Dom Casmurro

dezembro 2014 / Dom Casmurro / Catorze poemas de Pierre Reverdy

Texto publicado na edição #177

Catorze poemas de Pierre Reverdy

Pierre Reverdy (1889-1960) foi um dos poetas mais influentes do século 20

> Por PIERRE REVERDY

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Pierre Reverdy (1889-1960) foi, sem a menor dúvida, um dos poetas mais influentes do século 20. Na origem, ele esteve no centro da cena artística francesa quando esta era a vanguarda mundial. Amigo de Picasso e Braque, era “o poeta” para Guillaume Apollinaire, Louis Aragon, Max Jacob, Tristan Tzara, André Breton e Paul Éluard. Foi figura central naqueles ismos que marcariam o mundo — o cubismo, o dadaísmo, o surrealismo. Depois veio a invasão alemã, e Reverdy ainda se deu ao luxo de ser herói da Resistência. Por muitos anos namorado de Coco Chanel, soube perdoá-la, depois da Guerra, pelas escorregadelas que a estilista deu, para o lado escuro da força, durante a ocupação alemã.

Do lado de cá do Atlântico, Reverdy foi e segue reverenciado, e entre seus admiradores estão alguns dos mais importantes escritores e poetas da língua inglesa, como Paul Auster, Kenneth Rexroth, Frank O’Hara, John Ashbery, Lydia Davis e Ron Padgett. Delicado, sutil e preciso, ele é, na opinião de Octavio Paz, um “poeta secreto para leitores secretos”. Mas o Brasil parece que levou longe demais esta definição de Paz, uma vez que, entre nós, ele é pouquíssimo lembrado e traduzido. Para esta coletânea, selecionei catorze poemas que — espero estar pelo menos em parte enganado — nunca antes foram vertidos para o português.

Pierre_Reverdy_177

TARDE DANS LA NUIT…
Le couleur que décompose la nuit
La table où ils sont assis
Le verre en cheminée
La lampe est un coeur qui se vide
C’est une autre année
Une nouvelle ride
Y aviez-vous déjà pensé
La fenêtre déverse un carré bleu
La porte est plus intime
Une séparation
Le remords et le crime
Adieu je tombe
Dans l’angle doux des bras qui me reçoivent
Du coin de l’oeil je vois tous ceux qui boivent
Je n’ose pas bouger
Ils sont assis
La table est ronde
Et ma mémoire aussi
Je me souviens de tout le monde
Même de ceux qui sont partis

TARDE DA NOITE…
A cor que decompõe a noite
A mesa à qual eles se sentam
O copo na lareira
A lâmpada é um coração que se esvazia
É um outro ano
Uma nova ruga
E você já pensou
A janela espalha um quarteirão azul
A porta é mais íntima
Uma separação
O remorso e o crime
Adeus eu caio
Sobre os doces braços que me sustentam
Com o canto dos olhos eu vejo os que estão bebendo
Eu nem tento me mover
Eles estão sentados
A mesa é redonda
E minha memória também
Eu me lembro de todo o mundo
Mesmo daqueles que se foram

 

PLUS LOIN QUE LÀ
À la petite fenêtre, sous les tuiles, regarde. Et les lignes de mes yeux et les lignes des siens se croisent. J’aurai l’avantage de le hauteur, se dit-elle. Mais em face on pousse les volotes et l’attention gânante se fixe. J’ai l’avantage des boutiques à regarder. Mais enfin il faudrait monter ou il vaut mieux descendre et, bras dessus bras dessus, allons ailleurs où plus personne ne regarde.

MAIS LONGE QUE LÁ
Na pequena janela, sob as telhas, olho. E as linhas dos meus olhos e as linhas dos dela se cruzam. Eu tenho a vantagem da altura, ela diz a si. Mas no caminho eles abrem as venezianas e a atenção embaraçosa se fixa. Eu tenho a vantagem das lojas para olhar. Mas no fim é melhor que eu suba ou que você desça e, de braços dados, vamos a algum lugar onde ninguém nos veja.

 

TOUJOURS SEUL
La fumée vient vient-elle de leurs cheminées ou de vos pipes? J’ai préferé le coin le plus aigu de cette chambre pour être seul; et la fenêtre d’en face s’est ouverte. Viendra-t-elle?
Dans la rue où nous bras jetten um pont, personne n’a levé les yeux, et les maisons s’inclinent.
Quand les toits se touchent on n’ose plus parler. On a peur de tous les cris, les cheminées s’étegneint. Il fait si noir.

