Quase-diário

janeiro 2013 / Quase-diário / Com Lorca em Granada

Texto publicado na edição #153

Com Lorca em Granada

20.06.1992 Em Granada para o encontro de escritores e editores durante as programações do 5º. Centenário da Descoberta da América. […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

20.06.1992
Em Granada para o encontro de escritores e editores durante as programações do 5º. Centenário da Descoberta da América. Visita também à exposição internacional de Sevilha. Washington Benavides, poeta uruguaio, me traz traduções que fez de textos meus e de Marina e me apresenta o ex-presidente do Uruguai Julio Sanguinetti, que está também neste encontro de Granada. Durante uma das sessões, ele fez uma caricatura minha. Fiquei agradavelmente surpreso e pedi seu autógrafo no desenho, talvez para o acervo da Biblioteca Nacional. Seguimos conversando. Mostrou-me o telegrama de Juan Carlos Onetti que dizia que ele, Sanguinetti, era a “la esperanza”. Onetti vive na Espanha. Segundo dizem, estirado numa cama.

Estamos conversando também com Julián Murguía, que dirigiu o Instituto do Livro do Uruguai e foi colega no conselho do Centro Regional para el Fomento del Libro en América Latina e Caribe (na Colômbia), e surge a idéia de irmos à casa de García Lorca. Convidei Julian e Sanguinetti, que toparam logo. Saímos. Não havia condução. Esperamos um táxi, disputando com outras pessoas durante uns 15 minutos. Sanguinetti também erguendo a mão para chamar o táxi como um cidadão comum. Conseguimos. E lá fomos, direção de Fuente Vaqueros. Sanguinetti falando de literatura brasileira com conhecimento que me impressionou. Elogiou Guimarães Rosa, seu estilo, referiu-se a Grande sertão: veredas, depois a A terceira margem do rio, que considera um dos contos mais perfeitos. Falou também sobre Clarice Lispector, com a mesma admiração. Perguntou-me quem era o maior poeta brasileiro. Falei-lhe de Drummond, que ele admirava.

Sanguinetti falou com desalento sobre o Brasil desses dias. Dei-lhe minhas teorias sobre as contradições estruturais de Collor — que reúne o velho e o novo, ímpeto de mudança, mas ligado a estruturas arcaicas. Lembrei que o vi falando como presidente do Uruguai na Conferência de Cumbre em Acapulco, que reuniu oito chefes de Estados latino-americanos. Estava lá naquele seminário organizado por Octavio Paz que continuou na Cidade do México, e escrevi na época (1988) que se Sanguinetti fosse candidato a presidente do Brasil, votaria nele.

Chegamos à casa de Lorca em Fuente Vaqueros. Sanguinetti foi bater à porta da casa, que estava fechada. Procuramos pelo homem da chave. Pensávamos já ter perdido a viagem e nos consolávamos pensando que ter saído apenas para ver o campo já era um ganho. Veríamos a casa por fora.

Mas quando Sanguinetti bateu na porta apareceu um senhor chamado Pepe. Disse-nos para esperar, que estava atendendo a uma pessoa. Então, brincando, cochichei para o Pepe:

— Sabe quem está aqui? É o presidente do Uruguai!

A partir daí, tudo mudou. Pepe ficou mais rápido, Entramos. Ficamos no pátio, de uns três ou quatro metros quadrados, Julián tirando fotos nossas junto ao poço ou na sala de entrada. Pepe despediu-se do grupo de turistas e passou a nos acompanhar. Atravessamos o pátio interno, mostrou-nos a casa, o quarto, a cama, o berço, o piano com a partitura aberta. Casa modesta, espanhola. Do outro lado, no segundo andar, nos fez ver um vídeo de uns dez minutos, com uma cena de Lorca e seu grupo teatral “La barraca”. Foi bom ver seus gestos, seu corpo, sua simpatia. No vídeo o poeta aparece de macacão escuro com seu grupo montando e desmontando cenários. Poeta admirável! Curioso como todos sabemos tantos versos de Lorca! E eu ali, perto de Lorca, dos objetos que eram seus, as montanhas ásperas de pedra, a paisagem seca no verão granadino.

20.06.1992
Visita a Alhambra. Lindo lugar no alto do monte onde uma vasta floresta esconde o que sobrou dos castelos árabes, do harém e da mesquita.

Depois do almoço no Carmen de los Martírios (Carmen = sítio/bosque), o guia, um rapaz alto e moreno, nos explicava: apontou o quarto onde o rei (ou sultão?) mandou degolar os seis cavaleiros de uma determinada estirpe por ter surpreendido um deles, à noite, atrás de um cipreste, num entrevero amoroso com a mulher do soberano. Não podendo identificá-lo, mandou matar os seis. Lá estava o cipreste, que viveu centenas de anos e só morreu há oito. Teria vivido, portanto, uns 600 anos.

Washington Irving, que foi cônsul em Allambra, escreveu Cuentos de Allambra, livro no qual recria essas estórias. Diz que as condenações foram por razões políticas, não sentimentais. De qualquer modo, ao lado do cipreste está uma inscrição dizendo que foi ali que o rei surpreendeu sua mulher e o amante, etc.

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