Sob a pele das palavras

julho 2017 / Sob a pele das palavras / Como é bom ser camaleão, de Chacal

Texto publicado na edição #207

Como é bom ser camaleão, de Chacal

Impressiona a homogênea toada, batida, dicção que Chacal sustenta desde 1971

> Por WILBERTH SALGUEIRO

Chacal, autor de Muito prazer, Ricardo

Chacal, autor de Muito prazer, Ricardo

quando o sol está muito forte,
como é bom ser um camaleão
e ficar em cima de uma pedra espiando o mundo.
se sinto fome, pego um inseto qualquer
com minha língua comprida.
se o inimigo espreita, me finjo de pedra
verde, cinza ou marrom.
e, quando de tardinha o sol esfria,
dou um rolê por aí 

Carioca da Zona Sul do Rio de Janeiro, Chacal vem militando há tempos na praia da poesia. Impressiona a homogênea toada, batida, dicção que o poeta sustenta desde 1971, quando estreia aos 20 anos com Muito prazer, Ricardo, até seus recentes Belvedere (2007) e Tudo e mais um pouco (2016). Décadas depois, o tom se mantém: o prazer dos intensos anos 1970 se estende à bela vista dos anos 2000. Estampa-se um nítido projeto de poesia como deleite, gozo, divertimento, celebração. Será, no entanto, que, em plena ditadura, os versos do poeta se postaram à distância das intempéries políticas? E se esta distância for mais uma tática — um tipo de resistência? Terá sido tal procedimento uma opção do autor ou um modo estético geracional? Como o desbunde contracultural — supostamente à margem tanto de valores ideológicos burgueses, caretas e conservadores quanto de atitudes típicas de um radical engajamento, bélicas e utópicas — expressou a história de seu tempo?

O poema Como é bom ser um camaleão se encontra no referido livro de estreia de Chacal. Com 9 versos de 6 a 14 sílabas e ocasionais rimas toantes, prima pela coloquialidade, cujo ápice acontece no derradeiro verso, com a informal expressão “dar um rolê” — dar uma volta, um passeio. De resto, trata-se de um texto bem à moda marginal, em que o pequeno afronta o monumento, o cotidiano impõe-se como topos, o prosaico lirismo se faz com pitadas de pueril inocência. A singela fábula fala de um camaleão, que, curioso, fica a espiar o mundo; faminto, usa a “língua comprida” para saciar-se; acuado, usa sua arma cromática e se disfarça; precavido, longe o inimigo, sai “por aí”, livre, lépido e fagueiro. É pela via alegórica que esse ingênuo poema ganha densidade e sai do lugar de leve entretenimento para ocupar outro posto: o de espia do mundo.

O mundo que o poema (o camaleão, o poeta) espia é o Brasil militarizado, sob a égide de generais, Arenas, Dops, DOI-Codis, SNIs. Amedrontados, os cidadãos, em especial nos contextos urbanos, viviam tensos, à flor da pele, na corda bamba: estávamos, em 1971, no auge do governo autoritário de Garrastazu Médici. Conjunturas econômicas favoráveis explicam, sem que nenhuma fé transcendental seja invocada, o propagado milagre do então ministro da Fazenda Delfim Neto. O que pouco se propagou foi que esse aparente milagre estava, na verdade, concentrando renda e acumulando capital para os do topo da pirâmide, enquanto, cá em baixo, a população trabalhadora e a classe média mal se davam conta da crescente perda de poder aquisitivo e do incrível aumento das desigualdades sociais. Se, na economia, o país se mascarava próspero, na condução política o regime se fazia de chumbo — e às escâncaras.

