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fevereiro 2019 / Rodapé / Conto e microconto

Texto publicado na edição #226

Conto e microconto

Nos microcontos, a interação autor e leitor é instantânea

> Por RINALDO DE FERNANDES

As fontes do conto estão nas narrativas populares, que sempre emergiram de modo espontâneo e sempre circularam oralmente pelas sociedades. Como sempre foram narrativas que cuidaram em transmitir o imaginário e sobretudo certos saberes das comunidades, vem daí a tradição do conto como um gênero que tem interesse em investigar a natureza humana, em espelhar os dilemas da vida privada, penetrando ainda em problemas mais gerais da sociedade. A forma narrativa longa por excelência, como se sabe, é o romance, que ganhou relevância com o Dom Quixote, de Cervantes, obtendo aos poucos a reputação de grande gênero da modernidade. O conto, sendo breve, tem sido confrontado com o romance nas teorizações. Cortázar, por exemplo, compara o conto com a fotografia (esta, se bem encaixada esteticamente, propiciaria uma explosão de sentidos) e o romance com o cinema. De fato, o conto é mais sucinto, refreando os elementos da narrativa (personagens, espaços, etc.); o romance é mais distendido, pormenorizado, acumulando esses elementos. O conto tem uma tradição fantástica e outra realista. Tende, portanto, ao prodigioso e ao documental. No que diz respeito ao estilo, à personalidade artística ou mesmo à cosmovisão de cada autor, os contos, claro, se diferem. A depender do autor e do seu talento, uns contos têm mais força, outros menos. Há os inesquecíveis, que são sempre retomados, que se tornam peças permanentes de estudo. Considerando, por outro lado, o critério da dimensão, houve certas alterações no conto. No século 19 havia uma tendência a contos mais longos — embora autores como Tchekhov (que escreveu o extenso O beijo) ou mesmo Machado de Assis (autor do dilatado O alienista) praticassem contos curtos. No século 20 a tendência foi o gênero se abreviar, mas um autor como Guimarães Rosa praticou contos longos, como o célebre A hora e vez de Augusto Matraga, que consta do Sagarana, de 1946. Agora, no século 21, além de se praticarem contos curtos (estão mais escassos os contos longos), há ainda o minimalismo — os chamados mini e microcontos. As redes sociais, caso do Twitter, por exemplo, encorajaram e mesmo impulsionaram a prática de uma forma como o microconto. Hoje se postam muitos contos na internet. Os mini e microcontos, encurtando a leitura, ensejam não raro respostas rápidas, a interação autor e leitor é instantânea. Isso é positivo. Tem ajudado a difundir a prática e o consumo de microrrelatos. E o que é um microconto? Uma pílula narrativa. Uma surpresa semântica. Uma narrativa extremamente compacta, que diz bastante com muito pouco. E que, por isso mesmo, exige grande atenção do leitor para apossar-se, mesmo que parcialmente, de seus sentidos, para desfrutar de seus encantos.

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