Rabisco

julho 2016 / Rabisco / Clássica magia

Texto publicado na edição #194

Clássica magia

Série dos Moomins é sucesso mundial e retorna ao Brasil com novos títulos

> Por ADRIANO KOEHLER

Tove Jansson, autora da série Os Moomins

Tove Jansson, autora da série Os Moomins

O universo da literatura infantil é praticamente infinito. Escolher um livro na prateleira da livraria é trabalho árduo. Além de ser necessário ter que enfrentar a bagunça que normalmente impera nessa seção, a quantidade de títulos deixa qualquer um tonto. Nessas horas, talvez a melhor dica para quem se aventura a escolher um livro para crianças é pegar um dos clássicos. Há muitos, para todos os gostos, e se são clássicos, têm lá o seu valor. Dentre eles, há uma série que leva em consideração o gosto das crianças pela fantasia e cria um universo mágico, de criaturas incomuns mas que sentem de forma parecida como os humanos — a série dos Moomins.

Os Moomins (no sueco, Mumintroll) são os personagens centrais dos nove livros e da tira em quadrinhos da finlandesa Tove Jansson. Eles são uma família de trolls, personsagens da mitologia nórdica, que se parecem com hipopótamos, mas com a diferença de andarem sobre duas patas e serem brancos. A família dos Moomins mora no Vale dos Moomins (Muumilaakso), apesar de já terem vivido em outros lugares temporários como um farol e um teatro. Além dos trolls, há uma grande série de outros personagens que aparecem nos livros, como Sniff, ou a Criaturinha, Lilla My, Hemulen, outro ser mitológico, e os Hattifnattarnas, pequenas criaturas com um parentesco distante com os personagens principais.

Os Moomins e o dilúvio foi o primeiro livro escrito por Tove para a série, apesar de ter sido lançado posteriormente aos outros. Escrito em 1939 mas finalizado apenas em 1945, a história começa com Moomin (Mumintrollet) e sua mãe (Muinmamma) que saem em busca de um lugar para construir sua nova casa. Ao mesmo tempo, ambos buscam também o pai de Moomin (Muminpapa), que está desaparecido há algum tempo. No caminho, eles encontram primeiro a Criaturinha, que nesse livro ainda não é chamada de Sniff, que decide seguir caminho com eles e ajudá-los na busca. No caminho muita coisa acontece com a família e os acompanhantes, inclusive um dilúvio. Sem medo de spoilers, o final é feliz e mostra como os Moomins chegaram até o seu Vale e montaram sua casa.

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O encantamento das histórias criadas por Tove vem da maneira como ela mostra o universo dos seus trolls. As histórias são simples, com várias surpresas ao longo do caminho. Cada personagem tem uma característica definida e facilmente identificável pelos jovens leitores, e eles contam suas histórias de um jeito mágico e divertido. Os personagens também representam uma família feliz, mas não idealizada ou sem problemas. Todos se gostam tanto que têm liberdade para serem exatamente quem são. Se alguém tem segredos, ele pode guardá-los para si até achar que está pronto para compartilhá-los, sem medo de reprimendas.

E há muita fantasia envolvida, fazendo a cabeça da criança viajar junto, a cada nova situação apresentada. Os Hattifnattarnas, por exemplo, meio que vivem em toda parte, sem sabermos muito bem o que são ou como pensam, se são do bem ou do mal. Mas eles estão lá e, em alguns momentos, são decisivos. Depois virá Lilla My. Somente uma criança conseguiria entender (ou conviver) nessa realidade mágica de Tove. As ilustrações da finlandesa também são muito delicadas e são um acompanhamento perfeito ao texto.

É um mundo mágico, que remete à Escandinávia, mas felizmente sem deuses sedentos de sangue ou martelos mágicos que lutam contra supervilões. É o lado da mitologia dos vikings mais suave, mais lírico e afetivo, que Tove resgata e nos apresenta, dando uma saudável pausa aos heróis super ou nem tanto que povoam as telas de hoje em dia.

O encantamento das histórias criadas por Tove vem da maneira como ela mostra o universo dos seus trolls. As histórias são simples, com várias surpresas ao longo do caminho.

Série completa
Os outros livros da série em português são A família Mumin (traduzido por Carlos Heitor Cony) em edição da Martins Fontes, Um cometa na terra dos Moomins e Os Moomins e o chapéu do mago, estes publicados pela Autêntica. Faltam chegar ao Brasil outros cinco títulos. No mundo, já foram vendidos mais de 15 milhões de exemplares da série. A escritora também foi responsável por uma tira de quadrinhos dos Moomins publicada em jornais de diversos países entre 1945 e 1993. Além disso, foram feitas várias séries para televisão e filmes com a turma. E se você gosta muito deles, que tal visitar o Moomin World em Naantali, na Finlândia? Vai que Moomin Pai convida você para entrar e comer algo, como acontece em quase todos os livros? Boa viagem, e boa leitura.

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Os Moomins e o dilúvio
Tove Jansson
Trad.: Ana Carolina de Oliveira
Autêntica
80 págs.

 

A AUTORA
Tove Jansson

Nasceu em agosto de 1914 e cresceu em Helsinque, na Finlândia. Sua família era artística e excêntrica. O pai de Tove, Viktor, foi um dos maiores escultores da Finlândia, e a mãe, Signe, fazia projetos gráficos e ilustrava livros, capas, selos postais, cédulas bancárias e tirinhas políticas. Quando jovem, Tove estudou Arte e Design na Suécia, Finlândia e França, e escolheu voltar a viver na Finlândia. Na década de 1940, trabalhou como ilustradora e cartunista para várias revistas nacionais. Faleceu em junho de 2001.

TRECHO
Os Moomins e o dilúvio

Devia ser final de tarde, em um dia no fim de agosto, quando Moomintrol — Moomin, para os amigos — e sua mãe chegaram ao centro da grande floresta. Estava tão silencioso e escuro no meio das árvores que parecia que a noite já tinha caído. Aqui e ali, flores gigantes cresciam, brilhando com uma luz singular, como lâmpadas trêmulas; e mais longe, entre as sombras, moviam-se pequenos pontos de um verde frio

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