Palavra por palavra

setembro 2017 / Palavra por palavra / Cenas e personagens com simplicidade

Texto publicado na edição #208

Cenas e personagens com simplicidade

A sedução do leitor pela sutileza da escrita e da montagem do texto ficcional

> Por RAIMUNDO CARRERO

Ilustração: Matheus Vigliar

Ilustração: Matheus Vigliar

No meu livro A preparação do escritor (2008), defendo a ideia da simplicidade como sofisticação para a obra literária de ficção, de forma que o leitor seja seduzido pela sutileza da escrita e da montagem da novela, do romance e do conto, envolvido pela habilidade do escritor e não pela grandiloquência da escrita, em cenas e personagens que se mostram violentos, apaixonados sem controle e situações-limite.

Alguns escritores que mostram esta incrível habilidade: Machado de Assis, Clarice Lispector e Graciliano Ramos, no Brasil; Flaubert, na França; Steinbeck e Hemingway, nos Estados Unidos. Há em Retrato do artista quando jovem, de Joyce, uma cena que me apaixona profundamente. Esclareço, todavia, que Steinbeck não é um autor da minha preferência, mas guardo dele o exemplo de cena exemplar, de uma força incrível, apaixonante pela simplicidade. Nesta cena, em As vinhas da ira, a família protagonista atravessa a Califórnia com fome e com sede à noite a fim de descansar nas ruínas de uma casa. Salas e quartos abandonados, em miséria e escuridão. O menino mais novo corre por todos os lados até que encontra, num dos quartos, um homem cadavérico e sujo, morrendo de fome. Acontece que a mãe deu à luz há pouco tempo e tem uma criança de colo. É a única salvação. O pai, portanto, pede a ela que alimente o desconhecido com o leite dos seios. Embora faminto e à beira da morte, o homem não aceita. Embora sem uma palavra, o moribundo recusa-se. Não está certo mamar numa mulher desconhecida. A família insiste. Depois de algum tempo de relutância, o miserável é, finalmente, alimentado. E, pelo óbvio, escapa da morte.

A cena é dramática, claro. Mas o que importa, na verdade, é o equilíbrio do texto, a harmonia com o que o autor conduz as palavras sem excessos de adjetivos e advérbios, a simplicidade da montagem, fazendo com que ação dos personagens destaque os movimentos e eles vivam as circunstâncias, sem a intervenção do narrador. Aliás, um alerta definitivo: o narrador não deve nunca se transformar em autor para se meter no texto com interferências desastrosas através de palavras inúteis. Deixe sempre que os personagens atuem e que as palavras digam apenas o que precisam dizer. Escolha bem os verbos e a clareza será plena. Os verbos não querem companhia. Nem os verbos nem os substantivos.

Emoção literária
Nunca vou esquecer a manhã do domingo da década de 1970 quando Ariano Suassuna interrompeu uma conversa na residência senhorial de Casa Forte, no Recife, para ler uma cena do romance Retrato do artista quando jovem, em meio a um debate sobre a estética do romance contemporâneo:

Ele estava longe de tudo e de todos, sozinho. Desligado de tudo, feliz, rente ao coração selvagem da vida. Estava sozinho e era jovem, cheio de vontade e tinha um coração selvagem; estava sozinho num meio dum ermo de ar bravio, entre águas salobras, entre a colheita marítima de conchas, entre emaranhados e redemoinhos, entre claridades embaçadas de cinzento, entre figuras de crianças e de raparigas vestidas de alegria, e de luz, entre vozes infantis e joviais que enchiam o ar. Uma rapariga apareceu diante dele, sozinha e quieta. Contemplando o mar. Era como se magicamente tivesse sido transformada na semelhança mesma duma estranha e bela ave marinha. Suas longas pernas, esguias e nuas, eram delicadas como as de um grou. E eram claras até onde a esmeralda da água do mar as rodeava, marcando a sua carne. As coxas, rijas, duma coloração suave como a do marfim, estavam à mostra quase até os quadris, onde as alvas franjas do seu calção eram como penugem de alva e macia pluma. A orla azul clara do seu saiote ajustava-se garridamente em torno da sua cintura, abotoando-se atrás. O peito era o de um pássaro, macio e leve, tão leve e tão macio como o de um pombo de penas negras. Mas os seus cabelos compridos era de menina; e de garota, tocada pelo deslumbramento duma beleza mortal, era a sua face.

Dessa forma, percebe-se mais do que uma cena, uma melodia, em que os instrumentos se unem para enlevar um momento ou uma circunstância. Simplicidade com sofisticação. Sem dúvida.

Noutra cena, desta vez de Hemingway, encontro uma espécie de sinfonia mortal, na qual o narrador descreve a morte da amada com especial equilíbrio e com igual harmonia. Dois parágrafos exemplares:

Parece que as hemorragias se sucederam e os médicos não puderam suturá-las. Entrei no quarto e ali fiquei até vê-la fechar os olhos. Já estava inconsciente. Não demorou muito a passar.

Mas depois que as expulsei dali, fechei a porta e acendi a luz, a situação em nada melhorou. Era como se eu estivesse me despedindo de uma estátua. Saí. Fui para a rua. E regressei ao hotel a pé, lentamente sem dar atenção à chuva.

Todo escritor, independentemente de escolas, tendências e gostos, deve se preocupar com a harmonia, a leveza e a graça das cenas, mesmo quando tratam de situações tão diferentes como o nascimento da paixão ou da morte — diferentes no sentido da escrita. Não importa: o que está em julgamento é a qualidade literária. E literatura se faz com palavras e ritmo.

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