Dom Casmurro

março 2017 / Dom Casmurro / Cemitério de animais

Texto publicado na edição #203

Cemitério de animais

Conto inédito de Eduardo Sabino

> Por Eduardo Sabino

Ilustração: Fábio Abreu

Ilustração: Fábio Abreu

Quando pequeno, joguei um gato de uma ponte, a trinta metros de altura. Ele caiu miando socorro. Miou até bater contra a água e ser levado pela correnteza. Roubamos a ninhada na casa de minha avó e lançamos os gatos no rio. Não me lembro o motivo. A memória desse tempo é uma fita VHS em que alguém gravou um canal fora do ar e deixou só esta cena: o gato que não termina nunca de cair.

Filhotes mortos, fomos jogar bola. Ou colher morangos, ou nadar na represa, ou subir em árvores, ou jogar garrafão. Fomos fazer outra coisa divertida.

***

Depois, uma obsessão: ter animais. Qualquer um. Dou ração, limpo a gaiola, a bosta, o aquário, eu juro. Talvez ainda fosse o poder. Não de assassinar, mas de manter vivo; dar de comer, botar pra dormir. Na represa, colhíamos peixes estranhos; miúdos, negros, sem face e escamas. Isso aí é girino, meu filho, solta essa merda. Mas não entrava na cabeça que bichinhos pretos tão legais iam virar sapos um dia.

Meu pai encostava o fusca e eu despejava a água. Punha a cabeça pra fora da janela e, enquanto o carro se afastava, via os girinos se debatendo no asfalto como se fossem milhos na pipoqueira. Aguardava a transformação, que nunca vinha.

***

Lembro de quando eu e o irmão caçula tivemos um pombo. Surgiu no terreiro de casa, num sábado de foguetório, tentando levantar voo com uma asa quebrada. Fizemos um cercado de tijolos em torno dele, garantindo sua segurança contra os cachorros; uma cerca de arame no teto, garantindo sua segurança contra os gatos; e o chamamos de Maguila.

Quando anoiteceu, notamos que Maguila se aquietou num canto da toca, com saudade da família, talvez. Jogamos um biscoito para ele e vimos, torcendo, batendo palmas, a luta de Maguila contra seu jantar. No dia seguinte, o caçula me acordou.

“Mano, os pombos dormem?”

Respondi com outra pergunta.

“O canário de papai dorme?”

“Dorme”.

“Então pombo também dorme, burro. Pombo também é ave.”

Desci as escadas, saí para o quintal e dei uma olhada em Maguila. Não estava dormindo. Muito menos desperto. Pombos não dormem de lado.

***

Macaquinho: um angorá preto e enorme. Impunha medo até nos cachorros. Era um caçador incrível, e isso podia ter lhe dado uma vida curta não fosse sua esperteza, já que vivia observando as gaiolas dos vizinhos como os cães olham as vitrines de açougues. Felizmente, preferia agarrar presas em movimento — e jamais esquecerei sua expressão de alegria com uma cobra enlouquecida entre os dentes.

Me acompanhava pela casa como se a mãe, o pai e o irmão não existissem. Saltava sobre mim e se aninhava no meu colo, ronronando, quando me via sentado. Um dia, desapareceu. Procuramos no bairro, em todas as casas, e não encontramos sinal dele. Aceitamos a conclusão mais lógica: havia sido morto por um vizinho. Envenenado, apedrejado, esfaqueado, pego numa gatoeira.

Não aceitei aquilo. Comecei a articular um plano secreto de libertar os pássaros do bairro. Menos por compaixão dos passarinhos do que por ódio de seus donos. Então Macaquinho apareceu, um mês depois. Mais gordo e bonito do que nunca. Nenhum olho em falta, nenhum pelo escaldado. Por onde tinha andado, o sacana? Ofereci leite e ração, e ele recusou. Entrelaçava-se nas minhas pernas de um modo estranho; em vez do miau um miôl cortante e feio.