Da tomada golpista do poder, em 1964, ao endurecimento de Médici, passando pela distensão de Geisel e pela abertura de Figueiredo, até chegar aos civis Tancredo e Sarney e à eleição de Collor, o Brasil foi sendo pintado por cores as mais distintas. No período mais escuro desse arco multicromático estava nosso poeta, Chacal, em 1971, e seu camaleão. Do livro Muito prazer, Ricardo, o próprio autor vai comentar, com certa melancolia, na reedição de 1997: “no verão de 72, Hendrix, Joplin, Jim Morrison, Brian Jones já viam, desmedidos, a grama crescer pela raiz. As flores no cabelo murchavam e Lennon desacordava do sonho. No Brasil, a Lei do Cão vigorava. Tortura e morte eram a ordem do dia”. O poeta, futuro bacharel em Comunicação pela UFRJ, em 1977, certamente não desconhecia as agruras — políticas, econômicas, culturais — pelas quais passava o país. A revolução, para a tribo e a trip de Chacal, era a vida, o corpo, o movimento. No píer, nas dunas da Gal, no Posto 9, a ordem do dia era algo tipo Rápido e rasteiro: “vai ter uma festa/ que eu vou dançar/ até o sapato pedir pra parar./// aí eu paro/ tiro o sapato/ e danço o resto da vida”. O efeito cômico desse conhecido poema de Chacal se dá sobretudo pela sutil ambivalência do segundo “dançar”: além do dionisíaco “bailar”, o verbo também se permite ler como “sair-se mal”, “ser preso”, “ser morto”.

O camaleão de Chacal é um animal político. Para sobreviver, camufla-se: ora se protege das forças naturais (sol e fome), ora se esconde do “inimigo [que] espreita” (medo e terror); quando as condições favorecem, curte a liberdade de ir e vir. Chacal nem adere ao discurso do milagre nem se engaja na luta armada. Seu barato, seu desbunde, sem culpa, é o prazer, o muito prazer juvenil do sexo, drogas e rock’n’roll. O “inimigo” do poema bem pode ser a ditadura e seus tentáculos: censura, repressão, torturas, assassinatos — mas também, sem dúvida, esse “inimigo” pode ser a caretice, a chatice, o sistema, a burguesia, as instituições, a patrulha ideológica, “anel de grau, hipocrisia, paletó e gravata, carreirismo, eficiência, prepotência, dinheiro no banco”, como disse Cacaso com precisão no ensaio Tudo da minha terra e, em Bermuda larga, de Comício de tudo (1986), o próprio Chacal: “muitos lutam por uma causa justa/ eu prefiro uma bermuda larga/ só quero o que não me encha o saco/ luto pelas pedras fora do sapato”. No poemão coletivo marginal, escrito nos idos anos setenta, tem de tudo um muito: desde poemas e poéticas mais programaticamente vinculados a questões de ordem ideológica ou mesmo de ordem estética — herdeiros cepecistas ou vanguardistas — até, antípodas, obras que, sem cerimônia, se fizeram ao sabor do miúdo, do rolê, do improviso, do relaxo, do gesto, da viagem, do desbunde, do assistemático, da microfísica do corpo.

A figura do camaleão no poema de Chacal aponta para um tipo de resistência pouco considerada nos ensaios crítico-teóricos acerca da poesia marginal: o disfarce, como resistência. Com facilidade, esse disfarce pode se confundir com “alienação” ou “covardia”, ao não reconhecer ou não enfrentar abertamente o inimigo. Mas fingir-se de pedra na presença do inimigo é já, de algum modo, reconhecê-lo e enfrentá-lo. A arte do fingimento como tática de sobrevivência: não residiria aí, nessa espécie de mimese, uma razão de ser da própria arte? “A arte é moderna através da mimese do que está petrificado e alienado”, dirá Theodor Adorno em Teoria estética. No poema, a despeito de metáforas, o camaleão se disfarça literalmente de pedra: fingindo-se coisa, o animal (o homem) se protege das ameaças que podem exterminá-lo. A longa tirania do Estado brasileiro também se fez camaleônica e fez com que tantos cidadãos, para sobreviverem, se transformassem. Outros tantos não puderam adotar tal estratégia — e sucumbiram.

Sem perpetuar a culpa de ter sobrevivido à barbárie, o poema de Chacal nos recorda que, “assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história”, como escreveu Walter Benjamin nas suas célebres teses sobre a história. O tempo não para nem retorna, mas saber ler o passado pode impedir — ou dificultar — que flores murchem prematuramente. Se nada obstruir o encontro do “passado” com o “sol”, “quando o sol está muito forte”, a história se fará, com certeza, mais digna, e não precisaremos mais temer o inimigo. Quando esse utópico encontro se der, a alegria há de chegar e com ela poderemos — livres de dor, culpa e ressentimento — “dar um rolê por aí”, sem fingimento, porque não haverá inimigo à espreita.

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