Dom Casmurro

outubro 2014 / Dom Casmurro / Collateral damage

Texto publicado na edição #174

Collateral damage

No texto “Collateral damage”, Flávio Ricardo Vassoler reúne uma série de experiências danificadas

> Por FLÁVIO RICARDO VASSOLER

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Ilustração: Theo Szczepanski

Chicago, 20 de setembro de 2014.
Sobrados sem portões?

Eis a tônica do meu bairro pequeno-burguês aqui em Chicago.

Faixas retangulares de jardim fazem as vezes do contrato social: cercas etéreas.

Este morador de São Paulo, obrigado a se acostumar com muros encimados por arame farpado e fios de alta tensão, fico intrigado: a ausência de fronteiras ao redor das propriedades representa mais fluidez entre os vizinhos e/ou a introjeção do catecismo burguês é tamanha que ninguém mais precisa ensiná-los a separar o joio do trigo?

Será mesmo possível conciliar o senso comunitário ao ardor do proprietário?

Em Berlim, as estações de metrô não têm catracas.

Eis o cálculo administrativo do secretário municipal de transportes:

— O custo operacional mensal para a instalação e manutenção das catracas é X. As perdas mensais por conta dos eventuais não pagamentos de passagens (pelos estrangeiros) totalizam X/5. Mensalmente, a fiscalização (sobre os estrangeiros) e as multas (contra os estrangeiros) conseguem reaver 3X/5. Logo, auf Wiedersehen, catracas!

Domingo passado, fiz um tour arquitetônico pelo rio Chicago.

Este morador de São Paulo, obrigado a se acostumar com prédios funcionais, fiquei eminentemente estarrecido com a ornamentação e a patente preocupação com o belo nos arranha-céus downtown. Um deles, inclusive, erige uma combinação inusitada: a imponência retilínea e envidraçada dos escritórios financeiros entremeada pelo medievo das gárgulas da catedral parisiense de Notre Dame.

Capitalismo gótico?

Consta que, em 1871, um incêndio devastou Chicago e privou boa parte dos moradores de suas casas. A partir de então, o espírito (à época ressentido) do capitalismo norte-americano, em disputa recorrente com a antiguidade europeia, começa a idealizar empreendimentos imobiliários que alçassem a América para além de sua juventude. No princípio do século 20, concursos arquitetônicos são fomentados: é preciso sitiar as margens do rio Chicago com as sentinelas gigantes de aço, concreto e vidro. Arquitetos europeus fazem as vezes da missão civilizatória.

O prédio sincrético do capitalismo gótico — o mamífero que bota os ovos da especulação financeiro-imobiliária, o ornitorrinco de Uncle Sam — ganha o concurso como o mais belo edifício de escritórios “do mundo”. (Ora, a megalomania, via de regra, traz em seu bojo profundas cicatrizes de insegurança e ressentimento.) A América do Destino Manifesto e da Doutrina Monroe começa a alardear sua grandeza mundo (e tropas) afora.

É bem verdade que o centro velho de São Paulo enverga belíssimos enclaves arquitetônicos.

A 50 passos, se tanto, do Theatro Municipal, a Praça Carlos Gomes desvela chafarizes e estátuas de mármore negro. Ocorre que São Paulo também desvela a europeus e norte-americanos os dorsos vergados sobre os quais a beleza se assenta historicamente: pichações, seringas sem agulhas e corpos mendigos fundem o belo ao bélico.

A estética do feio.

Entre 19 de julho e 30 de novembro de 1937, em Munique, o pintor e político Adolf Ziegler, a reboque do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, também conhecido como Partido Nazista, organizou a Exposição de Arte Degenerada, no Instituto de Arqueologia. Pinturas e esculturas modernistas de Marc Chagall, Vassily Kandinsky, Paul Klee, entre muitos outros, eram dispostas, pedagogicamente, para que o público ariano apreendesse o princípio de deformação estética em estreita correlação com a miscigenação judaico-racial. As experimentações vanguardistas foram proscritas como sintoma de debilidade mental — de fato, fotos de pessoas com deformações (supostamente) psíquico-somáticas eram cotejadas com as desconstruções modernistas. (Poucos anos depois, a arte degenerada extravasaria as telas e pedestais para se fundir às e se confundir com as cidades europeias que, sob os bombardeios da Luftwaffe e da Royal Air Force, se transformariam em verdadeiros monumentos cubistas.)

