Cartas

dezembro 2018 / DEZEMBRO_2018

Cartas

DEZEMBRO_2018

Arte: Mello

Arte: Mello

Gurgel e Zacca
Nunca me arrependi tanto de ler tardiamente os jornais que chegam regularmente. De qualquer forma, acho válido escrever posteriormente. Acabei de ler a “resposta” do Rafael Zacca ao Rodrigo Gurgel [Rascunho #221]. Fiquei indignada, pois iria fazer o comentário de que a edição 219 foi uma das melhores que li desde que me tornei assinante e um destes motivos foi exatamente o texto do Rodrigo Gurgel. Nem de longe vi alguma “forma rasteira” de criticar uma pessoa pública e pode-se dizer amada como Jorge Amado. É preciso coragem para ser o diferente e escrever. Li Capitães de areia devido à grade escolar e adorei. Indiferente as críticas a Jorge Amado e ao livro, continuo a gostar, meu sentimento não mudou e até me interessei a reler. O que atesto ao ler o que Rafael Zacca escreveu foi ao chamado de críticos a criticar quem critica o que a maioria gosta, uma tentativa de contenção das pessoas que nadam contra a maré, pessoas que têm opiniões contrárias e que não possuem voz para discordar justamente por serem a minoria ou se sentirem a única com opinião contrária e principalmente por se protegerem de pessoas como Rafael Zacca, que possui a opinião nefasta de que não é para enxotar “mas para escancarar o ridículo de seus processos mentais”. As pessoas precisam ter suas próprias opiniões, concordar ou discordar. Concordar até certo ponto, discordar por completo. Cada ser é um universo e cada universo vê o mundo a sua forma. O que me chocou mais foi o meu entendimento que o Rafael Zacca deu em considerar que os leitores são completamente influenciáveis e não seres pensantes. Sim, muitas pessoas são assim e por isso o momento fake news abala tanto, pois não se averigua a veracidade dos fatos. Porém, estamos falando de um jornal sobre literatura a qual dá a liberdade de escrita e escolha do leitor. E, sejamos sinceros, quem hoje faz questão de assinar um jornal impresso, papel que amassa, que possui cheiro, cor e formato? Apenas os verdadeiros amantes das letras. Posso estar sendo ingênua, mas assim como eu, penso que os leitores do Rascunho são seres pensantes e de opiniões, que não seriam assim tão influenciáveis. Presenteei a um amigo a assinatura do jornal e ele me agradeceu imensamente por ter lhe ofertado novamente a oportunidade de ler como se fazia antigamente e em como ele se remodelou aos anos infantojuvenis felizes e ao cheiro que o papel impresso lhe causava. Enfim, apenas quero deixar meu registro de que adorei o texto do Rodrigo Gurgel, detestei o do Rafael Zacca, mas defenderei até a morte o direito deles, e o meu, em dizer.
Francine Prado • São Bernardo do Campo – SP

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