Dom Casmurro

novembro 2016 / Dom Casmurro / Poemas de Charles Wright

Texto publicado na edição #199

Poemas de Charles Wright

Charles Wright sabe explorar, como poucos, um aspecto essencial da herança modernista norte-americana

> Por André Caramuru Aubert

Charles Wright, poeta norte-americano

Charles Wright, poeta norte-americano

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Charles Wright (1935) é um dos meus preferidos entre os poetas norte-americanos em atividade. Ele sabe explorar, como poucos, um aspecto essencial da herança modernista norte-americana — a capacidade de transformar em poesia os mais ínfimos aspectos do cotidiano. Quando contempla o horizonte, Wright nos mostra que as paisagens para o poeta não precisam ser grandes montanhas: elas podem simplesmente ser as luzes piscando dos aviões que chegam do Oriente, vistos da varanda da casa de sua sogra. Ele já venceu, entre outros, o Pulitzer e o National Book Award, além de ter sido Poeta Laureado em 2014. Apesar de ser muito conhecido em seu país, Wright foi pouquíssimas vezes traduzido no Brasil.

Flannery’s Angel

Lead us to those we are waiting for,
Those who are waiting for us.
May your wings protect us,
may we not be strangers in the lush province of joy.

Remember us who are weak,

You who are strong in your country which lies beyond the thunder,
Raphael, angel of happy meeting,
resplendent, hawk of the light.

 

O anjo de Flannery[1]

Leve-nos até aqueles por quem esperamos
Aqueles que estão esperando por nós.
Que possam suas asas nos proteger,
que não sejamos estrangeiros na exuberante terra do júbilo.

Lembre-se de nós que somos fracos,

Você, que é forte em seu país, situado além do trovão,
Rafael, anjo de feliz encontro,
resplandecente, falcão da luz.

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Next

I am weary of daily things,
How the limbs of the sycamore
Dip to the snow surge and disaffect;
How the ice moans and the salt swells.
Where is that country I signed for, the one with the lamp,
The one with the penny in each shoe?

I want to lie down, I am so tired, and let
The crab grass seep through my heart,
Side by side with the inchworm and the fallen psalm,
Close to the river bank,
In autumn, the red leaves in the sky
Like lost flags, sidle and drift…

 

Seguinte

Estou cansado das coisas rotineiras,
Como os galhos do plátano, que
Mergulham na força e na má vontade da neve;
Como o gelo se lamenta e o sal se dilata.
Onde fica aquele país no qual me inscrevi, aquele com a lâmpada,
Aquele com uma moeda em cada sapato?

Eu quero me deitar, estou tão cansado, e deixar
Que as ervas daninhas se infiltrem em meu coração,
Lado a lado com as lagartas e os salmos caídos,
Junto à margem do rio,
No outono, as folhas vermelhas no céu,
Como bandeiras que se perderam, à deriva…

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Looking West from Laguna Beach at night

I’ve always liked the view from my mother-in-law’s house at night,
Oil rigs off Long Beach
Like floating lanterns out in the smog-dark Pacific,
Stars in the eucalyptus,
Lights of airplanes arriving from Asia, and town lights
Littered like broken glass around the bay and back up the hill.

In summer, dance music is borne up
On the sea winds from the hotel’s beach deck far below,
“Twist and Shout,” or “Begin the Beguine”.
It’s nice to think that somewhere someone is having a good time,
And pleasant to picture them down there
Turned out, tipsy and flushed, in their white shorts and their turquoise shirts.

Later, I like to sit and look up
At the mythic history of Western civilization,
Pinpricked and clued through the zodiac.
I’d like to be able to name them, say what’s what and how who got where,
Curry the physics of metamorphosis and its endgame,
But I’ve spent my life knowing nothing.

 

Com os olhos voltados para o Oeste em Laguna Beach à noite

Eu sempre gostei da vista da casa de minha sogra à noite,
Plataformas de petróleo além de Long Beach
Como lampiões flutuantes longe no escuro e esfumaçado Pacífico,
Estrelas nos eucaliptos,
Luzes dos aviões chegando da Ásia, e as luzes da cidade
Espalhadas como cacos de vidro em volta da baía e morro acima.

No verão, a música dançante é trazida
Pelos ventos do mar desde o deque do hotel lá embaixo,
“Twist and Shout”[2] ou “Begin the Beguine”[3].
É gostoso pensar que em algum lugar alguém está se divertindo,
E agradável imaginá-los lá embaixo
Acabados, bêbados e corados, em suas bermudas brancas e camisas turquesas.

Mais tarde, eu gosto de me sentar e olhar para o alto
Para a história mítica da civilização ocidental,
Toda bordada pelo zodíaco.
Eu gostaria de poder identificar cada coisa, dizer o que é o que e como alguém chegou onde está,
Curar a física da metamorfose e do fim do jogo,
Mas eu passei minha vida sem saber coisa alguma.

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After reading Tu Fu, I go outside to the dwarf orchard

East of me, west of me, full summer.
How deeper than elsewhere the dusk is in your own yard.
Birds fly back and forth across the lawn
looking for home
As night drifts up like a little boat.

Day after day, I become of less use to myself.
Like this mockingbird,
I flit from one thing to the next.
What do I have look forward to at fifty-four?
Tomorrow is dark.
Day-after-tomorrow is darker still.

The sky dogs are whimpering.
Fireflies are dragging the hush of evening
up from the damp grass.
Into the world’s tumult, into the chaos of every day,
Go quietly, quietly.

 

Depois de ler Tu Fu, eu saio e vou até o pequeno pomar

A leste de mim, a oeste de mim, pleno verão.
Quão mais profundo do que por aí está o crepúsculo em seu próprio quintal.
Aves voam de um lado para o outro sobre o gramado
procurando um lar
Enquanto a noite vem derivando como um barquinho.