SEMPRE SÓ
A fumaça vem das lareiras deles ou dos seus cachimbos? Eu teria preferido o canto mais agudo desta sala para ficar só; e a janela da frente está aberta. Ela virá?
Na rua onde nossos braços formaram uma ponte, pessoa alguma ergueu os olhos, e as casas se inclinam.
Quando os tetos se tocarem nós não ousaremos falar. Teme-se todos os gritos, as chaminés se vão. Está tão escuro.

 

BELLE ÉTOILE
J’aurai peut-être perdu la clé, et tout le monde rit autour de moi et chacun me montre une clé énorme pendue à son cou.
Je suis le seul à ne rien avoir pour entrer quelque part. Ils ont tous disparu et les portes closes laissent la rue plus triste. Personne. Je frapperai partout.
Des injures jaillissent des fenêtres et je m’éloigne.
Alors un peu plus loin que la ville, au bord d’une rivière et d’un bois, j’ai trouvé une porte. Une simple porte à claire-voie et sans serrure. Je me suis mis derrière et, sous la nuit qui n’a pas de fenêtres mais de larges rideaux, entre la forêt et la rivière qui me protegènt, j’ai pu dormir.

BELA ESTRELA
Eu talvez tenha perdido a chave, e todos riem à minha volta e cada um exibe uma enorme chave pendurada no pescoço.
Eu sou o único que não tem como entrar em algum lugar. Todos eles desapareceram e as portas fechadas deixam a rua mais triste. Ninguém. Eu bato em cada porta.
Insultos jorram das janelas e eu me afasto.
Então, não tão longe da cidade, junto a um rio e um bosque, eu encontrei uma porta. Uma porta simples como uma claraboia e sem fechadura. Eu fui para detrás dela e, sob a noite que não tem janelas mas tem enormes cortinas, entre a floresta e o rio que me protegiam, eu pude dormir.

 

CLAIR HIVER
L’espace d’or ride où j’ai passé le temps
Dans le lit de décembre aux flammes descendantes
Les haies du ciel jetées sur les enceintes
Et les astres gelés dans l’ais qui les éteint
Ma tête passe au vent du Nord
Et les couleurs déteintes
L’eau suivant le signal
Tous les corps retrouvés dans le champ des averses
Et les visagens revenus
Devant les flammes bleues de l’âtre matinal
Autour de cette chaîne où les mains sonnent
Où les yeux brillent du feu des pleurs
Et que les ronds de coeurs couvrent d’une auróole
Les rayons durs brisés dans le soir qui descend

CLARO INVERNO
O espaço do ouro enrugado onde eu passei o tempo
Na cama de dezembro com as chamas descendentes
As bordas do céu jorrando sobre os recintos
E as estrelas geladas no ar que as extingue
Minha cabeça vai ao vento norte
E as cores que se dissolvem
A água seguindo o sinal
Todos os corpos recolhidos dos campos dos aguaceiros
E as faces retornam
Diante das chamas azuis da lareira da manhã
Em volta desta corrente onde as mãos soam
Onde os olhos brilham com o fogo das lágrimas
E que o circular de corações cobre com uma auréola
Os duros raios de sol rompem na tarde que cai

 

LE MÊME NUMÉRO
Les yeux à peine ouverts
La main sur l’autre rive
Le ciel
Et tout ce qui arrive
La porte s’inclinait
Un tête dépasse
Dans le cadre
Et par les volets
On peut regarder à travers
Le soleil prend toute la place
Mais les arbres sont toujours verts
Une heure tombe
Il fait plus chaud
Et les maisons sont plus petites
Ceux qui paissaeint allaient moins vite
Et regardaient toujours en haut
La lampe à present nous éclaire
Em regardent plus loin
Et nous pouvions voir la lumière
Qui venait
Nous étions contents
Le soir

Devant l’autre demeure où quelqu’un nous attend

O MESMO NÚMERO
Os olhos a custo abertos
A mão na outra margem
O céu
E tudo o que para cá vem
A porta se inclina
Uma cabeça a ultrapassa
Pela moldura
E por entre as persianas
Pode-se observar através
O sol preenche todo o lugar
Mas as árvores estão ainda verdes
Uma hora se vai
Faz mais calor
E as casas são mais diminutas
Aqueles que passam vão menos ligeiro
E ficam olhando para cima
A lâmpada nos ilumina agora
Olhando para mais longe
E nós podemos ver a luz
Que chega
Nós estamos contentes
A tarde

