Paiol Literário

dezembro 2011 / Paiol Literário / Carola Saavedra

Texto publicado na edição #122

Carola Saavedra

Começou a quinta temporada do Paiol Literário, projeto promovido pelo jornal Rascunho em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba […]

> Por PAIOL LITERÁRIO

Rogério Pereira e Carola Saavedra. Foto: Matheus Dias

Começou a quinta temporada do Paiol Literário, projeto promovido pelo jornal Rascunho em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba e o Sesi Paraná. Na quarta-feira, 19 de maio, o Teatro Paiol recebeu a primeira convidada do ano, a escritora e tradutora Carola Saavedra, autora do romance recém-lançado Paisagem com dromedário (leia resenha à página 6). Carola nasceu em Santiago do Chile, em 1973, e mudou-se para o Brasil aos três anos. Também morou na Espanha, na França e na Alemanha, onde concluiu seu mestrado em Comunicação. Atualmente, vive no Rio de Janeiro (RJ). Seus outros livros são Toda terça (2007), Flores azuis (vencedor do prêmio APCA de 2008), também romances, e o volume de contos Do lado de fora (2005).

Na conversa que teve com seu público, em Curitiba, mediada pelo editor do Rascunho, Rogério Pereira, Carola Saavedra falou sobre as intenções de sua literatura, sua passagem por vários países, a timidez da infância, a vida na Alemanha, seus processos criativos e a atual desimportância da crítica literária no Brasil.

• Uma esfinge
A literatura nos dá muitas possibilidades. Há alguns dias, eu estava conversando com um amigo, professor de literatura, e pensávamos nisso. Perguntei a ele: “Por que as pessoas estudam literatura? Por que vão a suas aulas? Por que se interessam por isso?”. Ele não dá aulas na universidade, mas aulas particulares. É quase como se fossem grupos de estudo, pessoas que vão até ele porque querem ler um livro e ter um acompanhamento. E esse amigo me falou: “Elas vão às aulas porque querem encontrar respostas. Querem saber como viver melhor, com mais sabedoria”. Achei interessante. Porque minha idéia do que buscar na literatura é justamente o contrário. Na realidade, a literatura não nos dá respostas. O que pode dar respostas a alguém talvez seja — se é que elas existem — um livro de auto-ajuda. Alguma coisa que lhe diga como é que você deve viver, como se sentir melhor. Ou a psicanálise. Ou um remédio. Não sei. Cada um procura as suas respostas. Mas na literatura não. A literatura faz uma pergunta. O livro é quase uma esfinge, ele apresenta um enigma para o leitor. Ali, o leitor vai procurar as suas respostas. Mas o interessante é que não existem respostas. O interessante é a pergunta.

• A pergunta certa
Talvez a idéia principal, aquilo que defina a grande literatura, ou mesmo os clássicos, seja o fato de fazerem as perguntas certas. A psicanálise, por exemplo, costuma dizer que cada um tem a sua “pergunta psíquica”. Talvez exista também uma pergunta certa para cada cultura, para cada país. Uma pergunta que represente o Brasil, ou que represente a Alemanha, ou a Espanha. Às vezes, a questão é fazer a pergunta correta. Isso é muito mais importante do que achar uma resposta. Até porque não existem respostas corretas. Não existe uma resposta única. Então, o que torna um livro um clássico é ele conseguir fazer uma pergunta que sirva para todo mundo. Que possa ser lida por qualquer cultura, em qualquer tempo, mesmo 200 anos depois de escrita. As respostas vão variar, é claro. Dom Quixote, quando foi escrito, era um livro. Hoje é outro. O tempo o transformou, porque também transformou o leitor. A história da literatura também é outra, aconteceram mil coisas. Você não vai ler o Dom Quixote como ele foi lido na época em que foi escrito, mas ele continua fazendo uma pergunta, um questionamento para o leitor. Talvez essa pergunta continue funcionando, e é isso que faz com que a obra continue sendo importante, e sendo lida.

• Setenta anos
A literatura pode abrir uma janela para as pessoas. Se você viveu 70 anos, e leu muito, talvez tenha percebido coisas que não teria a possibilidade de perceber em sua própria vida, no seu dia-a-dia. Agora, isso não é importante, acho que não é uma função. Até porque a literatura não deve ter uma função prática. Não, ela talvez não sirva para muita coisa. Ou sirva para o que cada um quiser fazer com ela.

