Inquérito

fevereiro 2016 / Inquérito / Contra a mesquinhez da vida

Texto publicado na edição #190

Contra a mesquinhez da vida

Paulo Venturelli: "Não acredito na eternidade. Ser eterno é estar enfronhado com as lutas do dia a dia".

> Por RASCUNHO

Paulo Venturelli, autor de

Paulo Venturelli, autor de Madrugada de farpas

Paulo Venturelli nasceu em Brusque (SC), em 1950. Desde 1974, vive em Curitiba (PR). É doutor em literatura brasileira pela USP. Aposentou-se recentemente do cargo de professor de literatura da UFPR. Como estudioso, dedica-se principalmente ao romance brasileiro, homoerotismo e estudo de gênero. Estreou na literatura em 1976 com os poemas de Asilo de surdos. Produz literatura adulta e infantojuvenil. É autor, entre outros, de Admirável ovo novoComposição para meus amigosFantasmas de caligem e A morte. Em 2013, ficou em segundo lugar no Prêmio Jabuti, categoria infantil, com Visita à baleia. Acaba de lançar o romance Madrugada de farpas, pela Arte & Letra.

Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Na adolescência. Quando descobri pela leitura que a literatura me tirava da mesquinhez da vida, dos cerceamentos estéreis do cotidiano.

Quais são suas manias e obsessões literárias?
Só escrevo com roupas velhas. Não produzo sem ler uns poemas antes. Não consigo ficar longe dos livros. Se ficar, a sensação é de que vou enlouquecer.

Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
De manhã, poemas. No início da tarde, ensaios sobre diferentes temas. Depois, ficção e ficção, o que renova as engrenagens da mente.

Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?
Um romance gay bem suculento. Para ela não se acovardar mais diante dos evangélicos e recuperar o projeto dos kits gays nas escolas. É preciso lutar desde cedo contra os preconceitos, o machismo, a intolerância.

Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Silêncio. Estar atormentado por um demônio e percebendo um buraco profundo lá dentro e que preciso preencher.

Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Silêncio. E nenhum compromisso que me afaste dos livros.

O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando escrevo um texto que contenha bons elementos a serem trabalhados até chegar a um nível razoável que possa levar algo ao leitor.

Nada me faz feliz. A felicidade é outro mito. A condição humana agride o humano. Mas quando estou lendo e escrevendo me sinto muito bem, desfruto de um prazer erótico no amplo sentido que me leva a um paraíso muito particular.

O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
A nebulosa que tenho pela frente. Os personagens criando vida própria e indo para direções inesperadas.

Qual o maior inimigo de um escritor?
Pensar em fazer sucesso, em se tornar um pop-star como está acontecendo com a maioria neste país sem leitores.

O que mais lhe incomoda no meio literário?
O narcisismo. A presunção. A mania de achar que descobriu a roda. A fome por holofotes.

Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Assionara Souza. Sua escrita é criativa, irônica, debochada e está longe da mesmice que contamina nossa literatura.

Um livro imprescindível e um descartável.
Dom Casmurro. Descartável é tudo o que a indústria cultural vem produzindo, em especial essas séries intermináveis para jovens.

Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
O hermetismo bizantino de quem acha que está produzindo um texto experimental, sem dar entrada para o leitor.

Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Tudo que é humano me interessa. Assim, tudo pode ser matéria sobre a qual me debruçar para escrever.

Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Sem essa de inspiração. Arte é trabalho duro. Qualquer coisa ou alguém pode detonar o processo criativo.

Quando a inspiração não vem…
Como não acredito neste mito romântico… É sentar à mesa, ler uns poemas que logo encontro um fio da meada e lá vou eu experimentar mares nunca navegados.

Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Sartre, para discutir seus romances existencialistas que têm tudo a ver com o mundo de hoje.

O que é um bom leitor?
Aquele que descobre que a parafernália tecnológica não lhe dá substância existencial, não cobre o vazio. Larga tudo isso e encontra nos livros o que nem sabia que procurava.

O que te dá medo?
Esta juventude hedonista, alienada, individualista, intoxicada pelo imediatismo, ludibriada pelos meios de comunicação e que não sabe o que está perdendo ao desprezar os livros.

O que te faz feliz?
Nada me faz feliz. A felicidade é outro mito. A condição humana agride o humano. Mas quando estou lendo e escrevendo me sinto muito bem, desfruto de um prazer erótico no amplo sentido que me leva a um paraíso muito particular.

Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?
Se eu tivesse certeza, não seria escritor. Uma caravana de dúvidas guia meu trabalho. Muitas perguntas sem resposta guiam meu mundo. Este é o motor da escrita.

Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Que o meu texto atinja o leitor em algum ponto e isto o leve a ler sempre, em especial as obras máximas da literatura.

A literatura tem alguma obrigação?
Tem. Ser tão cativante que transforme o leitor e este, por meio da leitura, descubra que era um fantoche na mão da mediocridade dos sistemas repressivos que tornam a vida uma sopa de isopor.

Qual o limite da ficção?
Não há limite para a imaginação. Um professor meu do ginásio dizia que depois que os gregos escreveram nada há mais para escrever. Depois dos gregos não veio mais nada? É só dar uma espiada por aí.

Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Não tenho líderes. Mas se este ET tivesse uma máquina de dar sumiço, o levaria até o cabuloso Eduardo Cunha e a todos os “anjos” capturados pela Lava-Jato…

O que você espera da eternidade?
Não acredito na eternidade. Ser eterno é estar enfronhado com as lutas do dia a dia, comendo o pão que o diabo amassou e só por isto produzindo e produzindo.

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Uma resposta para “Contra a mesquinhez da vida”

  1. Fátima disse:

    Uma das melhores respostas que já li até hoje, sobre que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro: “O hermetismo bizantino de quem acha que está produzindo um texto experimental, sem dar entrada para o leitor.”

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