Que diria São Paulo à catequese de Adolf?

— Pobre nacional-socialismo! Vocês precisam realizar uma exposição e encalacrá-la em um museu para ensinar às massas o que vem a ser a arte degenerada. Ora, ora, o fascismo à brasileira não precisa de fotos de excepcionais para separar o joio do trigo. Não, não: nossas telenovelas (re)produzem o que é de bom-tom. E, claro, nossa degeneração não precisa ser delimitada entre julho e novembro. Temos o cotidiano para tanto. Bom dia, São Paulo!

Ao transitar pelas ruas de Chicago, ao me lembrar das praças, alamedas e bulevares das capitais europeias, me sinto afrontado, sinto a vertigem de que, na verdade, aquilo que se espera efetivamente do capitalismo — a guerra hobbesiana de todos contra todos, as marcas da competitividade encarniçada em cada um dos estilhaços e escombros do cotidiano — está muito mais presente em São Paulo do que em Londres, o coração histórico do capital.

São Paulo varre (dejetos de) seres humanos — zumbis de sinapses siderais — para as calçadas noturnas e urinadas da Cracolândia. Higienópolis, a cidade da higiene e dos condomínios-bunkeres ao largo da Avenida Angélica, demarca, para além da Praça Marechal Deodoro e da Avenida São João, a fronteira econômico-eugênica que não permitirá a mescla do joio com o trigo — a não ser que o joio vista os devidos uniformes, vigie portarias e deixe brilhando os sanitários de porcelana.

Mas, ora, e quanto ao brasileiro Jean Charles de Menezes?

Jean Charles era mais um entre os milhares de brasileiros [de classe média (baixa)] que tentam a sorte na city londrina. No Brasil, o cleaning é muito mal pago — ademais, as fronteiras de classe estão muito bem delimitadas, meus amigos até podem me ver catando latas após os jogos do Manchester e/ou lavando pratos em um pub. Na verdade, em Londres, sou um barman e, ainda que aceite minha posição subalterna na divisão internacional do trabalho, burilo meu inglês mesmo como serviçal. Só não posso ser um cleaning barman no Brasil. (Faxineiro e garçom?! Não dá nem pra pronunciar, aí não é possível!)

O passaporte brasileiro tem muito valor internacionalmente.

(1) Quem não poderia se passar por um brasileiro?
(2) Quem fala português devidamente para garantir que este fulano branco, negro, oriental e/ou árabe não é brasileiro?

O mineiro Jean Charles de Menezes foi confundido com um terrorista islâmico no dia 22 de julho de 2005. (Assim a Scotland Yard se pronunciou oficialmente.) Duas semanas antes, em 07 de julho, uma série de explosões atingira o sistema de transporte público em Londres e vitimara 56 pessoas. No local errado, na hora errada e, sobretudo, com o fenótipo errado, Jean Charles foi alvejado à queima-roupa por sucessivos disparos.

(Quer dizer que as tubulações de esgoto da Cracolândia também desaguam no Tâmisa?)

Mas, afinal de contas, a lógica sub-reptícia da administração municipal de Londres — e de Berlim e de Paris e de Chicago e, mutatis mutandi, de São Paulo — assim se pronunciaria se a hipocrisia não administrasse a esfera pública:

— O que é preferível: uma única morte ou dezenas, centenas e, possivelmente, milhares de mortes? Jean Charles era inocente e não tinha quaisquer articulações com organizações terroristas? Sim, de fato, ele era inocente. Mas ele parecia árabe — e, bom, ainda mais doloso: ele não se parecia conosco. Morreu um inocente, sobreviveram os cidadãos: collateral damage.

