Dom Casmurro

agosto 2019 / Dom Casmurro / Cinelândia

Texto publicado na edição #232

Cinelândia

Poema Inédito de Leila Danziger

> Por Leila Danziger

Ilustração: Leila Danziger

Ilustração: Leila Danziger

1
Instalar uma imagem
no ápice
de outra imagem
é uma definição
de haikai

ou de monumento

quando escalado pela multidão
nos dias em que sonhamos
o futuro.

2
Nunca sei se haverá tempo
de alcançar a porta aberta

quando o sinal sonoro
anuncia vai partir —

ao sul? ao norte? quem sabe o destino
da composição eternamente lotada?

Todos os metropolitanos
sincronizados

sem rumo. Lá no alto
na superfície

nas Praças
do mundo

a qualquer instante —
centelhas

sem norte? sem oriente?
ao sul

do futuro? onde a fagulha
agora?

3
Na escadaria do Theatro, a multidão
ergue uma criança ao alto
tão alto quanto o mais alto dos monumentos
iluminados apenas nos instantes de esperança.

Na pág. 275, da Descoberta
do mundo, Clarice diz “ter tocado
o monumento mais alto”, mais alto ainda
porque é lembrança.

4
À noite
aos pés do monumento
eles são legião.

Não aparecem
não se tornam
imagem

se não
como matéria opaca
subtraída —

nada mais invisível
do que um monumento
— disse Musil.

5
Turista
passante
ou morador de rua

ninguém
vê Floriano
lá no alto —

na segunda-feira de maio
atravesso a Praça
e me torno turista

nas fotos que faço
na selfie
descartável

sob o sol estático
da única estação
que nos cabe.

6
Subo os degraus que levam
à Construção do Reino

do Brasil e não sei bem
quem segue a meu lado

os pipoqueiros? os estudantes?
os-que-vivem-sobre-os-bancos?

subimos aos saltos
às cegas aos tropeções empurrados

sobre camadas emperradas
de tempo.

7
Nunca vi madrugada alta
na Cinelândia

mas assisti ao desígnio
de uma nova rua

com nome de mulher.

8
Desde aquele domingo de outubro
vejo a menina

no exato instante em que se eleva
sobre a pedra e o bronze

em aceno: contra-monumento
à derrota.

 

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