Dia após dia, eu tenho menos uso para mim mesmo.
Como este passarinho,
eu voo de um galho a outro.
O que esperar do futuro aos cinquenta e quatro?
O amanhã é sombrio.
O dia depois de amanhã é ainda mais sombrio.

Os cães do céu estão ganindo.
Vagalumes arrastam o silêncio da noite
por sobre a grama úmida.
Para dentro da confusão do mundo, do caos de todos os dias,
Vá sereno, sereno.

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January

In some other life
I’ll stand where I’m standing now, and will look down, and will see
My own face, and not know what I’m looking at.

These are the nights
When the oyster begins her pearl, when the spider slips
Through his wired rooms, and the barns cough, and the grass quails.

 

Janeiro

Em alguma outra vida
Eu vou ficar onde estou agora, e olharei para baixo, e verei
A minha própria face, e não saberei para o que estou olhando.

Estas são as noites
Em que a ostra começa a sua pérola, em que a aranha desliza
Por suas salas de fios, e os celeiros tossem, e a grama se retrai.

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October

The leaves fall from my fingers.
Cornflowers scatter across the field like stars,
like smoke stars,
By the train tracks, the leaves in a drift

Under the slow clouds
and the nine steps to heaven,
The light falling in great sheets through the trees,
Sheets almost tangible.

The transfiguration will start like this, I think,
breathless,
Quick blade through the trees,
Something with red colors falling away from my hands,

The air beginning to go cold…
And when it does
I’ll rise from this tired body, a blood-knot of light,
Ready to take the darkness in.

— Or for the wind to come
And carry me, bone by bone, through the sky,
Its wafer a burn on my tongue,
its wine deep forgetfulness.

 

Outubro

As folhas caem dos meus dedos.
Flores espalhadas pelo campo como estrelas,
como estrelas de fumaça,
Junto aos trilhos do trem, folhas sem direção

Sob as nuvens vagarosas
e os nove degraus para o céu,
A luz cai em grandes páginas através das árvores,
Páginas quase tangíveis

A transfiguração vai começar desse jeito, eu penso,
esbaforida,
Lâmina ligeira através das árvores,
Alguma coisa vermelha despencando das minhas mãos,

O ar começando a ficar frio…
E quando acontecer
Eu me erguerei deste corpo cansado, um iluminado nó de sangue[4],
Pronto para fazer entrar a escuridão.

— Ou para que venha o vento
E me carregue, osso por osso, pelo céu,
Sua hóstia a queimar minha língua,
seu vinho, o esquecimento profundo.

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Silent Journal

Inaudible consonant inaudible vowel
The word continues to fall
in splendor around us
Window half shadow window half moon
back yard like a book of snow
That holds nothing and that nothing holds
Immaculate text
not too prescient not too true.

 

Diário silencioso

Inaudível consoante inaudível vogal
A palavra continua a cair
em esplendor ao redor de nós
Janela meia sombra janela meia lua
quintal como um livro de neve
Que não segura nada e que nada segura
Texto imaculado
não tão presciente não tão verdadeiro.

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Ars Poetica II

I find, after all these years, I am a believer —
I believe what the thunder and lighting have to say;
I believe that dreams are real,
and that death has two reprisals;
I believe that dead leaves and black water fill my heart.

I shall die like a cloud, beautiful, white, full of nothingness.

The night sky is a ideogram,
a code card punched with holes.
It thinks it’s the word of what’s-to-come.
It thinks this, but it’s only The Library of Last Resort,
The reflected light of The Great Misunderstanding.

God is the fire my feet are held to.

 

Ars Poetica II

Concluí, depois de todos esses anos, que sou um crente —
Creio no que o trovão e o raio têm a dizer;
Creio que os sonhos são reais,
e que a morte traz duas represálias;
Creio que as folhas mortas e a água do esgoto preenchem meu coração.

Acho que vou morrer como uma nuvem, bela, branca, repleta de insignificância.

O céu noturno é um ideograma,
um cartão codificado repleto de furos.
Ele pensa que é o mundo que está por vir.
Ele pensa, mas ele é apenas a Biblioteca do Último Recurso,
A luz refletida do Grande Mal-Entendido.

Deus é o fogo no qual os meus pés estão presos.

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The wind is calm and comes from another world

Overcast August morning.
A little rain in the potholes,
A little shade on the shade.
The world is unconversational, and bides its own sweet time.
What you see is what you see, it seems to say, but we
Know better than that,
and keep our eyes on the X, the cloud-ridden sky.

Heliotrope, we say, massaging its wings. Heliotrope.

 

O vento está calmo e vem de um outro mundo

Manhã encoberta de agosto.
Uma chuva leve nas poças,
Uma pequena sombra na sombra.
O mundo não quer conversa, ele espera por seu tempo doce e próprio.
O que você vê é o que você vê, ele parece dizer, mas nós
Sabemos que não é bem assim,
e ficamos de olho no X, no céu cavalgado por nuvens.

Heliotrópio, dizemos, massageando suas asas. Heliotrópio.

NOTAS
[1] Referência à escritora norte-americana Flannery O’Connor (1925-1964) que, a certa altura da vida, doente e sem perspectiva de cura, fazia diariamente uma prece para que São Rafael Arcanjo a conduzisse em segurança para “o outro lado”.

[2] Canção de Phil Medley e Bert Berns, de 1961, com inúmeras versões gravadas, incluindo uma dos Beatles em 1963.

[3] Canção composta por Cole Porter em 1935.

[4] Tipo de nó muito utilizado por pescadores.

 

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