• Estar e olhar
Quando você é escritor, é escritor 24 horas por dia. Você vive aquilo. Porque ser escritor é uma forma de estar no mundo, de olhar para ele. Na realidade, o que faz de alguém um artista é o seu olhar para o mundo. É como ele o vê. Então, há esse olhar do escritor. E, aí, a importância da literatura. Para mim, ela é importante 24 horas por dia porque estou olhando o mundo através de seu filtro, mesmo que depois eu não vá escrever nada sobre o que estou vendo.

• Astronauta
Quis ser escritora desde criancinha. Há aquela pergunta: “O que você quer ser quando crescer?”. Pois eu queria ser escritora. Mas, naquela época, querer ser escritora era como querer ser astronauta. Uma coisa fora da realidade. Como sempre gostei de ler, sempre me vinha a idéia de criar. Era como eu vivia a literatura na infância. A literatura era criar mundos. Eu pensava muito sobre isso: “Um filme nos oferece uma imagem pronta. O livro não. A gente pode imaginar o que quer”. O livro me dava essa liberdade. Não que meus pais tivessem uma biblioteca gigantesca, ou que vivessem lendo. Não, normal, eles liam, mas eu não tinha um incentivo. Tanto que meus irmãos não se interessam por literatura. Não era uma coisa da família. Era um interesse meu, pessoal, da minha personalidade.

• Tímida
Acho que fui uma criança muito tímida. E a timidez faz com que uma criança se afaste e comece a olhar as coisas de fora. Eu tinha mudado de país (Carola se mudou do Chile para o Rio de Janeiro aos três anos), tinha a questão do idioma. Os primeiros anos aqui foram anos de adaptação. Lembro de pouca coisa, mas lembro de ter que me adaptar. Você acaba olhando as coisas como quem está de fora, e isso lhe dá certa capacidade de análise. É como quando você vai morar fora do país. Antes disso, você está inserido na sua cultura. Você come todos os dias a mesma coisa, pensa de um jeito e, exagerando um pouco, todos pensam da mesma forma. Mas, quando você sai, sai justamente desse centro. E, numa extremidade, você muda o seu olhar.

• Outra vida
Tudo que fiz eu fiz pensando que um dia iria escrever. Terminei o colégio e fiz faculdade de jornalismo somente porque queria escrever. Eu pensava: “Quero escrever. Mas, como não posso escrever e não consigo escrever agora, como não tenho os meios, vou estudar jornalismo e trabalhar como jornalista, pois assim estarei perto da escrita”. Eu achava, ingenuamente, que o jornalismo tinha algum parentesco com a literatura. Depois vi que não, que não tinha nada a ver. Formada, descobri que realmente não queria trabalhar como jornalista e fui fazer um mestrado em comunicação na Alemanha. Eu já tinha estudado num colégio alemão, já falava o idioma; então, peguei minhas coisas e fui para lá. Eu tinha aquela coisa de querer morar fora, viver outra vida. O mestrado também não me interessava. Estudar não era o mais importante. O mais importante era viver e ler. E, todo esse tempo, eu pensava: “Em algum momento, vou escrever”.

• Ler de tudo
Eu escrevia pouca coisa. Às vezes, escrevia um conto, muito ruim. Tudo que escrevi até os 30 anos é muito ruim. Talvez alguém pudesse ver, ali, alguma espécie de talento, mas eu, hoje, olhando para aquilo, acho que não havia nenhum. Eu era alguém que queria escrever, mas que ainda não tinha encontrado a forma, a linguagem, o como. Ainda não tinha me encontrado. Então, fui para a Alemanha e comecei a ler. E as bibliotecas das universidades alemãs são incríveis. Havia toda a literatura latino-americana, a literatura brasileira, a alemã, obviamente. Eu tinha acesso a tudo aquilo. Eu não precisava comprar livros, nem encomendá-los. Assim, passei talvez cinco anos lendo, numa biblioteca. E li tudo.

• Mais que uma história
Eu tinha o prazer da leitura. Não lia porque, um dia, iria escrever. Mas um escritor, obviamente, precisa ler, ter uma formação. Ele não surge do nada. Tem que saber onde está se movimentando. O que acontecia antes, comigo, é o que acontece com muita gente que está começando a escrever. Quando se é muito jovem, não se sabe o que já foi feito, nem onde se está metendo. Aí, surgem coisas completamente fora de seu tempo. O que foi feito? De onde vou partir? Quais são as minhas possibilidades? Eu estava sempre pensando no novo. Como é possível ir além? Eu não estava interessada em contar uma história. Para mim, a literatura não é só contar uma história. É contar uma história e muito mais que isso.