Mas, afinal de contas, nada de novo no front: que faziam os ingleses, franceses, holandeses, espanhóis e portugueses em seus navios negreiros? Que fizeram os norte-americanos no Iraque?

Voltemos a Chicago. Lawrence Avenue.

Procuro um local para jantar em um horário inusitado — são quase 11:00 pm. Os restaurantes mexicanos ficam abertos até tarde. Mas, em todo o caso, WE CALL THE POLICE: assim um letreiro tenta afugentar possíveis assaltos à mão armada. (Mas, se o restaurante é hispânico, se o cardápio, em sua grande maioria, está escrito em espanhol e se há um contingente considerável de hispânicos que ainda não domina o inglês, por que o letreiro de sobreaviso está escrito em inglês? A quem os mexicanos empreendedores tanto temem?)

Enquanto espero meu taco dinner — tacos de carne picada com frijoles levemente apimentados e queijo derretido —, a simpática garçonete Concepción me traz alguns chips. (Algo como nossos doritos a serem mergulhados em molhos verdes e vermelhos efetivamente picantes.) Como há muitos latinos em Chicago, a indústria cultural criou um canal de televisão exclusivamente voltado para a comunidade hispânica: a Univisión.

Em espanhol devidamente latino, assisto ao noticiário que, a bem dizer, também poderia ser apresentado por Marcelo Rezende e José Luiz Datena.

Consta que uma série de assaltos à mão armada vem ocorrendo nas imediações da Universidade de Chicago, que fica na zona sul da cidade.

A zona sul de Chicago concentra a população African American.

Quando cheguei à cidade, a primeira coisa que o taxista do Cazaquistão me disse foi para jamais, em hipótese alguma, ir à zona sul de Chicago.

But why not?

O cazaque passou a descrever um cenário que, para ele, parecia sumamente apocalíptico:

— Quase ninguém tem trabalho por lá, todos vivem de complementos de renda — que são a própria renda — fornecidos pelo governo. Traficantes e meliantes circulam a esmo, as prostitutas vêm e vão. Na verdade, você vai encontrar as mesmas casas daqui, mas elas estão todas rotas, praticamente abandonadas. Ninguém admite, não há nada oficial, mas, depois de determinada hora, há toque de recolher. A polícia circula por lá — vá lá saber por que tudo isso não termina… —, mas, mês passado, uma taxista foi estuprada na região. Por isso, nós mesmos não trabalhamos no sul — eles nos roubam e nos espancam.

O cazaque continuaria arrolando, ad nauseam, o inventário ao qual este escritor paulista sempre pôde assistir, diariamente, no esgoto da televisão brasileira. Mas, súbito, me ocorre uma pergunta:

— Quantos African Americans você conhece, Kublai?

Ele cofia o cavanhaque inexistente — as pontas do indicador e do polegar resvalam as maçãs do rosto salientes.

— Poucos, muito poucos. Na verdade, menos que muito poucos. Praticamente nenhum.

Súbito, outra pergunta me ocorre:

— Kublai, você me disse que é do Cazaquistão, right?

Right.

— De alguma forma, alguma vez e por algum motivo, Kublai, você já sentiu algum tipo de discriminação aqui em Chicago?

Ele não precisa fazer menção de cofiar o cavanhaque inexistente para me responder:

— Mas é claro.

— E você nunca foi para o sul de Chicago, foi?

— Nunca.

— Então, Kublai, como você sabe que tudo o que você está me dizendo acontece por lá precisamente da forma como você está me dizendo?

Well, me falaram que é assim. Besides, I watch TV.

Em espanhol devidamente latino, assisto ao noticiário que, a bem dizer, também poderia ser apresentado por José Luiz Datena e Marcelo Rezende.

Consta que uma série de assaltos à mão armada vem ocorrendo nas imediações da Universidade de Chicago, que fica na zona sul da cidade.