Estava em casa, e estava triste. Soube na hora: Macaquinho havia encontrado uma outra família. Passamos a tarde juntos e tirei uma foto com o merdinha no colo. No outro dia, ele se foi, e nunca mais o vi.

Demorei a recuperar do baque e, a partir de então, investi tempo e dinheiro em cachorros. São mais fiéis, bem mais, e os que fogem à regra não conseguem pular muros.

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***

Todo esse papo sobre animais me faz lembrar de Lucas. Talvez por ter citado a matança na ponte, os crimes de infância. Rebobino a fita até aquele dia; o chiado de abelha vai sumindo e as imagens, aparecendo.

Quem teve a ideia foi Lucas. Abriu o portão com uma chave de fenda, ordenou o sequestro dos gatos, conduziu-nos até a ponte e iniciou a contagem regressiva para o arremesso dos filhotes. “Quero ver quem tem coragem!”

Um ano mais velho que nós, duas cicatrizes sobressalentes. Uma pedrada no supercílio — briga no melhor estilo bater e correr —, um lanho na canela por ter atiçado um cachorro babão na rua de cima. Tomou injeção contra raiva, levou 20 pontos, mas não parou de atiçar cachorros.

Com ele à frente do grupo, tocávamos o terror no bairro. Explodíamos caixas de correio com rojões, cortávamos bananeiras a facão no quintal dos vizinhos e jogávamos barro, escondidos atrás do muro da casa de Lucas, nas pessoas que atravessavam a rua.

Ouvi de muita gente o alerta para nos afastarmos dele. Diziam que não daria uma boa pessoa, que virou um moleque revoltado após a perda do pai no acidente na mina da Morro Velho; que a mãe, depressiva, não podia educá-lo bem; que ele descontava sua raiva com a vida em animais indefesos, que ele teria um lugar garantido no inferno junto com todas as crianças que maltratavam as criaturas de Deus.

***

Lucas tinha um estilingue letal. Madeira de eucalipto, malha de couro, elástico de látex. Ele mesmo o fez. Levava jeito para artesanato, mecânica e carpintaria: carrinhos de rolimã e estilingues eram sua especialidade.

Quando sumia no Rego dos Carrapatos, e sumia sempre, já sabíamos o que estava fazendo. Atirando em qualquer animal que cruzasse seu caminho. Passarinhos eram um alvo fácil, mas também matava corujas, morcegos, micos e esquilos.

Não poucas vezes o guarda florestal, um trabalhador de meia idade, correu atrás dele pela trilha da mata. De bicicleta, Lucas levava a melhor, e podia controlar a velocidade, mantendo o homem a uma distância segura e que ainda fosse possível vê-lo e dar-lhe alguma esperança.

Estive com Lucas uma vez, de carona, no quadro da bike. Ele pediu para eu guiar e controlou o pedal, enquanto olhava para trás e insultava o homem. Nas curvas, arrastava os chinelos na trilha, fazendo a terra subir. “Come poeira, peste!”.

***

Gostávamos de ser vistos com Lucas na escola. Era um garoto popular, com fama de maluco, e isso evitava problemas com valentões. Não que ele não fosse um deles, e atazanasse a vida de muita gente, mas conosco, os meninos do bairro, a relação era diferente. Uma briga sequer e ficaria sozinho no final de semana.

Não parava quieto — nem em sua carteira, nem na sala — e, quando a mãe era convocada, sucessivas vezes, ela pedia a compreensão da supervisora e apresentava o laudo do psicólogo, que apontava Distúrbio do Déficit de Atenção e outras coisas que, associadas à hiperatividade, fodiam a cabeça do menino.

No futsal, marcava gols incríveis, driblando o time inteiro, e talvez tivesse sucesso como jogador profissional um dia. O professor de educação física dizia que ele parava a bola no peito como o Ademir da Guia, mas Lucas gostava mesmo é de se comparar com Romário, Zico e Pelé.

