Quase-diário

outubro 2014 / Quase-diário / Coisas da política

Texto publicado na edição #175

Coisas da política

15.08.1992 Ontem na Biblioteca Nacional (BN), recebi Luiz Carlos Prestes Filho para uma conversa. Veio trazer umas fotos de Graciliano […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

15.08.1992
Ontem na Biblioteca Nacional (BN), recebi Luiz Carlos Prestes Filho para uma conversa. Veio trazer umas fotos de Graciliano Ramos para a exposição dos 100 anos deste. Graciliano discursando para Prestes.

Luiz Carlos simpático, olhos claros, estatura do pai, conversava amigavelmente. Chegou Marina, que almoçou comigo (eu, ela e Myrian).

Em pé, conversando comigo Luiz Prestes Filho me dizia:

• Quer passar à BN o arquivo do pai: seu diário, correspondência, etc. Ficará fechado/lacrado com consulta só autorizada pela família;

• Tem cartas para Fidel, onde menciona pessoas ainda vivas;

• Contou-me que tem um irmão, Iuri, em Moscou, fazendo História e que também tem cópia do que há de seu pai lá na Rússia. Chama-o de “velho” com carinho;

• Contou que ele, Prestes Filho, teve um encontro clandestino em Moscou com Erich Honecker (ex-primeiro ministro comunista na Alemanha Oriental) na embaixada do Chile, para falar sobre o pai e seus documentos do outro lado da Alemanha. Comentou: “Uma coisa surrealista, esse encontro clandestino de comunistas”;

• Falou sobre Hércules Correia, que andou recentemente dizendo publicamente que Prestes parecia agente duplo, pois volta e meia sua documentação (e do partido), que estava com Prestes, caía na mão da polícia. Disse que o dossiê de Hércules na KGB não é dos melhores. Informações das prostitutas, em geral, “capitães da KGB”, diziam que ele fazia câmbio negro.

• Revelou que ainda que há problemas com Anita (filha de Olga Benário);

• Que a posição de Prestes nos últimos informes da KGB era positiva, pois diziam que ele tinha apoiado Brizola, etc.

16.12.2003
Vamos a um jantar na La Fiorentina pelos 80 anos de Tônia Carrero. Na minha frente o convite em forma de porta-retratos. Lá os amigos, aqueles retratos na parede, Tônia entrando e sendo saudada por todos. Ela é um símbolo.

Acabou de sair daqui Aécio Neves, governador de MG. Telefonou-me ontem que queria 10 minutos de conversa. Veio me convidar para ser Secretário de Cultura em Minas. Desconfiei. Simpático, todo de azul, foi direto ao assunto.

Estávamos sentados no terraço frente ao mar. Tive que me desculpar, recusar, pois não sinto ganas de mudar minha vida. E a lembrança da administração pública me dá urticária. Fiquei vacinado contra.

17.07.1990
No supermercado Paes Mendonça sempre há a surpresa de as pessoas nos reconhecerem. Uma menina loirinha vem andando com a mãe, deixa-a por instante e vem perguntar: “O senhor é o Affonso Romano de Sant’Anna?”.

Tento responder carinhosamente perguntando onde estudava, acarinhando o cabelo da menina. E ela diz: “Li a sua crônica sobre o Holocausto (saiu hoje)”.

A moça do caixa começa a me olhar estranho ainda na fila. Quando me aproximo ouço-a dizer à outra: “É ele… Ela também é escritora…”. E a moça rindo, insistindo em saber se eu era eu, e eu dizendo: “Sou o Tarcísio Meira, aquela ali é a Glória Menezes”, apontando para Marina.

Aí aparece o Marcelo Serrado, que está fazendo sucesso na TV, e a curiosidade das moças do caixa transbordou pra outro lado.

18.12.1989
Collor ganhou as eleições. Uma hora depois de encerrada a votação três pesquisas de boca de urna o davam como vencedor. Na última semana, no horário gratuito, um depoimento da ex-mulher de Lula contando coisas brabas sobre ele: abandonou a filha, não dava pensão, é racista.

Discutia-se se isso ajudou ou atrapalhou Collor. O fato é que Lula parecia abatido no debate. E dizem que havia a ameaça de Collor revelar algo sobre um presente (aparelho de som) que Lula teria dado a uma amante…

20.02.2010
Maria Pia do Nascimento foi assassinada em sua casa na Urca. Cortaram seu pescoço, reviraram a casa. A notícia diz que ela já tinha sido vítima de assalto e havia prestado queixa na polícia.

Terrível! Lembro-me dela. Um dia surgiu numa homenagem que me faziam na PUC (não a conhecia, o nome me era vagamente familiar). Pediu a palavra ali no auditório do RDC, fez menção carinhosa às crônicas que eu escrevia no JB, especialmente a Mulher madura.

Depois a veria esparsamente nas ruas de Ipanema. Chegou a morar aqui perto, num dos prédios vizinhos com a favela. Mulher linda, foi capa da Vogue, manequim célebre aqui e na Itália, casada com italiano, etc.

25.03.1984
De repente vendo essa frase em francês de Sartre ou Simone, a propósito da mulher — elles n’accedent à l’indèpendance économique qu’au sein dune classe —, veio-me um insight: erro do marxismo quando tanto fala de “ser de classe”, como naqueles textos de Mao Tsé-Tung e outros. Isso é uma visão dentro de uma camisa de força: a luta em geral é pela diferenciação, dentro da aparente igualdade. Há aqueles que querem se adaptar aos códigos da classe ( ou grupo), mas em geral, há outro movimento individual, contrário a este: de querer subir, emergir, extrapolar a sua “conche sociale”. O rico quer ser mais rico, o pobre menos pobre. Forçar o indivíduo a ter consciência de classe e a movimentar-se socialmente, sempre manietado aos demais, é cortá-lo, castrá-lo em seu movimento natural.

O marxismo deveria dar elasticidade a isso, pois “ser de classe” não deve ser um determinismo, um condicionamento para sempre. Há outro lado da questão, o esforço para sair disso. E o diabo é que o indivíduo evolui mais rapidamente que o conjunto, porque o conjunto é mediano. Daí a relação paradoxal do intelectual que dialeticamente está-mas-não-está numa determinada classe (operária, burguesa). Estar e não estar no rebanho é um dilema para ele.

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