Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Conversa descontraída

Texto publicado na edição #111

Conversa descontraída

Coloquial e despretensioso, Frenesi polissilábico, de Nick Hornby, demonstra como a leitura pode ser um ato prazeroso

> Por LÚCIA BETTENCOURT

Nick Hornby por Osvalter

Aos 52 anos, Nick Hornby já viveu o bastante para ser considerado, pelas novas gerações, uma “testemunha ocular da História”. Ele sabe disso, e disso tira proveito. Ele não amadureceu para se transformar na pessoa “séria” e “responsável” dos estereótipos. Manteve seu espírito jovem, manteve seus interesses e ainda conserva a curiosidade que o leva a explorar novas formas de experimentar a vida. Para começar, entendeu que esportes e diversões são os novos negócios em expansão no século 21. Hornby ‘alcançou o sucesso revelando sua paixão pelo futebol, e narrando sua própria história como membro da torcida do Arsenal (Febre de bola).

Seu interesse pelo rock é explorado (e bem aproveitado) contando aos mais novos as suas aventuras enquanto adolescente tentando ver os shows dos grandes ídolos do rock ao mesmo tempo em que, em sua cabeça, os interesses principais eram conseguir um baseado, se dar bem com alguma das meninas, arranjar bebida e descolar uma carona para casa. Ele revela que sua sorte foi que alguma parte de seu cérebro conseguiu perceber e registrar a importância daqueles eventos, mesmo que, das músicas escutadas, ele só possa lembrar de suas gravações em vinil (Alta fidelidade, 31 canções).

Superpondo as reflexões do presente com a linha de pensamento que a mente juvenil poderia lhe permitir, Hornby cria uma narrativa verdadeira, cheia de paixão, entremeada de humor e de auto-ironia, que pode revelar aos leitores jovens que é possível combinar erudição e cultura pop. E eis que enfim, descobrimos a verdadeira identidade do autor: ele é um ótimo professor, alguém cujo prazer em compartilhar conhecimento se combina com o talento de humorista, um homem desejoso de inspirar em sua audiência o interesse na descoberta do mundo, pois está convencido de que o maior prazer humano é o do conhecimento, aquele ao qual sacrificamos até o paraíso.

Seu sucesso nestas áreas de futebol e música lhe permitiu refletir sobre outro de seus interesses: a leitura. Contratado pela revista The Believer para fazer uma coluna falando sobre os livros que lia durante o mês, o autor coloca toda sua verve em demonstrar como a leitura é um ato prazeroso e procura ensinar seus leitores a encontrar espaço para os livros em suas vidas.

Antes de continuar com o Frenesi polissilábico de Hornby, é necessário fazer um breve comentário sobre a revista The Believer. Ela é uma publicação de São Francisco (EUA), de um grupo editorial chefiado por um rapaz de inegável talento e muita criatividade, Dave Eggers. Ele mereceria que se contasse toda sua vida aqui, como ele, aos 21 anos perde pai e mãe, ambos de câncer e se vê como o responsável por seu irmão menor, Christopher, de apenas 8 anos, abandona o meio oeste natal e se muda para a Califórnia onde não apenas consegue criar o irmão, escrever um livro sobre o assunto (A heartbreaking work of staggering genius), fundar uma revista e, em seguida, uma editora idealista que foi o grande sucesso dos primeiros anos do segundo milênio — agora ela está em dificuldades financeiras, mas continua de pé, após fazer algumas concessões ao deus Capital. Esse jovem, que acredita nos livros e na importância que têm para a juventude, casou-se com uma outra idealista, Vendela Vida, também escritora, além de ser a editora que emprega o irreverente Hornby. Os funcionários da revista são pouquíssimos, na verdade, somente Andrew Leland tem esse vínculo com a Believer, os outros são colaboradores. É a esse punhado de sonhadores, cheios de planos e de energia vital, acreditando no poder da arte para “consertar” a vida, devotando aos livros um respeito quase sagrado que Hornby apelidou de Frenesi Polissilábico (Polysillabic Spree), inspirado pelo grupo de cantores Polyphonic Spree, que se apresenta vestido de togas, e criando em suas apresentações uma incongruente dança, ingênua e espontânea, dionisíaca. (Como o tal grupo não tem um número certo de cantores, e como tem por hábito misturar-se à platéia, talvez tenham optado pela toga para poderem se reconhecer ao final das apresentações.)