A zona sul de Chicago concentra a população African American.

WE CALL THE POLICE.

No princípio era a comunidade. Só conhecemos quem nos é próximo — quem nos é comum. A comunidade cresce e se espraia — ela já tangencia o vizinho: o estrangeiro. No princípio era a guerra. A guerra dizima contingentes de ambos os lados, a guerra acirra os ódios — e, paradoxalmente, a guerra faz com que os adversários, pela primeira vez, entrem em contato. Trata-se de senhores e escravos, é bem verdade, mas, ainda assim, já não se trata de desconhecidos. No princípio — e até hoje — era a assimetria. Depois da guerra, é preciso recolher os escombros. Comércio. Os estranhos, algo receosos, passam a fazer intercâmbios. Já não é tão imediato dizer quem é gente da gente — há amizades e casamentos intergrupais, os estranhos se comunicam, os estranhos começam a se tornar comuns.

Ocorre que nem todos os estranhos são tão estranhos.

Há gradações de estranheza.

Eis a origem da diversidade étnica segundo um tal de Macunaíma: no princípio era um charco límpido, translúcido e cristalino. Um charco feito com a pegada de um gigante. (O gigante era Deus.) Todos estavam enlameados e foram se lavar no charco. Alguns chegaram primeiro, quase todos se mostraram retardatários. Os primeiros se livraram da lama — mas a água foi se tornando cada vez mais turva. No fim, já quase não havia água no charco. No fim, a água se fez lodo. No fim, a lama se fez pele.

Ocorre que, em tempos de crise — ou pior: em tempos de administração da crise; ou ainda pior: em tempos de crise como entretenimento —, todos voltam a olhar para o charco de si mesmos. Na corrida pela purificação, na corrida pela sobrevivência, é preciso saber quem sempre estará à minha frente e quem ainda está atrás de mim.

Há gradações de estranheza.

Ocorre que nem tudo o que é estranho é tão estranho.

Após o jantar, caminho pela Lawrence Avenue. Uma bela moça com peitos bem americanos e um decote generosamente brasileiro se aproxima. Tiara, lábios intumescidos, batom bem vermelho — ela acabara de resguardar o batom entre os peitos como se fosse uma espanhola. Com a mão junto à minha braguilha, Shawna me pergunta:

What’s your name, honey?

Pequenas empresas, grandes negócios.

Trocamos carícias, faço menção de sacar a carteira, quando, de um enorme furgão, um possível pai de família vocifera:

Keep off the streets, you little piece of shit!

Shawna finge não se incomodar, “guys like these are always here”, mas a civilidade pequeno-burguesa das imediações da Lawrence Avenue já não é mais a mesma.

O que leva um pai de família pagador de impostos — um homem de bem, um homem de bens — a vomitar sobre alguém como Shawna?

Há pouco, o noticiário da Univisión apresentara o novo iPhone 6: mais recursos e ainda mais fino. A nanotecnologia um dia alcançará o elixir da invisibilidade.

Particularmente, não tenho o menor interesse por tecnologia. Ainda assim, estou longe de ser um anacrônico que pensa em uma sociedade emancipada a partir de comunidades hippies e rurais. Apenas me pergunto e lhes pergunto, cara leitora, caro leitor: o boom nanotecnológico nos faz trabalhar menos? Passamos mais tempo com nossos familiares e amigos? O tempo se tornou a matéria-prima de nossas vidas?

Florença, janeiro de 2013.
— O spaghetti alla carbonara precisa ser acompanhado por um belo vinho da casa! — assim me sugere a garçonete e fotógrafa grega Iliana.

Conversa vai, conversa vem, e logo a questão da crise grega vem à tona. Iliana me conta, transtornada, que a mãe, pensionista e aposentada, precisou voltar a trabalhar depois que o governo, secundado pela austeridade do FMI e do Banco Mundial, passou a reduzir — quando não a cortar sem mais — pensões e aposentadorias. (Ao fundo, noto que alguém apruma os ouvidos para auscultar nossa conversa.) Quando digo para Iliana que sou brasileiro, o patrício português não se faz de rogado e entra na conversa:

— Muito prazer, meu nome é José Miguel.

