Quase-diário

outubro 2011 / Quase-diário / Centenário de Elizabeth Bishop

Texto publicado na edição #131

Centenário de Elizabeth Bishop

Algumas passagens da poeta norte-americana que viveu 15 anos no Brasil

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

Elizabeth Bishop

17.01.2011
Telefono para Linda Nemer, proprietária da antiga casa de Elizabeth Bishop em Ouro Preto. Realmente vai vender a casa, pois chegando aos 80, tem que reagendar a realidade. Há algum tempo, Linda teve um contato com o pessoal da Fundação Ford e ocorreu a idéia de transformar a residência da poeta americana numa espécie de pousada para bolsistas, possivelmente “escritores residentes”.

Linda conheceu a poeta em 1969, quando ao voltar de Paris foi apresentada a ela por seu irmão, o artista José Alberto Nemer. Foi mais do que uma simples apresentação, Linda foi chamada para socorrer Elizabeth que passava por uma de suas crises típicas. E a partir daí até a morte de Elizabeth em 1979, a família Nemer cuidou de Elizabeth como se fosse um bebê grande. Andei contando essas e outras coisas curiosíssimas em duas crônicas que estão no livro A sedução da palavra.

Visitei Elizabeth naquela casa de Ouro Preto nos anos 60, quando voltei dos Estados Unidos. Falamos de poesia. Ela com seu português muito precário. Nos anos 80, houve ali uma espécie de sarau poético no qual Lloyd Schwarcz lia poemas de Elizabeth em inglês e eu lia as traduções. Estive com Elizabeth, no Rio, nos anos 70: ela ia dar um curso de creative writing em Harvard, chamou-me ao Hotel Glória (ou Novo Mundo?) e deu-me vários livros de autores americanos, que havia lido e queria me repassar.

23.01.2011
Marta Goes, que fez aquela peça baseada na vida de Elizabeth Bishop (Um porto para Elizabeth) me manda e-mail e depois me telefona. Vai fazer uma matéria para o jornal Valor a propósito do centenário de Elizabeth (08.02.2011) e queria conversar. Digo-lhe algumas coisas já narradas em crônicas. Mando-lhe aquela crônica em que narro como Linda presenteou Marina Colasanti (minha mulher) com duas abotoaduras de rubi, que foram originalmente presente de Elizabeth para Marianne Moore e, de novo, voltaram a Elizabeth, quando Marianne morreu. É uma estória linda, é o percurso de afetos.

Me diz Marta que sua peça vai voltar a cartaz. Estou me lembrando que Roberto D’Ávila trouxe Regina Braga (que faz o papel de Elizabeth na peça) e Dráuzio Varela para jantar aqui em casa, quando a peça foi encenada a primeira vez. Dráuzio, sempre um gentleman, presenteou-me na ocasião com um livro raro. Regina chegou um pouco tarde, pois estava no teatro.

Gostei da peça, claro. Mas é sempre uma sensação dúbia a gente ver encenadas histórias de gente que conhecemos. A relação de Elizabeth com o Brasil era muito realista e até crítica, sobretudo quando se imagina o país que ela encontrou aqui lá pelos anos 50. Ela tem, aliás, aquela frase terrível, mas verdadeira sobre o Rio de Janeiro: não é uma Cidade Maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade.

Dei à Marta o endereço do Lloyd Schwarcz, lá nos Estados Unidos. Ele é um grande especialista em Elizabeth. Fez tese sobre ela. Me lembro de um vídeo (que tenho em algum lugar e que preciso converter em DVD — ah, a tecnologia vampiresca!), em que Lloyd aparece e no qual se conta a vida da poeta desde sua infância, na universidade Vassar onde, aliás, ela conheceu gente da elite americana, etc.

07.02.2011
Ao fazer uma crônica para o Estado de Minas sobre o centenário de Elizabeth me ocorreu esta coisa curiosa: várias pessoas que de uma maneira ou outra se aproximaram dela, também cruzaram o meu caminho. O Emanuel Brasil, que conviveu com ela nos EUA e ajudou-a a fazer uma antologia de poesia brasileira, acabou trabalhando comigo na Biblioteca Nacional. O Paulo Henriques Britto, que a traduziu, foi meu aluno na PUC. Carmen Lucia Oliveira, que fez uma notável biografia de Elizabeth (Flores raras e banalíssimas), trabalhava na Editora Francisco Alves, quando nos anos 70 eu e Rubem Braga éramos do conselho da editora. Lloyd Schwarcz acabou meu amigo e traduziu poemas meus. Ainda outro dia surpreendeu-me não apenas com a tradução do meu poema: Sobre os telhados do Irã (On the Steproofs of Iran, que traduziu com Rogerio Santiago, mas me mandou a programação do Lincoln Center, em Nova York, onde esse poema e outros de Borges e Kipling foram apresentados depois de terem sido musicados pelo maestro egípcio Mohammed Fairouz).

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