Naquela outra residência onde alguém espera por nós

 

SECRET
La cloche vide
Les oiseaux morts
Dans la maison où tout s’endort
Neuf heures

La terre se tient immobile
On dirait que quelqu’un soupire
Les arbres ont l’air de sourire
L’eau tremble au bout de chaque feuille
Un nuage traverse la nuit

Devant la porte un homme chante

La fenêtre s’ouvre sans bruit.

SEGREDO
O sino vazio
Os pássaros mortos
Na casa onde todos dormem
Nove horas

A terra se queda imóvel
Dir-se-ia que alguém suspire
As árvores fazem ar de riso
A água treme na ponta de cada folha
Uma nuvem cruza a noite

Diante de uma porta um homem canta

A janela se abre sem ruído

 

CHAMBRE NOIRE
Un trou dans la lumière et la porte l’encadre
Tout est noir
Les yeux se sont remplis d’um sombre désespoir
On rit
Mais la morte passe
Dans son écharpe ténébreuse
Et dans le sillon creux
Une bête peureuse
Qui se débat pour fuir
Vers le fond du jardin où la porte est ouverte
Mais—quelqu’un vient d’entrer
Sans oser dire um mot
La lune est toute gonflée d’eau
Dans la nuit les nuages montent
J’attends l’heure qui sonne
Et je peux écouter
La fin d’un autre conte

QUARTO ESCURO
Um buraco na luz e a porta a enquadra
Tudo está escuro
Os olhos se preenchem de um sombrio desespero
Nós rimos
Mas a morte passa
Com sua echarpe tenebrosa
E em seus profundos sulcos
Uma fera assustada
Que luta para escapar
Pelos fundos do jardim onde a porta está aberta
Mas — alguém acabou de entrar
Sem sequer falar palavra
A lua está toda cheia d’água
Na noite as nuvens embarcam
Eu escuto a hora que soa
E posso ouvir
O fim de um outro conto

 

MIRACLE
Tête penchée
Cils recourbés
Bouche muette
Les lampes se sont allumées
Il n’ya plus qu’un nom
Que l’on a oublié
La porte se serait ouverte
Et je n’oserais pas entrer
Tout ce qui se passe derrière

On parle
Et je peux écouter

Mon sort était en jeu dans la pièce à côte

MILAGRE
Cabeça inclinada
Cílios ondulados
Boca muda
As lâmpadas são acesas
Não há nada além de um nome
Que foi esquecido
A porta seria aberta
E eu não ousaria entrar
Tudo se passa aqui atrás

Eles falam
E eu posso ouvir

Meu destino está em jogo naquela sala

 

AU BORD DU TEMPS
Les tiges du soleil penchées sur l’oeil
L’homme qui dort
Toute la terre
Et cette tête lourde de peur
Dans la nuit
Ce trou complet
Vaste
Et quand même russelant d’eau
Le bruit
L’éclat des timbres mêle à ceux des verres
Et des rires
La tête bouge
Sur le tapis le corps remue
Et retourne la place tiède
Aux pieds glissants de l’animal
C’est qu’on attend
L’appel du choc
Et le signal de la paupière
Le rayon se détend
Le sommeil
La lumière
Et ce qui reste brille au bord du rocher blanc

NA BORDA DO TEMPO
As hastes do sol se inclinam sobre o olho
O homem que dorme
Toda a terra
E esta cabeça pesada de medo
Na noite
Este buraco completo
Vasto
E mesmo quando brotando a água
O ruído
O tilintar dos sinos misturado ao dos copos
E das risadas
A cabeça se move
Sobre o tapete o corpo se agita
E volta o lugar tépido
Aos pés escorregadios do animal
É o que se espera
O recurso do choque
E o sinal da pálpebra
O raio relaxa
O sono
A luz
E aquilo que resta brilha na beira do rochedo branco

 

