Ensaios e Resenhas

janeiro 2020 / Ensaios e Resenhas / Corpos solitários

Texto publicado na edição #237

Corpos solitários

"O corpo interminável", de Claudia Lage, evoca a angústia e o mistério que permearam a ditadura militar — e ainda ecoam

> Por Faustino Rodrigues

Cláudia Laje, autora de O corpo interminável

Cláudia Laje, autora de O corpo interminável

O corpo interminável, de Claudia Lage, é intenso. Ao abordar a ditadura militar brasileira (1964-1985), fala para os dias de hoje. A autora consegue evocar os ecos do regime autoritário para além de uma perspectiva puramente política e social. Transcende a descrição de ações de guerrilheiros, de suas trajetórias, suas personalidades — e a possível criação de heróis e mitos — preocupando-se em evidenciar como que mesmo aqueles que não viveram o autoritarismo colhem os frutos de sua vigência. Na trama, o mistério sobre a formação dos sujeitos-personagens se sobrepõe.

Claudia Lage apresenta uma narrativa repleta de pausas. Emaranha histórias e evoca esse mistério por trás de vidas direta e indiretamente ligadas ao período autoritário. O corpo mutilado por sessões de tortura, exposto na descrição de uma fotografia encontrada pelo casal Melina e Daniel, mesmo morto, não termina ali. Ele se prolonga no tempo, tornando-se interminável.

Curioso é que mesmo com pausas intercalando períodos curtos e longos, sem sentenças e conclusões por parte dos personagens — belo artifício para reforçar a relevância do mistério em si — o livro se mostra dinâmico. Claudia expõe a deformidade do corpo torturado física e psicologicamente, prolongando-o no tempo, no decorrer dos anos. Logo, após posicionar-se diante da morte, seria comum admitir a parada. O fim. Porém, diferentemente, o corpo mostra-se interminável.

E se eu enlouquecer, e daí, dentro da loucura estou salva, estou sã, dentro da loucura posso sonhar, sonho com o útero que me tiraram, eu o vejo, eu o seguro, eu o coloco de volta em meu corpo. O vão que me deixaram é restituído, o espaço, eu o ocupo, e dentro dele posso ter um filho, um filho que crio com as minhas próprias mãos, ou nem precisa ser uma criação de carne, uma criação, o que me é devido, a loucura não, o sonho.

Como forma de reforçar a narrativa nessa direção, Claudia, para conferir o caráter de perpetuidade do corpo, faz remissão a palavras como “vômito”, “vísceras”, “cavidade”, “reentrâncias”, “fisgada”, entre outras. E o faz sem que persevere um tom de profundidade apelativa, como forma de conduzir e prender o leitor à trama. Pelo contrário, é neste momento em que o livro se mostra ainda mais delicado e sensível, pois mantém a atenção à continuidade do corpo no interior da narrativa.

Tais palavras são evocadas tanto para falar das sevícias sofridas por uma guerrilheira aprisionada nos porões da ditadura quanto para mencionar a gravidez de outra guerrilheira, ou mesmo a de Melina, uma das personagens principais que, imediatamente, não tem qualquer relação direta com o regime militar. As angústias derivadas por este corpo são sempre presentes.

À medida que as páginas avançam, o leitor se habitua com as divisões entre os capítulos, narrados pelas distintas personagens. E, embora sejam diferentes, com formas de narrar características, próprias, não há qualquer quebra da narrativa. Pelo contrário, o livro permanece bastante homogêneo — e, sem dúvidas, a maneira como conduz a história por meio do corpo interminável é o que contribui para isso.

Nesse caso, uma aparente solidão dos personagens se destaca. Não que não haja solidariedade, principalmente ao se confrontar as histórias de Melina e Daniel, e as diferentes formas como seus respectivos pais lidaram com a ditadura. Porém, o sofrimento imposto pelo período autoritário, ao marcar o corpo, é sentido apenas por aquele que detém o corpo. Por isso as dores da clausura e tortura, embora sempre muito bem descritas, não podem ser totalmente compartilhadas — e tal impossibilidade angustia. O tom introspectivo da narrativa, nesse caso, conduz bem o leitor.

Mas a solidão não se configura apenas no claustro dos porões. A vida de Daniel com sua escrita e livros, de Melina, com a fotografia, revelam isso. Ademais, Antonio, pai de Daniel, exilado em Portugal, é descrito por Olívia, sua filha, como uma pessoa completamente só, que se tornou metódica e ríspida ao longo do tempo. Praticamente incomunicável e em alguns aspectos intratável.

