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novembro 2011 / Translato / Como traduzir com certa sombra de coerência

Texto publicado na edição #128

Como traduzir com certa sombra de coerência

Coerência. Do começo ao fim. Se o texto é extenso, mais difícil é mantê-la, escorreita, ao longo de cada linha. […]

> Por EDUARDO FERREIRA

Coerência. Do começo ao fim. Se o texto é extenso, mais difícil é mantê-la, escorreita, ao longo de cada linha. Requer do tradutor certo método: montar lista de termos que sobressaem pela repetição e ou pela posição-chave na trama. Requer, para tanto, leitura prévia, para sentir o texto e organizar, não só a lista, mas a estratégia de tradução.

Requer, suspeito, tudo o que quase nunca se faz. Os motivos são muitos: falta tempo, capacidade, competência, conhecimento. Muitas vezes, organização mental. Falta, principalmente, o estímulo que só bom dinheiro ou sólido ideal podem conferir.

Nem todo original, contudo, é em si mesmo coerente, e nisso há que ter discernimento, para não queimar as pestanas em vão. Não é preciso — embora seja talvez desejável — inserir linha de coerência em texto que não a tem, nessa linha.

Há muitas linhas de coerência. A das palavras repetidas, ou palavras-chaves, é uma. O cuidado com os nomes próprios é outra. As características dos discursos — de personagens ou do narrador, com seu laconismo, sua prolixidade, seus superlativos (à la José Dias), sua linguagem erudita ou vulgar, seu registro formal ou informal — formam outra linha. São tantas as linhas: maneira de empregar pronomes, gosto pela adjetivação, queda pelo uso de provérbios, inclinação pelo vício do estrangeirismo.

Guardar coerência. Não é tarefa fácil para o tradutor. Exige todo um estudo prévio do texto, a criação de texto anotado, que lhe servirá de guia. Bússola para o tradutor se embrenhar na selva espessa do texto.

Coerência interna, nem sempre se cobra do original. Da tradução, sempre se exigirá. Ossos do ofício, que os critérios não são os mesmos para original e tradução. Texto vassalo, a tradução já nasce em dívida com o leitor e com o crítico. Deve, primeiro que tudo, não só coerência ao original, mas coerência a suas próprias linhas tortas. Tudo lhe será cobrado, no devido tempo.

Coerência requer estratégia, organização, proposta. Pede proposta de texto, que o antecede e com ele guarda relação como a que há entre itinerário planejado e trajetória percorrida.

Coerência de conjunto, que só se percebe, por inteiro, ao final do texto, mas que, para tanto, precisa conceber-se antes da primeira linha torta. Que a coerência não pode ser apenas pontual, localizada, dentro da linha, da página, do capítulo. Tem que se estender, capilarizada, esparramando-se por toda ranhura do texto. Coerência de conjunto.

Dito assim parece fácil, mas a coerência é também instrumento de precisão, ajuste fino e auxílio luxuoso que se usa no acabamento do texto. O texto traduzido começa e acaba com a aplicação de uma medida de coerência: no planejamento inicial — proposta — e no acabamento. No entremeio, vale a reflexão, a pesquisa e o trabalho braçal. Vale também a perícia do tradutor — o ouvido afinado, que sente o texto como o instrumentista sente a música.

Coerência é boa parte do que se perde em uma má tradução, especialmente em tradução mecânica. A tradução automática não é apenas ruim — é acima de tudo incoerente, pois sintagmas e frases são traduzidos de maneira isolada, e portanto desconectada e incoerente.

Na boa tradução, porém, não será assim. Haverá coerência, nas pequenas e nas grandes coisas. O vulgar não será elevado, nem o culto, rebaixado. Não se lerá harmonia onde o autor quis o disforme. Nem se lerá o concreto onde o autor disfarçou o diáfano. Tudo em seu devido lugar: coerência é toda a lisura que o tradutor pode dar ao texto, o jogo certeiro da peneira que separa o joio do trigo.

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