Nossa América, nosso tempo

setembro 2019 / Nossa América, nosso tempo / Cuando calienta el sol: verões e versões (1)

Texto publicado na edição #233

Cuando calienta el sol: verões e versões (1)

Uma análise da clássica canção composta por Rafael Gastón Peréz

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Canção de verão

Cuando calienta el sol é uma canção icônica, cuja música foi composta por Rafael Gastón Peréz e a letra foi escrita pelos irmãos Carlos e Mario Rigual, do grupo homônimo Hermanos Rigual. Sua interpretação, em 1961, tornou-se um grande sucesso internacional, ajudando a firmar um gênero então em emergência, a canción de verano. Entende-se com facilidade o êxito se recordarmos sua letra:

Amor, estoy solo aquí en la playa
Es el sol quien me acompaña
Y me quema, y me quema, y me quema

Cuando calienta el sol aquí en la playa
Siento tu cuerpo vibrar cerca de mi
Es tu palpitar es tu cara, es tu pelo
Son tus besos, me estremezco

Cuando calienta el sol 

Cuando calienta el sol aquí en la playa
Siento tu cuerpo vibrar cerca de mi
Es tu palpitar, tu recuerdo
Mi locura, mi delirio, me estremezco

Há um vídeo precioso dos Hermanos Rigual performando a música: https://www.youtube.com/watch?v=EbWXIgYkeWc.

Veja, por favor, pelo menos umas duas vezes antes de voltar ao texto.

Pronto?

Vamos lá.

Tudo feito sob medida para um êxito sem fronteiras, numa espécie de anúncio do que posteriormente seria o fenômeno da world music, apesar das inegáveis boas intenções do movimento. Vale dizer, é como se assistíssemos ao esboço da música de lugar nenhum; melhor, trilha sonora dos não-lugares da supermodernidade, na acepção de Marc Augé.

(Registro a provocação: em que medida a noção muito em voga de world literature se encontra perigosamente próxima das ingenuidades e dos impasses da world music?)

A contenção é a proporção áurea desse gênero de canção: o excesso deve sempre ser driblado. Repare como os gestos são bem medidos; a coreografia tímida que se ajusta à perfeição ao terno cortado com esmero; o arranjo essencialmente melódico torna a música um fundo sonoro agradável, cuja permanência equivale a um ensurdecimento imperceptível: música ambiente que já não se pode escutar. A própria posição dos artistas no palco encena um imaginário triângulo isósceles, cuja congruência se mantém intacta inclusive quando os dois músicos à frente do trio arriscam um moderado dois pra lá, dois pra cá.

Ruído algum, portanto, apenas a suave redundância da música barata.

Versões sem verão?
A interpretação do Trío Los Panchos apresenta uma versão ainda mais domesticada, com destaque para uma batida de violão com dicção resignadamente exótica. Não há turista acidental que não se comova com esse signo ostensivo da alteridade previsível, sem a qual a “experiência da viagem” não se concretiza. Música ideal para embalar almoços de domingo ou um happy hour no país distante. Ou para suavizar longas esperas no consultório médico ou no saguão de aeroportos. O título da música se converte numa inesperada pergunta: ¿Cuándo calienta el sol?

Você me dirá se sou injusto, ou se, quem sabe?, estou mal-humorado enquanto escrevo esta coluna: https://www.youtube.com/watch?v=zTvKB1KPQRk.

Mas creio que não!

Trajados impecavelmente; harmonia vocal absoluta; praticamente estáticos no palco — apenas um ligeiro movimento de ombros sugere que talvez se possa bailar.

Ora, dois anos depois do sucesso de Cuando calienta el sol, os Hermanos Rigual buscaram repetir a façanha com uma nova canção, composta por Alberto Vázquez, Cuando brilla la luna. Assim mesmo: a explícita inversão parece não ter constrangido o trio. Basta recordar o princípio da música para imaginar a atmosfera do hit malogrado:

 

Cuando brilla la luna
y estás junto a mí
siento en toda mi alma
la felicidad.

Junto a ti
las estrellas del cielo
ríen y lloran mirando
este amor de verdad.

Pois é: sem comentários.

Faça um esforço e escute com cuidado a interpretação dos Hermanos Rigual: https://www.youtube.com/watch?v=RGAatLrj8_s.

A letra da canção abandona qualquer possível angústia ocasionada pela ausência da pessoa amada. E mesmo o arranjo lança mão sem pejo algum de todos os índices possíveis de exotização: a aposta no sucesso sem fronteiras vira uma poderosa (mas não potente) forma de diluição. Nesse sentido, a interpretação solene, com a simpatia do canastrão assumido, do compositor Alberto Vázquez tem pelo menos a autenticidade próxima à farsa: https://www.youtube.com/watch?v=t1bh83KhzqM.

Desse modo, passamos da experiência aguda da solidão

Amor, estoy solo aquí en la playa
Es el sol quien me acompaña
Y me quema, y me quema, y me quema

para a plenitude de um happy ending com sabor de sessão da tarde

Cuando brilla la luna
y estás junto a mí (…)

O sol não mais queima, evocado a presença, no passado, de alguém que já se foi. Agora, tudo soa como o rock familiar de Mina, Tintarella di Luna, esse bronzeado de lua adaptado em chave ainda menos rebelde por Celly Campello, convenientemente acompanhada por seu irmão, Tony Campello. É como se estivéssemos diante de uma tela de Romero Brito, “las estrellas del cielo/ ríen y lloran mirando/este amor de verdad”.

Estrelas do céu — de onde mais?

Nem tudo está perdido — porém. A versão dos Hermanos Rigual, contrariando a expectativa do trio, não obteve a repercussão da canção de verão de 1961.

Eis um alento: a indústria cultural nem sempre consegue reproduzir o efeito inesperado que tanto espantou quanto encantou o poeta Carlos Drummond de Andrade, tal como anota a primeira estrofe do poema A música barata:

Paloma, Violetera, Feuilles Mortes,
Saudades do Matão e de quem mais?
A música barata me visita
e me conduz
para um pobre nirvana à minha imagem.

Valsas e canções engavetadas
Num armário que vibra de guardá-las,
No velho armário, cedro, pinho ou…?
(o marceneiro ao fazê-lo bem sabia
quanto essa madeira sofreria.)

Não quero Handel para meu amigo
Nem ouço a matinada dos arcanjos.
Basta-me
O que veio da rua, sem mensagem,
e, como nos perdemos, se perdeu.

No Brasil, por algum motivo, coube à cantora Wanderlea a tarefa difícil de transformar a canção de verão numa espécie de bolero anacrônico. Ao nascer do sol: assim foi rebatizada a música, e mesmo a crítica mais aguerrida conhece momentos de misericórdia. Em lugar de comentar a performance, limito-me a fornecer o link para sua apreciação: https://www.youtube.com/watch?v=sUQeBLMYZHg. 

Coda
Escrevi que o êxito se compreende com facilidade ao recordar a letra da música. Ora, considerando-se a análise severa que propus, não se trata de uma contradição?

É bem possível.

Aguarde, contudo: na coluna do próximo mês, analisarei as versões de Javier Solís, Trini López e Luis Miguel. Especialmente a interpretação angustiada de Solís abre novos horizontes para Cuando calienta el sol.

Você verá se concorda comigo.

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