“A literatura faz uma pergunta. O livro é quase uma esfinge, ele apresenta um enigma para o leitor. Mas o interessante é que não existem respostas. O interessante é a pergunta.”

 

• Clarice numa caixa
Três autores mudaram a minha vida, como leitora e como escritora, e me fizeram repensar minha idéia de literatura, repensar o que eu poderia fazer. Sem eles, eu não teria escrito nada. Primeiro, quando eu era muito jovem, aos 17, 18 anos, houve Clarice Lispector. Na época, eu vinha lendo aquilo que você lê no colégio. Machado de Assis, etc. Eu não lia Clarice. E o que ela me trouxe de novo foi perceber tudo que eu podia fazer com a linguagem. Para mim, aquilo era impensável. Que a linguagem me permitisse aquilo? Que eu pudesse esgarçar a linguagem àquele ponto? Essa foi a primeira grande experiência. E ela me marcou tanto, que demorei muitos anos para me livrar de Clarice, da influência dela no que eu escrevia. Eu estava tão impregnada daquilo que acabava virando uma imitação de Clarice. E, em algum momento, cheguei a falar: “Não leio mais Clarice”. Aí, peguei todos os livros dela e guardei. Fechei numa caixa. Acabou. Não leio mais. E passei anos, uma década, sem ler Clarice. Só voltei a lê-la quando me senti segura. Quando vi que podia lê-la sem que ela influenciasse a minha escrita.

• Cortázar, uma seta
O segundo encontro foi com Cortázar. Eu tinha acabado de chegar à Alemanha, e fui ler O jogo da amarelinha. Esse livro também me marcou muito, mas em outro sentido. Pensei: “É possível contar uma história com uma estrutura completamente diferente”. Não preciso usar uma lógica, uma estrutura linear. Então, aquelas questões — como ele trabalhava os capítulos, os capítulos imprescindíveis — me maravilharam. Falei: “Poxa, eu posso ir por esse caminho, de alguma forma”. É como se colocassem, ali, uma seta: “Procura por aqui”. Isso me fez procurar outras possibilidades na literatura.

• A janela de Bolaño
O terceiro autor foi Roberto Bolaño. Eu estava na Espanha. Era 2001. E havia uma febre de Bolaño, já naquela época. Em todas as livrarias, havia livros dele. Em todos os lugares. Acabei comprando um (Os detetives selvagens), e aquilo também me marcou muito. Foi uma experiência pessoal. Parecia que se tinha chegado a um ponto, na literatura, em que não era mais possível avançar. E Bolaño mostrou que era. É como se ele abrisse uma janela para a literatura no século 21.

• A minha pergunta
A pergunta que faço é sempre para o leitor: “Que papel você gostaria de ter nesse livro? Qual é a sua função aqui?”. Não é só uma pergunta, mas talvez um convite. “Como você pode interagir com esse livro?” Toda terça é um livro cheio de detalhes. É um livro que parece, num primeiro momento, muito simples. Mas ele é todo construído em detalhes. Nada do que escrevo é por acaso. Tudo é planejado. É claro que, em todo livro, há um espaço para o acaso. Mas minha intenção é sempre planejada.

• A morte não existe
A impossibilidade da comunicação. A incomunicabilidade. Talvez seja esse o meu grande tema. E a impossibilidade do amor. Meus personagens têm uma dificuldade muito grande de amar, seja porque amem demais, seja porque mantenham distância do mundo e não consigam chegar ao outro. Acho que haverá, sempre, esse vão entre o que um diz e o outro interpreta. Essa impossibilidade de dizer e ser entendido pelo outro, de chegar perto do outro. No fundo, talvez seja a solidão. Não sei. E aí você chega à morte. Um dos temas, ou o tema, de Paisagem com dromedário é a morte, ou o luto. E a impossibilidade de você “dizer a morte”. De falar sobre ela, colocá-la em palavras. Você só se aproxima dela. A Érika (protagonista do romance) só consegue se aproximar quando a morte realmente aparece e, aí, ela não consegue nem agir. Quando a Karen diz “olha, estou com câncer”, a Érika simplesmente vai embora e nunca mais fala com ela, o que é uma atitude radical e cruel de certa forma. Mas não vejo isso como uma crueldade tão grande. Tenho até uma simpatia pela Érika. Porque, para ela, a morte não existe.

