”.[8]

A expressão é exata: o centro da idéia fixa dos futuros amantes era mesmo a relação entre Yonville e Paris, cuja mediação era oferecida pela possibilidade de viver aventuras em Rouen. Daí, quando Léon necessita convencer sua até então resistente amante a arriscar o célebre passeio pelas ruas da cidade com as cortinas da carruagem fechadas e uma velocidade sempre crescente, o astuto estudante soube como persuadir a leitora de romances:

— Ah! ¡Léon!… Realmente… não sei… se devo…

Ela fazia trejeitos. Depois, com seriedade:

— É muito inconveniente, sabe?

— Em que sentido? —replicou o escrevente Isto se faz em Paris!

E aquela palavra, como um irresistível argumento, determinou-a.[9]

O tema ilumina as relações de centro e periferia, autorizando uma interpretação alternativa de Madame Bovary, assim como de muitos outros títulos canônicos.

Convido o leitor a consultar outra vez o texto de Flaubert com esse olhar: descobrirá um novo romance.

(Talvez não tanto para os que escrevemos em português ou espanhol: vivemos em Yonville; talvez cheguemos a Rouen; Paris segue sendo para os happy few.)

Penso também na reveladora reflexão de Catherine Morland, personagem de A abadia de Northanger, de Jane Austen. Seu companheiro de dança, num baile em Bath, desdenha da cidade, ao compará-la com a capital do Império, talvez num esforço para impressionar sua amiga com a promessa de futuras festas, muito mais impactantes: “Bath, em comparação com Londres, tem pouca variedade”.

A resposta de Catherine vale por um ensaio:

— Bem, cada pessoa deve julgar por si própria, e aquelas que conhecem Londres podem desdenhar de Bath. Eu, porém, vivo em um vilarejo isolado no campo e jamais poderei encontrar, num lugar como este aqui, a monotonia à qual estou acostumada; porque em Bath existe uma variedade de divertimentos, uma variedade de coisas para ver e fazer o dia inteiro, e lá não há nada que se assemelhe.[10]

Entre o povoado rural e Londres, Bath ocupa uma posição bifronte: centro alternativo para os vilarejos; inegável periferia para Londres. No século seguinte, idêntica triangulação se encontra na base das aspirações de Emma Bovary, dividida entre a provinciana Yonville, o sonho de visitar Paris e a realidade de Rouen; verdadeira cidade-ponte, como a Bath de Catherine Morland.

Aliás, foram relações triangulares similares que ajudaram a plasmar as culturas latino-americanas no século 19, sempre às voltas com o eixo Paris e Londres, embora mediado pelas metrópoles Lisboa e Madri.

Não será a vocação das culturas shakespearianas imaginar teorias novas, a fim de entender com olhos livres o mundo contemporâneo — o universo, por definição, da multiplicação praticamente infinita de relações triangulares de níveis diversos de complexidade?

•••

Coisas futuras, diria o Conselheiro Aires.

Na próxima coluna, porém, retorno ao presente, analisando o romance Fim, de Fernanda Torres, cujo êxito convida a refletir sobre um fenômeno atual: a emergência de talentosos produtores de texto no cenário da literatura brasileira.

(Produtores de texto, vale a ressalva, não são necessariamente escritores.)

NOTAS
[1] William Shakespeare. The Tempest. 1.2. Virginia M. Vaughan & Alden T. Vaughan (orgs.). London: The Arden Edition, 1998, p. 116. Na tradução: “meu escravo que nunca tem uma resposta amável para nós (…)”. William Shakespeare. A Tempestade. Obra Completa. Volume II. Nova versão, anotada de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros e Oscar Mendes. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1988, p. 923.
[2] Eis como Calibã se refere à ilha: “I must eat my dinner./ This island’s mine by Sycorax my mother, / Which thou tak’st from me. (…)”. Ibidem, p. 117-18. Na tradução: “Preciso comer meu jantar. Esta ilha é minha por intermédio de Sicorax, minha mãe, que vós de mim roubastes (…)” (p. 924).
[3] Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Shakespeare. Barcelona: NorteSur, 2009, p. 77.
[4] William Shakespeare. The Tempest. 1.2. Op. cit., p. 138. Na tradução: “Para que não houvesse anteparo algum entre o papel que representava e a realidade do mesmo, achou necessário tornar-se senhor absoluto de Milão. Quanto a mim, pobre coitado, minha biblioteca era ducado que me bastava. Chegou a achar que era incapaz de exercer qualquer soberania temporal. Conspira (tão sequioso estava pelo poder) com o Rei de Nápoles, compromete-se a pagar-lhe um tributo anual, rende-lhe vassalagem, subordina a coroa de duque à coroa de rei e humilha o ducado, até então indomável (ai, pobre Milão!), debaixo do mais vergonhoso jugo.” (p. 919).
[5] Gustave Flaubert. Madame Bovary. Costumes de província. Tradução, apresentação e notas de Fúlvia M. L. Moretto. São Paulo: Nova Alexandria,1993, p. 34.
[6] Idem, p. 87.
[7] Idem, p. 169, meu destaque.
[8] Gustave Flaubert. Madame Bovary: mouers de province. Paris: Garnier-Flammarion, 1966, p. 119, meu destaque.
[9] Gustave Flaubert. Madame Bovary. Costumes de província. Tradução, apresentação e notas de Fúlvia M. L. Moretto. São Paulo: Nova Alexandria,1993, p. 260.
[10] Jane Austen, A abadia de Northanger. Tradução de Rodrigo Breunig. Porto Alegre: L&PM, 2011, p. 86.

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