Hornby compreende bem o espírito do periódico, que é servir de palco para falar sobre livros, novos ou antigos, sem limitação de espaço, sem compromissos nem comprometimentos com editoras e anunciantes (em seu início a revista pretendia se sustentar apenas com o dinheiro arrecadado pelas assinaturas. Eventualmente teve que abrir a quarta capa para um anúncio, de página inteira. Depois, numa nova concessão às exigências financeiras, colocou duas páginas centrais dedicadas a anúncios). A vida real é, para Hornby, um motivo de reflexão contínua e essa reflexão é sempre temperada com humor e ironia. Assim, mesmo compartilhando ideais com os sonhadores da revista, o autor várias vezes satiriza os hábitos dos editores e sua característica de sacerdócio.

A leitura de Frenesi polissilábico é uma espécie de conversa descontraída que o autor entabula com os leitores. Coloquial, despretensioso, ele começa, a cada capítulo, com a lista de livros comprados e a lista de livros lidos no mês. Já começa aí a criação de empatia com o leitor. Via de regra, nós, que amamos a leitura, sempre nos sentimos atraídos pelos livros que são comprados com muito mais facilidade do que são lidos. As descrições das pilhas de livros que se espalham pelas mesinhas de cabeceira, prateleiras próximas à cama, e que vão mudando de lugar com a chegada de novos volumes, e cedendo espaço a livros antigos que redescobrimos por acidente, depois de ficarem esquecidos em algum recanto atulhado da estante, são familiares.

As classificações que ele encontra para os livros também são absolutamente descritivas e merecedoras de adoção: por exemplo, num mês ele descobre o “livro que faz o leitor topar de cara com um poste”, de tão imerso na leitura. Noutro fala do “livro escrito por um amigo”, mas o importante é que nunca suas observações deixam de ser deliciosamente informais e pessoais, apesar de serem sempre ponderadas e justificadas. E que o leque de leituras seja sempre amplo e preso aos acontecimentos de sua própria vida. Se ele deseja parar de fumar, na lista e no texto aparecem livros sobre como parar de fumar. Se as eleições se aproximam, os livros sobre política se imiscuem entre os romances. Se um amigo lhe recomenda um livro, se um autor lhe agrada, se um leitor se manifesta, se ele se lembra, através de alguma associação de idéias, de Dickens, essas recomendações, esses comentários, essas preferências e até mesmo coincidências se materializarão em livros que ele comentará com brevidade, mas com pertinência, e, como ao fim da leitura de alguns “meses”, já descobrimos muitos pontos em comum com o autor, nós, leitores, estaremos tentados a buscar aquilo que despertou a atenção do comentarista, pensando: se ele encontrou algum prazer ou ensinamento neste ou naquele livro, eu também devo encontrar algo que me agrade.

Por isso é que nós, leitores brasileiros, mesmo desconhecendo uma grande parte dos livros mencionados, não abandonamos a leitura das “resenhas” de Hornby e até esperamos que as outras compilações de artigos publicados na Believer chegue até nós. Confesse, você não se deixa tentar por um livro cujo titulo afirma que Shakespeare escrevia por dinheiro?

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Nick Hornby

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Se você estiver ao sul de Londres, no encontro das estradas M25 E M23, estará passando pela pequena Redhill, a cidade natal de NICK HORNBY. Nascido em 1957, fã do Arsenal, popular time de futebol da Inglaterra, roqueiro que lê seus ensaios sobre grandes ídolos do rock nos shows da banda Marah, e escritor que aprecia o modo de escrever de Ann Tyler, Nick Hornby, antes de se transformar num autor de sucesso e num especialista em cultura pop, foi professor secundário. Seu primeiro livro publicado é um relato autobiográfico de sua experiência de torcedor fanático do Arsenal, e fez tanto sucesso que foi adaptado para o cinema duas vezes, uma na Inglaterra, em 1997 e, em 2005, nos Estados Unidos (Fever Pitch). Graças ao sucesso desse livro, Hornby passou a publicar artigos no Sunday Times, na revista Time Out, e a fazer resenhas de música para a New Yorker. Seu primeiro romance, Alta fidelidade, de 1995, foi logo transformado em filme, e depois num fracassado musical da Broadway. Outro de seus romances, Um grande garoto (1988), também se transformou em filme. Seus livros mais recentes tratam de um menino skatista que engravida sua namorada eventual (Slam), de um grupo de suicidas que, ao escolherem o mesmo local de onde saltar para a morte acabam por mudar de idéia ao falarem entre si sobre os motivos de suas decisões (A long way down), livros sobre canções (31 canções) e sobre critica literária (Frenesi polissilábico). Nick Hornby tem um filho autista, fruto de seu primeiro casamento, e em sua homenagem doou os honorários recebidos pelo livro que organizou em 2002, com textos sobre o a doença, Falando com o anjo, para a fundação Tree House, que ampara crianças com o problema.

Nick Hornby_livro

Nick Hornby
Trad.: Antônio E. de Moura Filho
Rocco
263 págs.