Ensaios e Resenhas

novembro 2014 / Ensaios e Resenhas / Cronópios alheios

Texto publicado na edição #175

Cronópios alheios

Coletânea de contos em formato de manual de instruções homenageia Julio Cortázar

> Por ROBERTA ÁVILA

Se escrever já é complicado, escrever sobre o que outros já escreveram é mais complexo ainda. Pior ainda se o objetivo é escrever seguindo os passos de alguém que deixou muitos escritos, muitos admiradores, muitas coisas boas, muitas críticas positivas e negativas também. É o caso de Julio Cortázar, escritor argentino que completaria 100 anos em 2014. Por tudo isso, é grande a empreitada a que se propõe o livro organizado por Carlyle Popp, Instruções à Cortázar. Os 18 contos têm o objetivo de criar uma obra à la Cortázar, seguindo o exemplo dos contos em formato de manual de instruções que fazem parte de Histórias de cronópios e de famas.

Acho que é impossível dizer se o objetivo foi atingido ou não. Cortázar, em sua obra crítica, afirma acreditar que a comunicação se dá a partir do texto em direção ao leitor, e não a partir do autor, como afirma o modelo de comunicação clássico. Por esse ângulo, torna-se ainda mais subjetivo querer escrever um conto à la Cortázar, já que as histórias do argentino têm semelhanças, uma unidade, mas também têm diferenças bem grandes como a questão do final: algumas têm uma conclusão, outras não, o que já muda tudo.

Em seu poema Traduzir-se, Ferreira Gullar escreveu:

(…)

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Acredito que a resposta é sim. E acho que há, sim, algo de Cortázar traduzido nos contos de Instruções à Cortázar. Isso não quer dizer que os contos parecem ter sido escritos por ele — não parecem. E com certeza os autores não estavam buscando isso.

Há quem defenda que a melhor forma de se fazer a crítica de uma obra de arte seria produzir outra obra de arte tendo a primeira como inspiração. Acredito que esse foi o objetivo. Para alguns contos funcionou muito bem — é o caso das instruções para ter boas lembranças na vida, para sonhar e para esquecer um grande amor, assim como das instruções para visitar recém-nascido, para lavar lençol e para ganhar um melhor amigo. Para outros contos ficou faltando alguma coisa, algum detalhe que fizesse deles mais do que um manual de instrução, mais do que uma homenagem, mas essa grande sacada em que Cortázar acreditava: aquilo que derruba o leitor por nocaute nas poucas páginas de um conto.

A seleção de textos é interessante porque enquanto alguns autores ficaram mais presos a Cortázar e à forma como ele escreveu o manual de instruções, outros tomaram a questão para si de tal maneira que nem a forma de escrever nem a maneira de desenvolver a história são semelhantes: sobra o título, o mote, e mais nada. Esses são os mais interessantes porque tomaram para si toda a responsabilidade, e com isso gozaram de toda liberdade. O resultado é a ácida ironia de www.instruçõesparavenderlivros.com.br, de José Tucón, que defende que melhor do que escrever um bom livro é ter um livro que venda bem, mesmo que nunca tenha sido escrito e que vai do Mein Kampf, de Hitler, ao taleban passando pela Rússia em busca da melhor estratégia de marketing.

Outro resultado é a prosa poética de Instruções para dizer adeus, de Marina Carraro, que define bem os únicos dois tipos de adeus: o não-definitivo e aquele que é para sempre.

O resultado também está nas Instruções para observar humanos, de João Anzanello Carrascoza, nos lembrando que é bom não se aproximar dos humanos, pois eles parecem dóceis mas sem o menor motivo atiram poemas sujos aos visitantes. Ele diferencia assim nossa espécie: enquanto os animais, em geral, gritam quando sentem dor, nós gritamos se estamos felizes, e quando sentimos dor, cantamos.

O resultado são os belos delírios de Instruções para lavar lençol, de Izabela Loures, com sua escrita tão original, e os alcoólicos delírios de Instruções para a última madrugada antes do fim do mundo, de Otto Leopoldo Winck, que no meu manual deve ser lido acompanhado por uma cerveja, de preferência no silêncio da madrugada.

É um livro de muitos curitibanos, com suas inevitáveis referências a Leminski e Dalton Trevisan, o que é uma delícia. No entanto, enquanto Cortázar acreditava que o fantástico deveria ser introduzido aos poucos na história, de maneira que se misturasse com o real, as largas notas de rodapé na primeira página de cada conto são uma âncora no mais burocrático do real. Com versões resumida do currículo lattes de cada autor, elas tiram um pouco da magia da coisa. É justo que os autores sejam identificados, é justo que digam sobre si o que quiserem, mas havia, certamente, lugares melhores para fazê-lo sem que antes de cada história fôssemos puxados a esse terreno kafkiano que é o currículo nosso de toda a vida com suas graduações, mestrados, doutorados, prêmios e empregos. Afinal, é justo também que o leitor adentre essas questões se quiser, e não se o olhar vagar para o fim da página.

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AUTORES

Coordenado por Carlyle Popp, o livro é composto por textos de 18 autores diferentes, incluindo o próprio coordenador: Andressa Barichello, Antonio Carlos Viana, Antônio Torres, Carlyle Popp, Eduardo Bettega, Gabriel Marins, Giovanna Lima, Isabel Furini, Izabela Loures, João Anzanello Carrascoza, José Tucón, Lindsay Gracia Colle, Majeda Popp, Marina Carraro, Mayra Corrêa e Castro, Monica Kukulka, Nando São Luiz, Otto Leopoldo Winck. Entre eles há advogados, psicólogos, engenheiros, jornalistas, poetas e aromaterapeutas.

Cronópio? Me desculpa, Cortázar, mas não deu. E você, que me escuta agora e está igualmente fudido, a despeito deste teu olhar de compaixão, este teu ridículo olhar de compaixão sobre mim, você também não é um cronópio. E você sabe disto. Sempre soube. A vida é cruel, meu caro. A vida é cruel e banal como uma noite de bebedeira como esta.

Carlyle_Popp_Instruçoes_Cortazar_175

Org.: Carlyle Popp
Juruá
94 págs.