Ensaios e Resenhas

outubro 2018 / Ensaios e Resenhas / Conversa afiada

Texto publicado na edição #222

Conversa afiada

"Olive Kitteridge" passa a falsa impressão de tratar de temas banais, mas aprofunda males como depressão, ansiedade e pânico

> Por ARTHUR TERTULIANO

Elizabeth Strout, autora de Olive Kitteridge.

Elizabeth Strout, autora de Olive Kitteridge.

“Como se conhece uma pessoa?”: uma conversa sobre amenidades no trabalho chegou a esse tema e a coisa ficou séria. Reputação. Falando com ela. Conversando com as pessoas que convivem com ela. Convivendo. Lendo as anotações de sua analista. Surrupiando os diários da pessoa. Quando o tema voltou para astrologia — “o sol da pessoa diz como ela é, o ascendente é como ela se mostra para o mundo”, ele me explicava —, a diferença dos horários de almoço deu fim ao papo.

Olive Kitteridge, romance vencedor do Pulitzer de ficção, é mais uma obra estadunidense que confia em sua protagonista ao ponto de ela lhe dar o título. Aqui não parecemos confiar tanto: tascamos “uma mulher de talento” ou “o contador de histórias” como subtítulo dos filmes, enquanto na ficção literária dos conterrâneos abundam personagens sem nome — chame-os Ismael e tanto faz, nenhum memorável o suficiente para segurar um título.

Mas, afinal, quem é Olive Kitteridge na fila do pão?

Não foi um junho fresco o daquele ano, mas um mês que apareceu com a rapidez do verão, dias de luz solar caindo como manchas entre as bétulas, deixando as pessoas de Crosby às vezes atipicamente conversadoras.

Ela é a única constante entre os capítulos que se seguem cronologicamente. Pode-se ler cada um como quem lê um conto — ou como quem passeia numa cidade pequena. Novos personagens se apresentam poucos passos adiante, vidas resumidas a partir de situações muito específicas. A única certeza: em algum momento Olive dará o ar de sua graça.

Às vezes, de modo importuno: Ele já a teria despachado com um gesto de mão, ou dado a partida no carro, mas a lembrança do respeito o deteve. Kevin só queria olhar o mar e ficar a sós com seus pensamentos, quando sua antiga professora de matemática o reconhece e entra no carro, mesmo sem ser convidada. Ela tinha o rosto voltado para ele, mas ele não queria olhar nos olhos dela. Ela pergunta como vão os estudos de psiquiatria, a metrópole em que ele supostamente vive, a família. Ele fez um som gutural, reconhecendo não o fato — o que lhe importava —, mas que ela falara com ele. Mas a conversa fiada é só preâmbulo: algo nela o incomoda. Os dois são mais parecidos do que qualquer pessoa que os visse de fora do veículo poderia dizer. Ele queria que ela fosse embora; já estava na hora de ela ir embora.

Os dois são órfãos e tiveram pais suicidas. A despretensão do diálogo entre eles não impede apenas o melodrama fácil, mas também o seu encerramento prematuro. A ferida não é tocada de repente ou com vigor, mas é tocada — e eles continuam conversando. Algo se move dentro deles e eles continuam. Eu queria tanto não ter passado esses genes para ele, Olive confessa em determinado momento. Vemos tudo pelos olhos de Kevin, mas é como se também falássemos com ela.

Cidade pequena, vidas patéticas, todo mundo se conhece: o romance finge que é sobre isso, mas está o tempo todo falando sobre males tão contemporâneos, como depressão, ansiedade e pânico.

Angie não gostava quando as pessoas eram chamadas de patéticas, mas não disse nada — nem para o resenhista.

Olive está presente no bar em que Angie toca piano, num momento muito particular de sua existência. Nessa noite, Angie verá muitas coisas com uma clareza inaudita e, ao contrário do que ocorre com Kevin, Olive não vai se envolver:

Vinte e dois anos, pensou ela, enquanto ouvia o telefone chamar, poderia ser considerado um tempo muito longo para a maioria das pessoas, mas para Angie o tempo era tão grande e redondo quanto o céu, e tentar entendê-lo era como tentar entender a música e Deus e por que o oceano era profundo. Havia muito tempo Angie tinha aprendido a não tentar dar sentido a essas coisas, como as outras pessoas tentavam fazer.

