Ensaios e Resenhas

junho 2011 / Ensaios e Resenhas / Compilação desequilibrada

Texto publicado na edição #132

Compilação desequilibrada

O livro de contos Noites urbanas, de Daniel Piza, é uma compilação de textos muito distintos entre si em matéria […]

> Por CIDA SEPULVEDA

O livro de contos Noites urbanas, de Daniel Piza, é uma compilação de textos muito distintos entre si em matéria de qualidade literária.

Há que se perguntar: o que considero qualidade literária?

A resposta é: um bom texto agrada ao leitor, no caso específico, ao leitor exigente, acostumado às diferentes leituras e ávido por prazer estético.

Certamente tal leitor não necessita portar carteirinha de filiado a correntes estéticas. Basta que leia por desejo, curiosidade, espírito investigativo e imaginativo.

O livro em questão traz alguns contos excelentes e outros muito fracos.

Entre os primeiros cito Golpe de vista e Ledinha.

Golpe de vista trata da disputa entre craques de futebol. O texto se destaca pela narrativa tensa que reflete muito bem o clima de uma disputa acirrada. Os personagens são convincentes, suas histórias nos remetem à realidade dos jovens pobres que se tornam semideuses através do futebol.

Em Ledinha, a intertextualidade com Dom Casmurro é feliz. Uma jovem de periferia, sem dotes físicos e com poucas chances de conseguir um bom marido, surpreende ao aparecer com um rapaz educado, bem estruturado materialmente, um marido modelo. Casada e ciente das traições do marido, Ledinha as releva, até mesmo quando descobre que a esposa do melhor amigo do casal é amante de seu marido. Quando o marido morre, ela cogita a possibilidade de se aproximar do amigo traído, identifica-se com ele. Mas, logo descarta a idéia. Certa melancolia perpassa o texto, resultado da consistência humana e poética que o estrutura. A meu ver é o melhor conto da coletânea.

Entre os últimos, temos a maioria dos textos. Há de se perguntar como o autor se deixe entrevar a ponto de publicar um “conto” como As quatro estações, a seguir transcrito integralmente:

Alimentou as esperanças no Natal, brindou a chegada do Ano-Novo. Espantou a tristeza no Carnaval, renovou a fé com a Páscoa. Cobriu os pés no inverno, colheu flores na primavera. E assim chegou ao fim do ano, aguardando o futuro que não veio.

O texto choca pela primariedade. Não se justifica em hipótese alguma, assim como Descontrole, também transcrito integralmente:

Matou a mulher num surto e foi preso em camisa de força. Alegou que estavam casados havia 20 anos e havia 20 anos brigavam pela posse do controle remoto. E anunciou que vai processar a operadora de TV por ter aumentado, sem aviso, o número de canais.

Texto de qualidade muito aquém de uma notícia comum de jornal. Qual o propósito disso?

Educação pelo outono, título insinuante de um conto que frustra. A personagem Susana não tem consistência, embora o narrador, convencido de sua obra, tente construí-la culta e distinta. Ao leitor, ela aparece sem graça e artificial.

Circuito interno apresenta indícios de um suspense que não se concretiza, drama forçado. Melodrama escrito com ardor artificial e título sugestivo que a narração frustra.

Auto-estima revela o caráter da maioria dos contos do livro: falta de assunto e de poesia.

Então ela decidiu contar para a amiga que vai se casar de novo: “Sim, casar. Você vai conhecê-lo, ele é um homem muito atencioso, que melhorou minha auto-estima. Todas as mulheres gostam dele, sabe? E ele é muito interessante, um ótimo profissional, que ganha muito bem, mas sabe que a vida não é só dinheiro. Ele me fez sentir mais jovem, mais bonita”. “Mas, afinal, quem é esse homem?” “Meu cirurgião plástico.”

Em O último monólogo do grande ator percebe-se o intuito de profundidade psicológica do personagem, porém o texto fica na aparência dos sentimentos, nos lugares-comuns do envelhecimento.

O drama é apenas sugerido, não vivenciado textualmente. Há um discurso poético do personagem que “salva” o texto da ruína completa. Em contrapartida, o desfecho é protocolar:

O ator caiu no banheiro, quase sem fazer barulho. Na manhã seguinte, sua mulher chamou o porteiro do prédio para arrombar a porta. O socorro não chegou a tempo. Seu rosto estava lívido e nítido como nunca.

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Daniel Piza

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Nasceu em São Paulo, em 1970. Em 1991, iniciou a carreira de jornalista em O Estado de S. Paulo. Trabalhou na Folha de S. Paulo, como redator, repórter e editor-assistente da Ilustrada. Foi editor e colunista do caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil. Em 2000, retornou ao Estado como editor-executivo e colunista cultural; assina também uma coluna sobre futebol. Traduziu oito livros, de autores como Herman Melville e Henry James, e organizou seis outros, nas áreas de jornalismo cultural e literatura brasileira. Publicou pela Bertrand Brasil Contemporâneo de mim. É autor de mais treze livros: três coletâneas, um romance juvenil, um infantil, dois perfis, cinco ensaios e a biografia de Machado de Assis (prêmio Jabuti).

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Daniel Piza
Bertrand Brasil
176 págs.