• Perguntar e morrer
A morte não significa nada. É um vazio. Tenho duas experiências muito fortes com a morte e, para mim, elas não têm significado nenhum. Por exemplo, minha avó, uma pessoa muito importante na minha vida, morreu quando eu estava na Alemanha. E não consegui chegar para o enterro. Quando cheguei, ela já havia sido enterrada. Assim, a morte dela não significa nada para mim. Talvez por eu não ter ido ao enterro. Em Paisagem com dromedário, isso aparece muito, isso de ir ao cemitério e acender uma vela, fazer um ritual que dê significado àquilo que não tem significado algum. Como não vivi esse ritual, a morte de minha avó virou um nada, um vazio. É claro que, racionalmente, sei que ela morreu. Mas, na realidade, não sei: ela continua existindo na minha vida. Claramente. Para mim, de certa forma, ela não morreu. E é por isso que temos essa necessidade de construir rituais, de ir ao cemitério. Na nossa sociedade, talvez a morte esteja muito distante. A pessoa morre e você nem vê o seu corpo. No hospital, é como se houvesse um mistério em torno da morte. Antigamente, era a própria família do morto que preparava o corpo. Talvez isso seja necessário para tornar real aquela morte, para você poder dizer: “Realmente, essa pessoa morreu”. Mas, mesmo assim, o que fica é um estranhamento. Mesmo que você veja o corpo. O que fica ali, o que existe, é um nada. E é com esse nada que você tem que lidar. Claro, para quem morreu, a morte não tem importância. Ela existe para os que ficam e, para os que ficam, fica esse não-nomeado, esse vazio, esse algo que você só pode contornar. Você não consegue chegar ao seu núcleo, ao seu cerne. Essa é minha visão.

• Posteridade
Quando eu estiver morta, morri. Que importa o que escrevi, ou se alguém vai me ler? Que importa se vou ser esquecida? Não faz a menor diferença. Se você morreu, morreu. E aquilo que você escreveu não terá a menor importância. Quando eu morrer, o que escrevi não terá a menor importância. Só tem importância, para mim, enquanto estou viva. Não tenho pretensão de ficar para a posteridade. Ela não tem significado para mim. Ela não existe. Não estarei nela. Morri. A posteridade pode ser uma ilusão. Algo que construí. A literatura serve para o presente, para a vida agora, e não para a idéia ilusória de uma posteridade, uma idéia que me parece completamente absurda.

• Vida normal
O cinema e as artes plásticas são muito importantes para mim como fontes de inspiração — vamos falar desse jeito. Não, não vamos falar de “fontes de inspiração”, isso é um clichê. Mas as artes plásticas e o cinema me ajudam a pensar a literatura. É como se você pudesse, ao passar às outras artes, ter idéias que tangenciam a literatura, mas que podem influenciá-la, modificá-la. Existe aí, claro, toda uma discussão sobre o que é arte. Essa é uma pergunta muito presente na minha vida, até porque as artes plásticas sempre foram muito presentes. Não para mim como artista, mas para mim como espectadora. A Érika, na realidade, tem uma crise completa. Ela questiona justamente o trabalho que fez. Ela se questiona como artista e questiona o que é arte. E tem uma visão que não é necessariamente a minha. É a visão de alguém que está um pouco ressentido com aquilo tudo, e que quer se afastar. Ela tem a necessidade de dizer: “Quero viver uma vida normal. Não quero ser a grande artista. Não quero criar a grande obra. Não quero nada disso. Quero ter uma vida normal, sem importância, sem posteridade”.

“Não é que a literatura não sirva para nada. Ela serve para o que você quiser. Você não vai escrever um livro para que ele sirva para alguma coisa. Mas o leitor faz com o livro o que quiser.”

 

• Exterior
Se tivesse ficado no Brasil, se não tivesse ido à Alemanha, eu jamais teria escrito nada. Precisei dessa experiência. Morei dez anos fora, no total. E a maior parte do tempo na Alemanha. Precisei me distanciar. Precisei da experiência do distanciamento. De uma radicalização da experiência do não pertencimento. Do não pertencer a nada. Eu me questionava: “De tudo isso, o que é meu?”.

• Uma brasileira
Eu me considero uma escritora brasileira. Cresci aqui, fui para o colégio, para a faculdade, me formei. Por outro lado, falava espanhol em casa; falo até hoje. O espanhol era uma realidade para mim. Apertava um botão, falava espanhol; apertava outro, falava português. Depois, fui à Alemanha, e vivi em alemão. Não fiz como alguns estrangeiros, que vão para lá e vivem numa colônia ou numa ilha, brasileira ou latino-americana. Fui e vivi no mundo alemão. Meus amigos eram alemães. Fui casada com um alemão. Eu tinha a convivência do alemão, da vida e da cultura alemã, eu vivia naquele idioma. Às vezes, passava meses sem falar português ou espanhol. Falava alemão o dia inteiro. Isso, para mim, foi muito importante. Porque eu tinha um distanciamento da cultura daqui, mas também do idioma. E ficou claro, para mim, que falar português era importante. Por exemplo, eu poderia ficar sem falar espanhol nos próximos dez anos, mas não poderia ficar sem o português.