O mesmo se passa com o avô de Daniel, que o criou após o sumiço de sua mãe, guerrilheira. Não havia diálogo com o neto. Óbvio, tudo isso pelo prisma do olhar do narrador-protagonista, em primeira pessoa. Tal solidão, de todos os personagens, reforça a ideia do mistério na trama. Um mistério que se sobrepõe a tudo. Não se podia falar, mesmo com o passar do tempo. Engole-se a angústia, vivendo-se com ela de modo sufocante.

Olívia decreta a morte do nosso pai como o fim de sua existência. Mas é o contrário, ao morrer que esse pai começa a existir.

Sombra do autoritarismo
Pode-se dizer que o Brasil ainda não é resolvido com a sua história autoritária. A anistia dada nos anos de 1980 teve como contrapartida o “perdão” dos algozes. Naquele momento, eles saem de cena, sem quaisquer punições mais severas, em nome de uma transição democrática “lenta, gradual e segura”. Somente nos últimos anos, com a Comissão da Verdade, fundada em 2011, começou-se a mexer de modo mais sistemático nos documentos da ditadura, escancarando muitas das atrocidades cometidas ao longo do regime — crimes já conhecidos pelas bocas de alguns de seus sobreviventes, porém não tão documentados. A ferida dos que viveram de perto o autoritarismo, sofrendo imediatamente com ele, ainda não estava cicatrizada.

Podia-se tranquilamente cruzar na rua com um torturador aposentado. E, com ele, a sombra do “nada deve ser dito” — ou “diga o que quero ouvir”. Ou mesmo assistir a uma homenagem ao verdugo do DOI-Codi em pleno Congresso Nacional, pouco depois de sua morte tranquila, em uma cama de hospital qualquer, com o soldo de uma vida garantido. O espectro autoritário ainda assombrava. Não por acaso, recentemente, apelaram a ele. Ao indivíduo mediano que sofreu com a ditadura resta engolir em seco.

Não há heroísmo fácil no livro de Claudia Lage. Isso porque não é um livro sobre heróis. Consequentemente, não há redenção por parte dos sobreviventes da ditadura — a gravidez de Melina não é isso. O sofrimento se propaga no tempo, simbolizado nas marcas no corpo, visíveis ou não, intermináveis, sim.

Angústia
angústia, no caso, faz-se bastante presente. Aliás, ela é essencial para a história na medida em que os personagens têm de lidar com os corpos, seja no esforço de reconstruir o passado e tentar identificar o destino da mãe guerrilheira, como no caso de Daniel, seja para lidar com o futuro, com a gravidez de Melina e as incertezas sobre como será a vida a partir de então.

O curioso é que essa angústia confere solidez à narrativa, à vida dos personagens. Não há certeza quanto a nada, ao passado e futuro — salvo a certeza quanto à incerteza. A conformidade a este fato, diante de tanta angústia, não é clara para os personagens. Porém, consoante o avanço da leitura do texto, tal conformidade mostra-se vigorosa para o leitor propriamente dito.

Desse modo, o leitor sabe que não haverá solução quanto aos dilemas suscitados. E isso não importa. Em seu lugar, tem-se um movimento perpétuo — novamente, reforçado pela ideia de não perenidade do corpo. Esse movimento se prolonga pelo tempo, pontuando as dúvidas dos indivíduos e interferindo em suas vidas.

O corpo interminável é um retrato do Brasil de hoje. Um Brasil angustiado com sombras do passado a se movimentarem em uma democracia que balança em sua legitimidade. No espelho, o temor de um autoritarismo, não mais efetivado por meio do sistema, do aparelho do Estado, mas, agora, sobretudo, pela angústia do indivíduo comum quanto ao seu futuro. Claudia Lage faz um manifesto que tem de ser lido.

 

 

 

Claudia_Lage_Corpo_interminável_237

O corpo interminável
Claudia Lage
Record
195 págs.

A AUTORA
Claudia Lage
Escritora e roteirista, publicou o livro de contos A pequena morte e outras naturezas, bem como o romance Mundos de Eufrásia, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2010. Escreveu, ainda, Labirinto da palavra, com ensaios-crônicas sobre literatura e criação literária, tendo recebido o Prêmio de Literatura de Brasília e finalista do Prêmio Portugal Telecom. Seus roteiros podem ser vistos na TV Globo, Conspiração Filmes, entre outras produtoras. Atualmente, ministra cursos de roteiro e criação literária no Rio de Janeiro (RJ).

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