Inquérito

outubro 2014 / Inquérito / Criação e aprendizado

Texto publicado na edição #175

Criação e aprendizado

Num julho longínquo, na década de 1980, o mineiro Carlos de Brito e Mello já estava decidido: seria escritor. A […]

> Por RASCUNHO

Num julho longínquo, na década de 1980, o mineiro Carlos de Brito e Mello já estava decidido: seria escritor. A decisão foi tomada quando a professora de português Elenice passou como dever de casa, para ser feito durantes as férias, a tarefa de escrever um livro. Sua estreia efetiva no mundo das letras se daria décadas depois, em 2007, com os contos de O cadáver ri dos seus despojos (Scriptum). Nascido em 1974, em Belo Horizonte (MG), tem uma formação acadêmica e trajetória profissional peculiares: formou-se mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais, tornou-se professor universitário, é psicanalista e desenvolve projetos em artes plásticas. Na escrita, ascendeu quando, em 2008, venceu o Prêmio Minas Gerais de Literatura, na categoria Jovem Escritor Mineiro. Um ano depois, publicou pela Companhia das Letras seu primeiro romance, A passagem tensa dos corpos, que concorreu aos prêmios São Paulo, Portugal Telecom e Jabuti. Em 2010, o projeto do romance A cidade, o inquisidor e os ordinários foi selecionado pela Bolsa Funarte de Criação Literária; três anos depois, o romance foi publicado pela Companhia das Letras, sendo a publicação mais recente do autor, que lhe rendeu este ano indicação entre os finalistas dos prêmios Portugal Telecom e São Paulo de literatura.

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Carlos de Brito e Mello. Foto: Divulgação

Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Aos 10 anos de idade, quando a professora de português do colégio (que se chamava Elenice) determinou como dever de casa, para ser feito durante as férias de julho, a tarefa de escrever um livro.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Escrever com pouca luz; ter alguns livros em volta de mim, fechados, enquanto escrevo; tomar nota em papéis avulsos, reuni-los, catalogá-los e indicar, no texto que escrevo, a ordem de entrada das anotações. Em momentos de impasse, tomar uma palavra qualquer, de um texto qualquer, literário ou não, e começar a escrever a partir daquela palavra.

Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?
Além do livro que estiver lendo no momento, um livro qualquer, escolhido quase casualmente, para ler uma ou duas páginas, fechá-lo e devolvê-lo à estante.

• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?
A obra de Cecília Meireles, de quem minha mãe gostava muito.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Para mim, as circunstâncias não são exteriores nem anteriores ao texto, mas todas aquelas que se configuram no instante de sua emergência.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Inicialmente, afastamento e recuo; depois, avançamento e ímpeto.

O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando o trabalho de escrever produziu uma experiência, quando fez passagem, não importando muito o quanto se escreveu.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
O próprio escrever. Encontrar a voz de um personagem; fazer a intriga ganhar corpo; dizer algo que eu nunca tenha dito antes e que se apresente como uma surpresa para mim mesmo; cortar trechos que sobrepesam.

Qual o maior inimigo de um escritor?
Atualmente, a vizinha do andar de baixo, que arrasta móveis e liga o liquidificador depois das duas da madrugada.

O que mais lhe incomoda no meio literário?
Quando os livros se tornam menos importantes do que os autores.

Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
O contista Marcílio França Castro, de admirável talento, que escreveu Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse. E também Jorge Rocha, outro contista da pesada, autor de Tem uma nuvem que nunca sai do lugar.

Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível é a literatura infantil, para que as crianças cresçam com os livros. Descartável é o livro que tenta empobrecer nossas formas de sentir e de inventar, que reduz a linguagem ao servilismo.

Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
De novo, quando o autor se considera mais importante do que o texto.

Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Não consigo imaginar qual seria.

Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Um determinado trecho de entrevista dada à revista Veja pelo padre Marcelo Rossi, em 2011.

Quando a inspiração não vem…
Adiante, sem choramingar.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Bartolomeu Campos de Queirós, em quem eu daria um abraço terno e agradecido.

O que é um bom leitor?
Um leitor livre.

O que te dá medo?
Panelas de pressão (em uso, naturalmente).

O que te faz feliz?
Muita coisa. Atualmente, em especial, preparar quarto e enxoval para a chegada da minha primeira filha.

Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
Acho a dúvida mais produtiva do que a certeza. Ela está presente, em alguma medida, mesmo nos menores gestos: a dúvida sobre qual será a próxima palavra, por exemplo.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
São muitas. Que eu não me acostume ao que já sei (ou acho que sei), por exemplo.

A literatura tem alguma obrigação?
Não. Mas tem responsabilidades.

Qual o limite da ficção?
Acho que considerar o limite é um gesto central na escrita: porque quando se propõe a perturbar concórdias e consensos, quando promove rasgos nas zonas mais tramadas da cultura, a ficção corre o risco de bater lá na indizibilidade. Nesse sentido, toda palavra torna-se capaz de produzir uma experiência liminar, submetendo-nos, simultaneamente, ao terrível e ao sublime. Se o autor e o leitor topam esse risco é outra questão.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Recomendaria que ele perguntasse a outra pessoa, mais habituada à condição de liderada.

• O que você espera da eternidade?
Caso ela exista, para atingi-la, teremos de passar antes pela morte. E essa é a parte que mais me preocupa.

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