Ensaios e Resenhas

novembro 2014 / Ensaios e Resenhas / Compreensão do mundo

Texto publicado na edição #175

Compreensão do mundo

Paulo Nunes aponta caminhos entre uma percepção aguda da vida e um apuramento da linguagem poética

> Por MÁRIO ALEX ROSA

O que é um corpo no escuro? É com essa pergunta que procuro ler o excelente livro de poemas O corpo no escuro, obra de estreia de Paulo Nunes, mineiro radicado em São Paulo (SP), onde trabalha como livreiro. A demora dele em publicar tem algumas razões. Uma delas, sem dúvida, foi o cuidado em refinar ao máximo a linguagem, qualidade que podemos notar em quase todos os poemas. Já no poema de abertura, Confissão e prólogo, o poeta, mais que uma simples confissão laudatória, apresenta em versos um “poema-manifesto” sobre a poesia e o lugar do poeta nos dias de hoje, colocando em discussão o excesso de metapoemas na poesia contemporânea brasileira. O próprio poeta, ao escrevê-lo, se arrisca também nesse volume com cultismos autistas sobre o próprio fazer. Mas a força do livro me parece que começa verdadeiramente no Canto primeiro, no qual um ser ignoto surge desse ambiente escuro protagonizado pelo poeta. Imagens fortes vão se estruturando entre sons, cheiros, sem identidade, alguém surge como se fosse um bicho, aquele bicho do poema de Manuel Bandeira? A propósito de Bandeira, há um poema que talvez ilumine a experiência desse poeta mineiro tão seguro de sua linguagem e sua vivência.

Quem sabe a poesia/vida precise daquela nódoa de lama que salpica a roupa branca e engomada do sujeito que acabou de sair, conforme lemos em Nova poética, de Manuel Bandeira. Poeta cujas experiência e reflexão poética parecem amalgamadas na sua vida. No entanto, guardadas as diferenças entre os dois poetas, é possível pensar que a poesia de Paulo Nunes aponta para caminhos entre uma percepção aguda da vida e um apuramento da linguagem poética. A epígrafe “Vós habitais um quarto pobre, misturado à vida”, de Artaud, que abre o livro, parece confirmar que só é possível essa mescla quando não se escamoteia a vida. Evidentemente que a experiência em si não é e nunca deverá ser sinônimo de boa poesia ou de qualquer arte; no entanto, ela pode ser uma aliada, sobretudo quando há uma conjunção equilibrada entre linguagem e vivência. No caso de Paulo Nunes, podemos perceber que há um domínio íntimo e discreto nessa poesia cuja experiência está muito bem traduzida em linguagem poética. Na verdade, é um poeta que se expande por contenção, ou seja, conforme vamos lendo seus poemas, estrofes, versos, descobrimos, a cada detalhe, a riqueza lírica de quem sabe que uma das melhores expressões nesse gênero é a compreensão do mundo, sem precisar cair no lugar-comum da poesia social ou de certa poesia hoje que quer ser politicamente correta com os desfavorecidos. Aliás, esse corpo no escuro, essa poesia que vem do escuro, se ilumina pela falta e, paradoxalmente, quanto mais refratária à luz, mais ela (a poesia) ilumina. É como se essa poesia nascesse da contraluz, para, assim, iluminar o que possa estar na sombra. Assim, um dos temas fortes do livro é o do desamparo do homem diante de tantas indiferenças.

Consciência extremada
Para citar apenas dois poemas do livro Obvni, como Canto primeiro e O vigia, ou A correnteza, do segundo livro, eles alcançam um grau de excelência sem precisar banalizar os fatos ou mesmo a condição desumana desses personagens anônimos ou não. O que se pode notar é uma consciência tão extremada, que a torna delicada, pois, afinal, esse corpo no escuro medita sobre a fragilidade da linguagem poética em tentar traduzir o sentido numa melhor forma ou a forma numa melhor equação criadora.

A poesia não precisa nem deve se prender ao mundo, nem se fechar em si mesma, como se os poetas devessem exprimir apenas e somente os seus sentimentos mais recônditos. Afinal, a grande poesia, histórica, social, amorosa ou de vanguarda, não deixará de restituir o valor imprescindível entre concisão e sentido, ou seja, unir os aspectos técnicos sem se distanciar das estranhezas afetivas que por ventura a vida provoca. Como bem observou Alfredo Bosi, ao dizer que “a poesia não se limita a refazer por dentro a percepção do outro. Também nomeia o mundo de objetos que nos rodeiam e constituem nosso espaço de vida, balizas do itinerário cotidiano”. E é nessa composição mesclada entre sujeito e objetos do mundo que o poeta Paulo Nunes procura dar a ver a verdade dos seus sonhos, mesmo que eles possam emergir de alguns pesadelos, como a perda, motivo de muitos poemas (“Perder, às vezes, é quando se ganha/ um tato mais sutil, mão que aprendeu/ acariciando a febre e agora busca/ algo que persiste entre a pedra e a brisa” ou “E se me tiram o que mais me pertence/ nada me dando em troca, dou-me, perplexo” — trechos do poema Alinhavo). E não é estranho que a temática da água compareça em diversos momentos da obra, sobretudo no segundo livro, cujo título é um indicativo de que, em algum momento, quem sabe, os desencantos serão levados pelas águas, pois, como sabemos, a água vive em constante movimento, o que poderia ser um alento para essa poesia tão sensitiva. Mas lembremos: se, por um lado, a água é contínua, por outro, a poesia é fixação de uma memória que cobre tudo e deixa no seu reservatório um mundo de lembranças. Enfim, penso que esse poeta merece ser lido por aqueles que ainda acreditam que a poesia por um triz reluz no escuro.

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Paulo Nunes

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Nasceu em Patos de Minas (MG), em 1965. Formado em filosofia, é livreiro na Universidade de São Paulo, poeta e letrista musical.

no fosso do elevador no quarto de despejo no armário embutido a noite eterna espreita (versos d'O vigia)

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Paulo Nunes
Companhia das Letras
119 págs.