FAUSSE PORTE OU PORTRAIT
Dans la place qui reste là
Entre quatre lignes
Un carré où le blanc se joue
La main qui soutenait ta joue
Lune
Une figure qui s’allume
Le profil d’un autre
Mais tes yeux
Je suis la lampe qui me guide
Un doigt sur la paupière humide
Au milieu
Les larmes roulent dans cet espace
Entre quatre lignes
Une glace

PORTA FALSA OU RETRATO
            Na praça que sobra lá
Entre quatro linhas
Um canteiro onde brinca o branco
A mão que sustenta tua face
Lua
Uma figura que se ilumina
O perfil de um outro
Mas teus olhos
Eu sou a lâmpada que me guia
Um dedo sobre a pálpebra úmida
No meio
As lágrimas rolam neste espaço
Entre quatro linhas
Um espelho

 

VERSO
La pièce dans le courant d’air
Sous la flamme qui se répand
Dans la ville endormie
Près des arbres mouvants
Du mur de pierres
Au bout du chemin
Qui entoure la terre
C’est là
la tête penchée au dehors
les rayons de soleil près de la chevelure
le visage noyé
les larmes
Toutes les raisons de ne plus croire à rien
Les mots se sont perdus tout le long du chemin
Il n’y a plus rien à dire
Le vent est arrivé
Le monde se retire
L’autre côté

VERSO
                                    O quarto na corrente de ar
Sob a chama que se propaga
Na cidade adormecida
Perto das árvores que se movimentam
Do muro de pedras
No fim do caminho
Que circula a terra
É lá
a cabeça inclinada para fora
os raios de sol junto à cabeleira
a face afogada
as lágrimas
Todas as razões para não crer em mais nada
As palavras se perderam todas ao longo do caminho
Não há mais nada a dizer
O vento chegou
O mundo se retira
O outro lado

 

LA LANGUE SÈCHE
Le clou est là
Retient la pente
Le lambeau clair au vent soulevé c’est un souffle
et celui qui comprend
Tout le chemin est nu
les pavés les trottoirs la distance le parapet sont blancs
Pas de goutte de pluie
Pas une feuille d’arbre
Ni l’ombre d’un habit
J’attends
la gare est loin
Pourtant le fleuve coule des quais en remontant
la terre se dessèche
tout est nu tout est blanc

Avec le seul mouvement déréglé de l’horloge
le bruit du train passé
j’attends

A LÍNGUA SECA
O prego está lá
Segura o declive
O claro retalho que o vento levanta é um sopro
e aquele que compreende
Todo o caminho está nu
os paralelepípedos a calçada a distância o parapeito são brancos
Nenhuma gota de chuva
Nenhuma folha de árvores
Nem sombra de uma roupa
Eu espero
a estação é longe
Ainda que o rio subindo inunde as margens
a terra se resseca
tudo é nu tudo é branco

Tendo somente o movimento desregulado do relógio
o ruído do trem que passou
eu espero

 

 COMME ON CHANGE
Qu’on nous raconte cette histoire
Qu’on nous dise ce qu’il est devenu
Que personne autre qui lui ne parle plus
Il rit
La rue est noire
La nuit vient doucement
Et l’esprit s’abandonne
À d’autres mouvements
Dans le fond à genoux sur le tas de pierres
Et les mains liées
Tous ceux qui pardonnent
Au coeur bourrelé
Il son encore tous là derrière
Les regards étoilés
Tous les noms confondus
Les rires étouffés
Les numéros perdus
Enfin le vent brutal les a tous dispersés
Et seul il s’en allait dans l’ombre sans écho
Il regardait le ciel le mur la terre et l’eau
L’histoire                        le remords
Tout était oublié
Ce n’était plus du tout le même
Au coin            quand il s’est retourné

COMO MUDAR
Que alguém nos conte a história
Que alguém nos diga o que aconteceu
Que ninguém além dele possa mais falar
Ele ri
A rua está negra
A noite vem docemente
E o espírito se abandona
A outros movimentos
No fundo de joelhos sobre uma pilha de pedras
E as mãos unidas
Todos aqueles que perdoam
O coração torturado
Eles ainda estão todos lá atrás
Olhos estrelados
Todos os nomes confundidos
As gargalhadas sufocadas
Os números perdidos
Enfim o vento brutal os dispersou a todos
E ele vai solitário pela sombra sem eco
Ele viu o céu o muro a terra e a água
A história                        o remorso
Tudo foi esquecido
Nada mais é do que já foi
Na esquina            quando ele tiver dado a volta

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