Nunca entendi o sucesso que ele fazia com algumas garotas. Foi o primeiro de nós a beijar na boca e, meses depois, a perder a virgindade, aos 13, com a Juliana, que já tinha 19. Lembro do diabo saindo com a garota da penumbra de um beco na festa de Santo Antônio, ajeitando a calça, o rosto feliz de quem havia conhecido o que ainda demoraríamos muito tempo para descobrir.

Outra cena-grude na memória: as garotas caindo no tapa na quadrilha da escola. Ambas queriam dançar com ele. Não era possível enxergar os rostos. Apenas um cabo de guerra em que a corda tinha dado lugar aos cabelos. Depois os arranhões dilacerando os braços. Só vi coisa parecida em uma luta de gatos. Macaquinho rolando no telhado e arrebentando um gato siamês que havia invadido seu território, enquanto a fêmea assistia a tudo em cima da caixa d’água, miando impaciente.

***

Lucas tinha ao menos um amigo verdadeiro, e não estou me referindo a uma pessoa. Falo de um cão abandonado, que atendia pelo nome de Ted.

Ted o seguia quando ele andava pela rua, o rabo abanando. Quando Lucas dormia, Ted adormecia na porta de sua casa. Sabe-se lá por quê, Lucas o tratava bem. Era o único animal que arrancava dele algum afago. Um assobio e o cachorro vinha correndo em sua direção. Mesmo quando estávamos longe, na mata.

Da janela, eu o observava alimentando o cão com restos de comida — chamando-o, em tom carinhoso, de pulguento — e ficava matutando que, com algum esforço, Lucas até conseguia ser um cara legal.

***

O que dizer daquele jogo no campo do Retiro? Seria uma partida amadora, mais uma, não estivessem lá os olheiros do Villa Nova. Os meninos foram avisados da presença dos caras na véspera, e não jogaram nada bem.

Nem mesmo Lucas. Passes errados, chutes tortos. Justo ele, que tinha fama de ser ainda melhor no campo. De onde eu estava, no último degrau da arquibancada, conseguia fazer a leitura labial dos palavrões que saíam de sua boca, cagada após cagada.

Me lembro bem do lance do jogo. Lucas volta para ajudar a zaga no final do segundo tempo. Escanteio. A zaga tira, mas a bola sobra para um volante adversário, na entrada da área. O volante a lança, pelo alto, para o atacante em infiltração. Lucas ainda está na área e salta para cabecear. Sobe nervoso, desengonçado, e erra o tempo da bola. A cabeçada não pega bem. Em vez da testa, ele a acerta com o meio da cabeça. A bola faz uma trajetória em parábola, para trás, e encobre o goleiro. Gol contra.

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***

Da minha casa, ouvi o barulho de uma bananeira sendo derrubada. Com o estilingue na cintura e o facão em punho, Lucas se embrenhou no quintal. Encontrei-o num barranco com a cabeça entre as pernas, descalço, as chuteiras ao pé de uma mangueira.

“Lucas”.

“Some daqui! Me deixa em paz.”

“Cara, isso acontece.”

Ele virou e notei os olhos vermelhos.

“Não comigo.”

Sentei ao seu lado. Ele pegou uma pedra e lançou-a longe. A pedra ultrapassou a copa de uma árvore que parecia bem distante.

“Todo mundo viu a merda do gol. Amanhã nem vou na escola.”

De novo ele se encolheu, a cabeça entre as pernas, e começou a chorar. De um modo que eu nunca tinha visto. Quando se acalmou, a voz ainda estava embargada.

“O sonho do meu pai era me ver jogando no Villa.”

Sentei ao seu lado, coloquei a mão no seu ombro, e não disse nada. Lembro de termos ficado bastante tempo assim, enquanto a mata escurecia e as cigarras aumentavam o tom.

***

Sábado de ventania. Todo mundo com as flechas no portão. Quando Lucas apareceu, trazia algo na mão, um bife a rolê cru, para Ted.

