Ensaios e Resenhas

dezembro 2011 / Ensaios e Resenhas / Clichê e sagacidade

Texto publicado na edição #124

Clichê e sagacidade

O livro de contos Escuro, claro, de Luís Augusto Fischer, está dividido em três partes: “O império de Eros”, “A […]

> Por CIDA SEPULVEDA

O livro de contos Escuro, claro, de Luís Augusto Fischer, está dividido em três partes: “O império de Eros”, “A força de Tânatos” e “As estratégias de Clio”. Trata-se de uma coletânea confortavelmente organizada (para o leitor), cujos textos variam na qualidade estética, mas nunca perdem, individualmente, a marca do artista à procura de seu eixo. Por vezes, esse eixo se fragiliza demasiado, ou não se constrói. O autor nem sempre consegue vislumbrar a desmedida de suas escolhas para uma coletânea.

De modo geral, Escuro, claro é excelente, genuíno. Em seus textos prevalecem a simplicidade, a ausência de pretensão.

Para ver não a mim, qual me deixaste,

Mas olhos para ver-me sem espelho.

A mim, sem ser simétrico a mim mesmo.

Esse é um trecho do belíssimo poema Tratado geral da reunião dançante, de Paulo Coimbra Guedes, que abre o conto O cerco. Nesse texto, o narrador fala com sua musa, tenta convencê-la do amor. Em alguns momentos, tenta dominá-la com o poder que tem de criá-la. Situações triviais de namorados servem de esqueleto para a revelação do narrador: sua paixão pela escrita, a verdadeira musa. Fluente, lírico, o conto estimula nossos sentidos poéticos. A metalinguagem e citações literárias, em algumas passagens, soam artificiais, mas não comprometem a beleza. A frase “Depois, a vida”, finaliza o sonho da escrita e da leitura.

Unhas pequenas pintadas de vermelho é uma pintura. As frases desencadeiam imagens. Não há emoções fortes, mas descrição impactante. Surreal. Acaba o estágio é um conto “quadradinho”, com toque melodramático. O narrador é um madurão apaixonado por uma jovem. O desfecho é clichê. Não havia a menor dúvida é um texto leve. Não há drama que sustente a naturalidade das palavras. Ler é aconchego quando o texto nos prende sem nos sufocar. Porto Alegre, hoje de noite é fraco, reanimado pela citação de um belíssimo poema de Drummond. Mas, desse jeito, não vale.

Duas irmãs é muito envolvente. O narrador, morador de um edifício, observa uma mulher na piscina todos os dias e faz mil viagens sobre a identidade da musa. O melhor do texto não são “as duas irmãs”, mas a relação do narrador com a desconhecida, e o seu delírio final. O mais é gordura, mas vale a pena. Escuro, claro, que nomeia o livro, é um poema; busca o contraste luz-sombra, mas não ganha corpo. Nem luz. Nem sombra. Erotismo explora o romantismo e o erotismo das paixões da juventude. Melodramático, clichê.

“A força de Tânatos” é aberta com o conto Exposição. Curto, direto, diz muito sem dizer. Omite uma palavra e cria suspense. É o caso em que o narrador se esconde para se mostrar. Belo! A fronteira é um texto comum, previsível, que não transcende os textos que o precedem no mundo dos textos. É daqueles que a gente pensa: já li isso em algum lugar. Jogar o jogo é sobre um menino e seu desejo de jogar futebol. Simples e belo retrato dos sentimentos que perpassam a relação menino e bola. Morte mas doce — um prototexto? Um estudo? Esse texto não chega ao afã criativo. O alemão é um conto que explora o problema da pobreza marginal da cidade grande. De enredo bem familiar e desfecho previsível desde o início, não inova esteticamente.

Acerca do método de narrar abre a terceira parte da coletânea. Esse e o conto que vem em seguida, Dona Emiliana, são densos, fortes. O didatismo que embutem parece uma concessão a modismos. Não se trata de negar a metalinguagem como um recurso estilístico, mas frisar que tal recurso pode artificializar o trabalho. No caso específico, em algumas passagens, soa desafinado.

“As estratégias de Clio” contém textos que focalizam mais objetivamente a metalinguagem. O conto Entrevista: Um pós conto satiriza a crítica, promove a autocrítica com humor picante que abre os pulmões da leitura, permite uma respiração mais leve do leitor analítico. Claro, escuro é uma antologia de valor literário, com alguns senões próprios de coletâneas. O mais importante é que o autor imprime a sua marca, que surpreende até pela coexistência do sagaz e do lugar-comum. Uma reescrita desses contos poderia transformar a antologia em uma obra-prima.

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Escuro_claro

Luís Augusto Fischer
L&PM
208 págs.