Ainda que muitas vezes a divindade seja referida, as nuances religiosas do romance se perdem quando notamos que a referência a Deus é apenas a definição que mais se aproxima dessas epifanias, desses momentos de clareza — e que esses personagens têm à mão. Quando Henry olha para a baía, para os magros abetos ao longo da borda da enseada, e aquilo lhe parece lindo, a grandeza de Deus ali na imponência tranquila da costa e na água balançada suavemente há algo de lascivo — e nada religioso — nisso, ainda que ele assim descreva como se regozija.

Angie, apoiando agora a cabeça na parede do hall, alisando a saia preta com os dedos, sentiu que havia descoberto algo tarde demais, e talvez a vida fosse assim, você descobria algo quando já era tarde demais.

Num capítulo em que diferentes relacionamentos abusivos são abordados, também aprendemos que, às vezes, Olive será meramente citada e o capítulo seguirá sem sua intervenção. A expectativa de que ela interaja com Angie mais diretamente — além de dizer que gosta do frio — desmonta o leitor que espera do romance algo mais matemático.

Há algo de Mrs. Dalloway, quando Elizabeth Strout escreve que As rosas amarelas foram arrumadas em suas cestas por ela essa manhã, antes de o sol nascer. É no casamento do filho que finalmente vemos o mundo pelos olhos de Olive.

Falha e fascinante, ela só quer um pouco de paz, assoberbada pelo evento. Traços da personalidade que desconfiávamos por suas passagens nos capítulos anteriores ganham cores mais vivas — seja com ela deitadinha na cama, de vestido novo, tentando organizar os pensamentos e descansar, seja ao escutar comentários maldosos da nora, próxima demais da janela do quarto em que se escondeu.

“Bem, as pessoas se vestem de forma diferente por aqui.” Aquilo para Olive, é como se aquelas mulheres estivessem sentadas sobre ela, num barco a remo enquanto ela afunda na água turva.

Você está constantemente sob a nuvem da depressão e se sente uma “foca gorda”, mas o seu vestido novo faz com que se sinta especial:

ali está a dor de um profundo constrangimento, porque ela ama esse vestido. Seu coração se abriu quando ela topou com a musselina semitransparente na loja So-Fro: a luz do sol penetrou na escuridão ansiosa dos preparativos para o casamento; aquelas flores deslizando sobre a mesa no seu quarto de costura. Aquela peça se transformando no vestido que a reconfortou o dia todo.

As moças não se contentam em comentar roupas. A nora não a conhece — num casamento tão às pressas, não conhecia nem Christopher! —, mas dá a entender que estaria salvando o marido de uma louca, sua mãe, uma mulher difícil.

Mas ela o amava! Gostaria de dizer isso a Suzanne. Gostaria de dizer: escuta, dra. Sue, lá no fundo há uma coisa dentro de mim, e às vezes ela incha como a cabeça de uma lula e lança um negrume sobre mim. Eu não quis ser assim, mas acredite: eu amei meu filho.

Suzanne não estava interessada, mas Olive já disse a que veio para quem importa: o leitor.

Nessa alternância de protagonismos, sem recorrer ao sentimentalismo barato, Elizabeth Strout nos aproxima de Olive e de outras vidas. Acompanhamos a protagonista até seus últimos instantes, simultaneamente pensando em quantas histórias estão por aí querendo ser contadas, ansiando por alguém preste atenção de verdade, que não as trate como conversa fiada.

Olive Kitteridge era alguém assim. E o leitor sai do romance querendo prestar atenção.

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A AUTORA
Elizabeth Strout
Nasceu em 1956, nos Estados Unicos. Finalista do PEN/Faulkner Award e do Orange Prize, ela ganhou o Pulitzer de Ficção por Olive Kitteridge. No Brasil, já publicaram outro de seus romances: Meu nome é Lucy Barton. Strout mora em Nova York e ensina humanidades e escrita criativa em universidades americanas.

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