Logo ficamos sabendo que José Miguel, ainda que jovem, já tem um posto de muita responsabilidade em um banco multinacional. Ele estava atento à minha discussão com Iliana sobre a arte em Florença, sobre um dos possíveis ápices da humanidade no centro histórico que resguarda o Duomo de Michelangelo Buonarroti, a casa de Dante Alighieri e a Ponte Vecchio onde tantas e quantas disputas encarniçadas entre as facções florentinas foram travadas; ele estava atento à austeridade do FMI a cortar a própria carne da população austera. Súbito, o patrício faz a seguinte colocação:

— Se não houvesse trabalhos como o meu, se não houvesse profissões que efetivamente geram divisas, Florença jamais poderia ter existido. Iliana e Ricardo, vocês gostam de apreciar o belo florentino, não é mesmo? Pois, antes de mais nada, façam uma oração aos grandes comerciantes e mercadores. A propósito, façam como Maquiavel: dediquem O Príncipe a Lorenzo de Medici. Para haver mecenas, antes de mais nada é preciso que haja mercenários.

Ainda que ressentido, José Miguel me parece espirituoso. Um yuppie ou um Chief Executive Officer, em São Paulo, sequer se daria ao trabalho de pensar sobre o belo espraiado por Florença. Como a arte está no presídio do MASP, as avenidas Paulista e Luís Carlos Berrini inoculam sem mais o sentido do filisteísmo.

Iliana bem entende a provocação do português, mas, como está trabalhando, Maquiavel lhe recomenda prudência. Este escritor socrático, no entanto, aceita o embate:

— Muito bem, caro patrício, muito bem: Iliana, eu e os artistas precisamos ser tutelados, você tem razão. Mas, talvez, e não mais do que talvez, a razão também esteja contra você. Me diga, você gosta realmente do que faz?

O olhar de estranheza de José Miguel insinua que minha pergunta não faz muito sentido diante da flutuação dos milhões de dólares que dele dependem.

— Quantas horas por dia você trabalha, patrício?

O olhar cansado sentencia que são horas suficientes para que ele não possa desbravar Florença — e as florentinas.

— Por fim, você conhece a lenda do Rei Midas? (José Miguel apruma os ouvidos ainda uma vez.) Tudo em que o Rei Midas toca vira ouro. Logo, as esposas se petrificam, os filhos, os criados, os amigos, os inimigos – todos elevados (e também reduzidos) a estátuas de ouro. O deserto do Rei Midas é muito altivo, José Miguel: vazio banhado a ouro.

Iliana não se contém e esboça um sorriso de soslaio. Eu prossigo:

— A humanidade já imaginou certa vez algo menos excruciante do que a rotina de trabalho do Rei Midas, José Miguel. Ela chegou a imaginar, inclusive, que tal escolha não precisasse (e não pudesse) mais ser feita.

Súbito, José Miguel aponta para a TV: a propaganda do então novo iPhone 5 acabara de passar.

— E quem vai continuar produzindo a nossa riqueza, caro brasileiro?

— Mas por que precisamos dessa ciranda tautológica, Miguel? Por quê? Ela nos livra da vida a que fomos relegados? Mas, de qualquer forma, tudo isso não deixa ser interessante: parece que a evolução nanotecnológica substitui (e usurpa) a revolução social. As frustrações e a impotência dos homens e mulheres se transferem para a ciranda coisificada dos novos aparelhos. Já que não conseguimos mudar as nossas vidas, que a técnica, que há muito já não está a nosso serviço — à qual, há muito, passamos a servir —, possa seguir por um caminho ascendente!

Miguel parece se esgueirar sob o trago de vinho.

Os dedos de sua mão direita tamborilam a mesa.

De repente, ele me pergunta:

— Ricardo, eu aposto que você gosta de cinema, não?