Busquei algo diferente no seu olhar. O acontecimento da semana havia abaixado a minha guarda, de modo que eu estava cogitando seriamente começar a gostar dele. Lucas era metido, arrogante, encrenqueiro, mas no fundo não passava de um moleque catarrento e frágil, como todos nós.

Me assustei quando ouvi os ganidos. Ted rolando no asfalto, como se estivesse sendo atacado, depois estrebuchando, babando, a língua para fora. Um minuto de agonia, que acompanhamos horrorizados, e estava morto. O recheio do bife a rolê era veneno de rato, Lucas contou.

“Por que você fez isso?”

Lucas hesitou e, por um momento, também pareceu assombrado com o cachorro morto à nossa frente. Em seguida o rosto mudou — artificialmente, não sei — e ele pareceu sorrir.

“Cansei desse cachorro pulguento. ”

***

Entre essa merda e outra merda ainda maior, passaram-se alguns meses. Meses completamente chiados na fita VHS.

Sei que nos afastamos, o bairro inteiro ficou sabendo do assassinato do cão e as portas e janelas começaram a se fechar quando Lucas passava com sua bicicleta. Se nos chamava no portão, alguns pais inventavam desculpas, outros o escorraçavam.

Uma noite ele chegou fodido, praguejando. Olhei da greta da janela do quarto e o vi mancando, empurrando a bicicleta, que estava com o guidom torto e um pneu furado. A mãe abriu a porta, levou um baita susto e o abraçou: desabada, em prantos. Ele se pôs a alisar os cabelos dela, “não foi nada, foi só um susto”. Um carro o pegou de raspão, na rua de cima, fazendo-o perder o controle e se arrebentar num poste. Não teve tempo de anotar a placa, nem ver o modelo.

No outro dia, rumores de que João, o guarda florestal, tinha sido visto num boteco das proximidades com seu carro novo.

***

Na minha decisão de ser, finalmente, um garoto sem turma, especialmente sem a companhia de Lucas, passava horas lendo no quintal. Lia Júlio Verne, a coleção Vagalume e observava os movimentos da natureza.

Tive o privilégio de acompanhar, no galho mais alto do pé de goiaba, a construção de um empreendimento incrível: uma casa de joão-de-barro. Há um mito de que quem constrói a casa é o macho, mas na verdade trabalham juntos, o João e a Maria-de-barro — que os ornitólogos chamam, inacreditavelmente, de João-de-barro fêmea.

O casal faz centenas de viagens e, dia a dia, vai montando a casa. Usam fragmentos de barro úmido, palha e esterco: o resultado é aquela toca de formato esférico, a porta estrategicamente posicionada contra a chuva e o vento. Internamente, os passarinhos erguem dois cômodos. Um deles será a acomodação dos filhotes: um ninho forrado de penas, pelos e musgo, bem ao fundo, a salvo dos predadores.

Comovente ouvir, em uma manhã de domingo, o primeiro sinal dos filhotes.

***

A memória é um isqueiro erótico. Quando você a acende, não há nada para ser visto, daí as coisas vão surgindo, palavra a palavra, peça a peça, até o fogo vibrar as lembranças e subir a temperatura, retornando tudo a uma nudez em carne viva. Uma imagem puxa a outra e tenho novas cenas, de repente, nesta fita VHS gravada em EP — baixa qualidade mas muitas horas de gravação.

***

Lucas deve ter me visto namorando a casa de joão-de-barro no quintal.

Um dia abri a porta do fundo e ele estava lá, no alto do pé de goiaba, com as pernas cruzadas em um galho e um dos braços apoiados no bambu que segurava o varal do terreiro. Tentava roubar os filhotes que, naquele instante, estavam sem pai e mãe para defendê-los.

Corri em direção à árvore e berrei. “Desce daí, seu filho da puta!”. Foi uma questão de segundos. Lucas estava de costas, não deve ter visto minha aproximação, e se desequilibrou. O bambu tombou e o levou junto. O corpo deu meia volta no galho e caiu de ponta-cabeça, uns quatro metros até o chão. O terreno capinado, apenas a terra seca e dura.

