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agosto 2016 / Fora de sequência / Começos que definem uma narrativa (final)

Texto publicado na edição #196

Começos que definem uma narrativa (final)

O que existe realmente na literatura brasileira?

> Por FERNANDO MONTEIRO

A escritora ítalo-cubana Alba de Céspedes

A escritora ítalo-cubana Alba de Céspedes

É claro que existiu, de fato, uma escritora ítalo-cubana chamada Alba de Céspedes (1911-1997), porém ela nunca escreveu O anelante de Valverde, que aqui foi “resenhado”, mês passado, na parte primeira deste texto.

O começo de O anelante… foi, pois, falsamente elogiado, porque não corresponde a nenhum livro que tenha sido publicado — exceto se, no fantasmagórico mundo borgeano-virtual no qual agora estamos vivendo, alguém vier mostrar a tradução de um romance do islandês Ólafur Jónsson exatamente com o mesmo início (o que muito me assustaria).

Mas Ólafur Jónsson também não existe; eu acabei de inventá-lo, do mesmo modo como inventei o Valverde e o atribuí a Alba de Céspedes y Bertini e o Rogério Pereira não deixou passar, evidentemente. Na primeira leitura das colunas da edição de julho, ele enviou mensagem:

“Fernando, tudo bem?

Passo o fim de semana editando o Rascunho.

Entendo a brincadeira/jogo sobre o ‘livro’ O anelante de Valverde, que aparece em seu romance O livro de Corintha.

Vamos ver o que dizem (se dizem) os leitores.

Abraço. Rogério.”

Bem, a literatura virou uma grande fantasmagoria mais do que virtual. Na sua hora crepuscular, a arte da escrita — ficção, poesia, etc. — nada na piscina vazia de um mundo no qual a linguagem escrita de Babel permite qualquer coisa, aceita o jogo (e o jogo do jogo), na sala infinita de espelhos que se refletem infinitamente, e cada livro parece estar mergulhando nesse túnel de duplicações oco como a boca de um bebê sem cabeça.

O que existe?

Ora, existe o Nobel. E existe a Academia Brasileira de Letras de Ferreira Gullar explicando a Augusto de Campos que ele deixou de ganhar um prêmio de trezentos mil reais da ABL porque Augusto, uma vez, escreveu contra a Academia. Alcéia respondeu com toda a solenidade da Madame Mim na qual se transformou o Acadêmico de Halloween que dispensa maquilagem.

Existe qualquer coisa, agora. Existe um livro que não existe — O anelante de Valverde — e existem textos apócrifos, na Web, principalmente de Jorge Luis Borges que não pode reclamar porque ele mesmo inventou inúmeros mandarins que nunca existiram entre os caminhos que não se bifurcam entre verdade & mentira, realidade & ilusão, pois tudo é uma só Maya, uma só gaze rendilhada de ilusões de ótica, de paladar, de tato e compreensão de textos, filmes, peças de teatro, quadros, esculturas e instalações de artistas (?) que colocam um cachorrinho preso por uma corda dentro de um salão gelado de Bienal de Arte para deixar morrer ali o animal, indefeso, de fome e de sede.

Existe a Flip, também. Que atrai um monte de garotas e garotos que, se perguntados quantos livros leram “no ano passado”, sorrirão e responderão um: O senhor dos anéis, deixado pelo meio (acharam “muito profundo” etc.), mas pretendem continuar a ler etc., etc.

E o que não existe?

Não existe a categoria “Poesia” no Prêmio São Paulo de Literatura (por quê?) e não existe sebo que não tenha pelo menos dez livros de Lêdo Ivo (com dedicatória). Não existe ocasião em que Mario Vargas Llosa não diga platitudes sobre política e não existe chance de Paulo Coelho, um dia, não conquistar o prêmio Nobel de Literatura (ele já esteve na vigésima quinta posição na bolsa de apostas de Londres), uma vez que o Acadêmico colega de Gullar usa o seu poder de lobby internacional, vinte e duas horas por dia, para que isso aconteça, usando agentes, amigos do “jet set” internacional e os pobres tradutores. Por falar neles, todos melhoram muito os livros do Coelho, porque não conseguem se limitar ao que encontram para traduzir no PC e o WC do PC muda de cheiro e de aspecto, nas mãos dos coitados contratados para traduzirem cada nova merda do mago da ABL.

Não existe tanta coisa! Democracia não existe mais, neste país, desde há dois meses. Água, em muitos bairros de São Paulo, segue tão escassa quanto justiça no Supremo. Não existe a mínima vergonha na maioria do Congresso, nem goiabadas de qualidade (como possuía a antiga Palmeiron!) e a seleção brasileira de futebol acabou. A nossa literatura não morreu, porém não oferece surpresa, graça, eficiência e placar de 7 a 1 contra adversário algum.

Então, “O anelante de Valverde” é tudo isso e mais alguma coisa que escapa a este escriba sentado sobre glória nenhuma, olhando para a eternidade de estilete na mão — não para inscrever em argila mole, mas para cortar a garganta da sensatez que lhe resta(va), agora que, “em vinte anos não mais existirá literatura”, conforme afirmou Philip Roth.

E só restará um livro sendo lido continuamente: O anelante de Valverde.

P.S.: Sim, o início dessa famosa obra, de novo:

“Mãos de freira: foi isso o que eu notei, primeiramente, nela — à minha frente, assinando um cheque. Meus olhos observam mãos, antes de subir para o colo e para rosto de mulheres que se debruçam sobre o apoio exíguo diante do guichê protegido pelo vidro com um buraco recortado onde os olhos às vezes estão focados e, às vezes, não. Mãos de freira por quê? Mãos de freiras são um pouco nodosas e não guardam lembrança de certos cuidados mundanos, por exemplo. Costumam ter uns anéis simples, feios, que só fazem recordar severidades de Deus, e não reflexos dúbios de algum espelho diante do qual uma mulher se embeleza de cosméticos e enfeites. Então, as dela eram mãos de freira — e seu rosto (levantei os olhos, agora o vejo) era também limpo, lavado, embora os olhos fossem de fogo não apagado, não vencido pela água da monotonia.

Peguei e paguei o cheque, sem conferir (o saldo, a assinatura), era um cheque pequeno, mas isso não se faz no meu trabalho, eu poderia ter prejuízo, até ser alertado, mais tarde, pelo olhar atento do chefe dos caixas e, um dia, demitido por mais aquilo, porém paguei, ela pegou no dinheiro com as mãos de freira e sumiu da minha vista.

Foi assim que começou.”

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