— Gosto, sim, patrício, por quê?

— Você viu Matrix Revolutions?

— Vi, sim.

— Então, você certamente se lembra do diálogo fundamental de Neo com um dos anciões na casa de máquinas, não é mesmo?

— Me lembro, é claro. A cidade subterrânea dos humanos estava sendo atacada pelas máquinas da Matrix. Dentro de poucas horas, o último enclave da esperança humana seria invadido pelos robôs. Neo, então, se vê irrequieto. Ele caminha pela cidade e, inusitadamente, encontra um dos anciões junto à casa de máquinas. Neo vai até o ancião e lhe pergunta se está tudo bem. Então o velho partilha com Neo o paradoxo que o está dilacerando.

José Miguel pede para que Iliana se aproxime ainda uma vez — que a artista fotografe o arremate:

— O paradoxo que dilacera o ancião — José Miguel faz questão de tomar a narração para — é o seguinte: “Neo, as máquinas lá fora estão para nos matar. Mas, veja só: aqui dentro estão as máquinas antigas, as máquinas da nossa casa de máquinas, as máquinas sem as quais sequer concebemos sobreviver”. Então, o herói Neo, movido pelo otimismo da utopia do brasileiro Ricardo e da grega Iliana, assim se pronuncia: “Ora, senhor, nós comandamos essas máquinas: basta que as desliguemos, então o controle será nosso ainda uma vez”. (José Miguel levanta a taça de vinho antes de nos propor o brinde da vitória do carrasco que gosta de se mutilar, o brinde de sua vitória de Pirro.) Um brinde à nossa volta à Idade Média, meus caros, um viva às gárgulas de Notre Dame!

Ora, que importa a João Miguel a ponte de safena vindoura aos meros 45 anos?

Que fazer?
Fazer.
Executar.
Vencer.

Ao caminhar e viajar pela degeneração de nossas estórias e histórias, a literatura me insinua que, na verdade, muitas perguntas aqui formuladas deveriam inverter o sentido de suas premissas.

Há pouco, quis saber por que Arnold — chamemo-lo assim —, o típico pai de família e pagador de impostos, homem de bem e de bens, havia achincalhado a prostituta Shawna:

Keep off the streets, you little piece of shit!

No entanto, ao desvelar o caos entre os sobrados pequeno-burgueses próximos à Lawrence Avenue, ao inalar o odor de urina da Cracolândia, ao não pagar a passagem em Berlim e ser fulminado pelo olhar do cidadão de bens, ao perguntar à Scotland Yard onde fica o túmulo de Jean Charles de Menezes, ao sugerir ao diretor da suntuosa Sala São Paulo, bunker paulistano da música clássica encravado no ânus da Cracolândia, ao sugerir ao diretor da suntuosa Sala São Paulo que fomente uma nova Exposição de Arte Degenerada a partir dos princípios antropófagos do nosso pós-modernismo, ao desejar Shawna sem poder pagá-la, ao entrever que o ódio e o estranhamento étnicos circulam socialmente de cima a baixo e de baixo ainda mais abaixo qual uma corrente de altíssima voltagem que se alimenta continuamente de si mesma, pergunto-lhes, cara leitora, caro leitor:

(1) Já não se trata de saber por que Arnold vomita sobre Shawna, mas, sim, de saber por que Arnold sobre Shawna não vomitaria?
(2) Você já agiu como Arnold? (José Miguel sugere que amordacemos a resposta e a encarceremos na masmorra do castelo de Kafka que coincide com o quarto/calabouço de Gregor Samsa.)
(3) Você já foi escarrado como Shawna? (José Miguel sugere que, na terapia, e apenas na terapia, esse escaninho do curriculum vitae possa ser evacuado como curriculum mortis.)
(4) Se a guerra de todos contra todos foi proclamada como collateral damage e se a gorjeta/vitória de José Miguel tem duas faces, não estaria Arnold Shawna vociferando contra si mesmo?

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