Ensaios e Resenhas

abril 2012 / Ensaios e Resenhas / Condenados ao inferno

Texto publicado na edição #103

Condenados ao inferno

Como chegamos onde estamos? Comida fria e nenhum tempero. Luz amarelinha, quando tem, água, quando há, roupa a prazo a […]

> Por MARCIO RENATO DOS SANTOS

Como chegamos onde estamos? Comida fria e nenhum tempero. Luz amarelinha, quando tem, água, quando há, roupa a prazo a perder de vista, um perfuminho mais pra menos que pra mais, uma, duas, três horas de casa pro trampo e do trampo pra casa mais uma, duas, três horas, isso quando há casa e quando há trampo, trampo nada mais que escravidão disfarçada.

Então, uma coisa assim de destino construído de ser muitos e os muitos são tantos sem instrução escola então quando há é a pior possível e professores semi-analfabetos de olho só no salário e o salário é de fome tudo bem tudo bom vamos lá um churrasquinho no domingo com carne de terceira quando há uma cervejinha um joguinho na tevê que agora é digital mas sempre foi de bosta pior que a do lixão e na cabeça só a lembrança das contas a pagar e elas são muitas — como chegamos onde estamos?

Melhor é nem ficar doente porque pobre não consegue comprar remédio e uma comprinha na venda da rua pra no final do mês pagar mais que a inflação esses negócios do mercado financeiro ninguém entende nem esses que na televisão digital de plasma sei lá falam falam e não dizem nada COMO CHEGAMOS ONDE ESTAMOS? o carrinho do consórcio a geladeira vazia o cheiro do rabo essa casa que nem sei como foi erguida e essa merda de vida que não tem explicação.

O filho nasceu chora escorre o nariz a bunda suja não dá mais pra dormir nem pra ver novela que o bichinho só grita esperneia e já foi postinho benzedeira e tem tanta visita comendo e bebendo o que nem tenho dinheiro pra pagar e só por Deus que não me assaltam e levam essas moedas lá se foi a condução e como chegamos onde estamos? o resto e pra sair dessa só se virar Ronaldinho Mega-Sena e lá está a fila acho que nesse fim de semana muda a vida, amém, sarava, fui.

E parece que 2005 é ontem quando saiu Mamma, son tanto felice o primeiro da série (Inferno Provisório) de cinco romances e agora surge o antepenúltimo e quarto O livro das impossibilidades, do escritor mineiro radicado na paulicéia Luiz Ruffato, e como chegamos onde estamos? um rosebud ou decifra-me ou te devoro e os recursos presentes nos livros anteriores pulsam novamente os itálicos negritos tipologias variadas por que a polifonia do proletariado não cabe num romance convencional e a página ainda parece uma instalação tantas são as intervenções gráficas.

Se a classe operária é barrada no paraíso tanto faz o inferno chão de fábrica dirigir ônibus lotado dar troco catar lixo e estar preso numa casta nada leva além e no jogo de futebosta só o presidente do clube ganha nada liberta resta morar num barraco no rio são paulo curitiba porto alegre tanto faz a cidade pois ser pobre é uma merda em qualquer lugar e a porra da resposta pra droga da pergunta ninguém sabe como chegamos onde estamos?

Sair dessas periferias beiradas bordas bostas só mesmo se o traseiro nasceu diante e virado prum luar bem cheio e olhe lá são tantos cavalos ferrados fudidos e essa vida parece roteiro de roteirista mediano previsível televisivo e olhe os mano as mina será que nenhum desses mané prefeito governador presidente deputado vereador assessor nenhum desses pulha nenhum desses verme responde e explica como chegamos onde estamos? sei lá, brother.

Ruffato problematiza literariamente o que ninguém fez antes e dá espessura ao andar de baixo enquanto a paulistânia de cafés & amores expressos a carioquice brejeira a curitibânia leminskóide a tchezada buena vista pro guaíba como chegamos onde estamos? tanta gente não quer ver nem sentir o cheiro do que há por aí e daqui uns tempos talvez nem dentro de blindado seja viável transitar as veredas do grande sertão: brasil e esse papo não é luta de classes mas uma guerra onde o povo (e no fundo você) sempre é derrotado.

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Ruffato 4

(Inferno Provisório — Volume IV)
Luiz Ruffato
Record
155 págs.