Doeu nos ouvidos o estalo do pescoço se quebrando. Um crec rápido e banal — pense em gravetos se rompendo de forma terrivelmente amplificada. De repente lá estava o corpo de Lucas, estirado e torto no meu quintal, os olhos abertos.

Junto com ele, caiu um passarinho. Talvez por ter tentado bater as asas minúsculas durante a queda, talvez por ser um corpo bem mais leve, o filhote sobreviveu.

***

Saltemos tudo agora. O velório, o cemitério, o psicólogo. Se a fita está boa, com imagens bastante nítidas, gravemos comerciais de margarina por cima — ou sequências intermináveis de propagandas dessas que, se esquecêssemos de pausar o videocassete nos intervalos, os filmes do James Bond não caberiam na fita.

Lucas se foi e o bairro, sem ele, tornou-se um lugar triste e sombrio. A mata, sem ele — embora as espécies de esquilos, micos, morcegos e aves tivessem mais chances de se multiplicar —, tornou-se um lugar triste e sombrio.

O caso mobilizou a cidade. O pequeno caixão desceu para a terra enrolado na bandeira do Villa. A mãe, após tentativa de suicídio e um surto em que saiu à rua vestida de noiva e com um facão nas mãos, foi internada pela família em um manicômio.

***

O pior de ver enterrarem um animal jovem, de minha espécie, é a sensação da perda de uma outra pessoa, que talvez viesse a existir. Porque é fato que os gatos são fofos e os cachorros são amáveis, que alguns cães podem se tornar medrosos quando agredidos ou ameaçados com frequência, e que outras raças, na mesma situação, tornam-se igualmente agressivas e ameaçadoras. Também é certo que os animais se apegam e os cães escolhem um dono a quem amar, que labradores são afáveis e pinschers latem tudo o que estiver em movimento, que alguns animais ficam mais preguiçosos e silenciosos na velhice, mas, geralmente, quando desenvolvem seu caráter, cães e gatos podem ser reduzidos a um conjunto de traços característicos e redundantes. Mas perder um animal de minha espécie, jovem como eu, por mais defeitos que ele tivesse, é ter que aceitar a morte prematura de um ser humano, o único animal que pode transformar a si mesmo em uma outra coisa, para o bem e para o mal.

***

Tenho pensado muito naquele tempo. No dia da ponte, na matança dos gatos. Tive muitos animais de estimação, mas a lembrança de matar um não se apaga, de modo que a conta daquela ponte não fecha nunca, por mais gatos que tenham levado, por mais gatos que venham a levar, às minhas custas, uma vida confortável nesta terra.

A ponte me leva a Lucas e a tudo que o rodeia. Vivi muitas fitas de videocassete neste mundo, curtindo a vida adoidado, três ou quatro lagoas azuis, mas termino sempre no filme de baixo orçamento da infância. Tenho acordado com o menor arrulho dos pombos no sótão e com arruaças de um gato preto, que me lembra Macaquinho, trepando no meu telhado.

Sonho com a morte de Lucas, e ela nunca me vem da mesma forma. Às vezes Lucas despenca da árvore porque gritei, às vezes despenca porque chutei o bambu no qual ele se apoiava, às vezes despenca sem motivo algum. Acordo e fico pensando qual delas é a versão correta, se a memória já teria invadido o sonho e o sonho, a memória.

Já o momento da ponte, quando sonho, tem sempre a mesma versão. Estou com Lucas, só nós dois, e não estamos lá para arremessar os filhotes. Estou lá para arremessar Lucas. Seu rosto é adolescente, como me lembro, e o corpo tem uma forma miúda e viscosa de feto. Jogo Lucas o mais longe que posso, e ele não termina nunca de cair.

Seu grito de socorro é sempre a mesma coisa: um miado.

 

 

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