Ensaios e Resenhas

fevereiro 2018 / Ensaios e Resenhas / Condenados

Texto publicado na edição #214

Condenados

"Não adianta morrer", de Francisco Maciel, é um romance em círculos, cuja força arremessa todos seus personagens para o centro

> Por HARON GAMAL

Francisco Maciel, autor de Não adianta morrer.

Francisco Maciel, autor de Não adianta morrer.

Não adianta morrer, de Francisco Maciel, retrata personagens que habitam a periferia de uma cidade grande, no caso o Rio de Janeiro. A favela, a violência, o tráfico de drogas, os bares que circundam o local e povoam a narrativa, ora atuam como carrascos, ora como salvadores, ora como oásis a muitos desses sofridos personagens; ao mesmo tempo, como conjunto, servem de cenários para a construção da narrativa.

Não se trata de livro fácil, caso partamos do ponto de vista da criação literária. Como escrever um romance de periferia e transformá-lo em literatura? Todos estarão de acordo quando digo que não basta a mera transcrição da vida cotidiana destas pessoas. Será preciso algo mais, uma elevação de tom, de modo que possam, com alguma pungência, habitar as páginas de um romance.

Outro problema é a estrutura da narrativa. No caso de Não adianta morrer, o autor optou por uma via que escapa da linearidade, ou seja, há o abandono do tempo cronológico. Personagens aparecem, desaparecem e reaparecem em vários momentos, muitas vezes vivenciando acontecimentos dos mais diversos. A aparente desordem estrutural acompanha a também desordem psicológica e material em que muitos deles estão mergulhados, incluindo os descaminhos tortuosos da subida do morro e do emaranhado urbano de uma favela.

O livro avança através de narrativas encetadas, sobretudo, dentro dos mais diversos bares, botequins e biroscas da região do Estácio, onde fica o Morro de São Carlos. Personagens também se tornam narradores, cada um tendo uma história para contar, ou uma versão da mesma história. Nenhuma dessas são supérfluas, na verdade tecem um fio de Ariadne que nos guia a aventuras perigosas e, ao mesmo tempo, fascinantes, produzindo o desejo de, em vez de encontrar a saída, permanecer um instante a mais neste labirinto.

O romance inicia-se em alta voltagem: “Dafé está correndo pela Maia de Lacerda às duas e quinze da tarde, e vai morrer às duas e vinte de dois”. Reparem a construção quase nominal, o verbo “estar” formando par com o gerúndio “correndo”. A princípio trata-se de uma construção gramatical bastante simples, coloquial, mas que no texto apresenta a complexidade de uma existência: um personagem que só tem como possiblidade a fuga. Dafé está fugindo, Dafé sabe que vai morrer, Dafé teria algumas chances, como próprio narrador as enumera, mas opta pelo caminho mais difícil, correr de dois homens que o perseguem montados numa moto. Dafé parece conhecer o seu destino, sabe que desta vez não será possível escapar. Para quem conhece o Rio e sua geografia, percebe a presença redentora e, ao mesmo tempo, condenatória da favela. A rua Maia de Lacerda é uma via importante na periferia do São Carlos, local de circulação de muitos dos habitantes do morro, onde há vendas, açougues, bares, inferninhos, ainda mais botequins, pontos de encontro de uma malandragem de antemão condenada. Dafé sabe que não vai escapar. Na antecipação que o narrador nos apresenta, há uma morte anunciada. E isso vai continuar, vai povoar o livro, acontecerá a muitos outros personagens.

Lenta gestação
Francisco Maciel, como o próprio livro informa, foi morador do Estácio durante muito tempo. O livro foi gestado devagar. Com isso, o autor pôde percorrer o local, misturar-se à malandragem, anotar cada personagem, suas características, o jeito de andar, de falar, a idade de cada um, as mulheres que tiveram; em relação a estas, os homens que frequentaram suas camas, os vários filhos de cada namorado. Há também os velhos, pessoas que detêm a sabedoria, uma espécie de mentores do local, detentores da malandragem, procurados constantemente por quem precisa de uma palavra de consolo, ou mesmo de alguma ajuda material, mesmo que esta ajuda se consuma num copo de cerveja.

Como se chamam todos eles? Os nomes são típicos, possíveis de serem encontrados em qualquer periferia: Pedrão, Vovô do Crime, Guile Xangô, Vavau, Beleco, Marcelo Cachaça, as Comadres, os Quatro Mandelas, o Comando Vira Lata etc.

Há o carteado, o jogo de damas, e os bares que jamais fecham. Quando o último bêbado da madrugada está partindo, vemos a chegada de um novo, que ainda não terminou a última cerveja da noite e deseja continuar a bebedeira no dia que amanhece. Apesar de tanto desatino, existe gente sábia em meio a esta fauna humana.

Talvez o importante neste romance não seja propriamente o enredo, ou seja, uma história com início, meio e fim. Nenhum leitor irá, aqui, encontrar este tipo de narrativa. Trata-se de um romance em círculos, cuja força arremessa todos seus personagens para o centro, com intensidade cada vez maior, fazendo que desapareçam e reapareçam, deixando transluzir uma aura de pureza, porque, enfim, todos desejam a inocência perdida. Não se trata de um mundo de criminosos nem de vítimas, mas de seres humanos sujeitos a todas as intempéries.

Importante também neste livro são referências a muitos escritores, principalmente aos que fazem parte do cânone da literatura universal, como Dostoievski e Kafka. Ambos, cada um em sua época, souberam tirar da periferia, onde viveram grande parte da vida, substratos para seus romances. O escritor russo conseguiu ver no local tudo que dizia respeito ao ser humano universal. Hoje seus livros estão traduzidos em quase todas as línguas, refletindo sentimentos de todos os lugares do mundo. Quanto a Kafka, escritor de um país menor à época (era de Praga e escreveu em alemão), soube mostrar que a grandeza não era uma questão de riqueza, mas da capacidade de vislumbrar a falência do humano.

Francisco Maciel segue certa tradição do romance brasileiro, que se inicia com Manuel Antônio de Almeida, passa por Aluísio Azevedo, Lima Barreto, Graciliano Ramos, João Antônio, para desembocar em Paulo Lins. Enfim, Maciel atinge um século 21 em que ninguém mais é inocente. Talvez o Leonardo, de Memórias de um sargento de milícias, já aponte um pequeno marginal, mas ainda salvo pela pena de um Romantismo como missão. Isso já não é possível com Dafé, em tempos em que a palavra milícia tem outro sentido e a literatura abandonou qualquer tipo de sacerdócio.

Os personagens de Não adianta morrer estão mais para os de Cidade de Deus. A verdade que Francisco Maciel terá de enfrentar com seu livro não é de caráter literário, mas uma desvantajosa comparação a um romance alavancado pela visibilidade que só a cultura de massa é capaz de conduzir. Mas fiquemos nas sombras eternas (eterna enquanto dure) da boa literatura.

 

 

 

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Não adianta morrer
Francisco Maciel
Estação Liberdade
284 págs.

 

 

O AUTOR
Francisco Maciel
Nasceu em São Gonçalo (RJ), em 1950. Em 1997, venceu o prêmio Julia Mann de Literatura, promovido pelo Goethe-Institut, com o conto Entre dois mundos, cujo título batizou a coletânea com os textos vencedores, publicada em 2001 pela Estação Liberdade — que também editou seu romance de estreia, O primeiro dia do ano da peste, no mesmo ano.

 

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