• Lugar no mundo
Esta era uma questão importante para mim — hoje em dia, deixou de ser —: “Onde está o meu lugar? Qual é a minha pátria?”. Não vou falar em pátria, porque com ela vem uma idéia de nacionalismo de que não gosto. Mas qual é o meu lugar? E o que ficou claro, através da escrita — que foi um lugar que construí para mim, pois todo lugar é construído —, foi que esse meu lugar é a língua portuguesa. É ali que eu me insiro, e não importa se estou no Brasil ou na Alemanha. É isso que me dá um lugar no mundo. Cada um constrói o seu. E, no meu caso, não é um lugar físico. Também não é um sentimento de nacionalismo. É um sentimento de viver e querer viver nesse idioma. E se identificar com aquilo. Então, a língua portuguesa é importantíssima. Eu poderia abrir mão de todo o resto. Agora muito mais. Porque minha vida gira em torno da literatura. Então, essa foi a identidade que construí para mim. Foi um processo longo e bastante doloroso também. E precisei dos anos fora para construir isso.

• Pensar em alemão
Traduzir não ajuda nem atrapalha. São coisas completamente separadas. Sem traduzir, eu continuaria a ser a mesma escritora que sou hoje. Agora, não seria a escritora que sou se não tivesse vivido nesses outros idiomas. Por exemplo: pensar em alemão. O espanhol e o português são idiomas muito parecidos, sua estrutura é muito semelhante. O alemão não. O alemão é um pensar completamente diferente. Quando você pensa em alemão, pensa diferente. Porque o alemão é muito detalhista. Tem várias palavras para falar “saída”, dependendo de como você vai sair: de carro, a pé, de avião ou fugindo. Há várias. Só isso já mostra que é um idioma muito diferente. Na psicanálise, uma coisa que sempre me interessou muito, quando Freud fala em “es”, que é o id — e acho que agora, na tradução nova, é “aquilo” —, trata-se, em alemão, do pronome pessoal reto para o artigo neutro. E “aquilo” é outra coisa em alemão. Não existe uma tradução exata em português. Então, o que acontece? É um significado muito difícil de traduzir. É muito difícil pensá-lo em outro idioma. Por isso, o alemão me deu outras probabilidades de raciocínio, pensamento, lógica. E isso, de alguma forma, repercute no modo como você pensa o mundo e as coisas. A linguagem é uma interpretação do mundo. Cada linguagem é uma ferramenta diferente. E, com cada uma, você vai interpretar o mundo de uma forma diferente.

• Metódica
Mudei muito minha forma de trabalhar. Quando comecei a escrever, com Toda terça e Flores azuis, eu era muito metódica. Flores azuis foi muito planejado, capítulo por capítulo. Planejei tudo que ia acontecer, e como aquilo ia funcionar. Eu morava na Alemanha, tinha uma vida muito tranqüila, no sentido de que eu podia planejar. “De manhã, vou fazer isso até tal hora.” Minha vida era muito planejada. Quando voltei ao Brasil, ela já era outra. Eu tinha mil coisas para resolver. Eu era muito metódica, não sou mais. Escrevo quando posso, quando dá. Quando tenho tempo, escrevo. Não tenho mais esse controle. E talvez isso se reflita um pouco em Paisagem com dromedário. Não é um livro tão controlado como os outros. E, claro, continua sendo muito pensado. Mas, nele, houve um espaço maior para a surpresa.

• Escritora 24 horas
Quando você termina um livro, vem, primeiro, um sentimento de ressaca. Você diz: “Pronto, agora eu já disse tudo que tinha para dizer. Pronto, acabou”. Mas você terá, logo depois, o lançamento do livro, e ainda vai falar muito dele. Você continua preso ao livro que lançou, mas também com essa sensação de esgotamento. “Eu já disse aqui tudo que tinha para dizer. Não vou dizer nada, nunca mais.” Aí, passo um tempo, normalmente um ano, sem escrever, sem começar romance nenhum. Mas, nesse tempo, estou juntando idéias. Isso é o que eu quero dizer quando digo que sou escritora 24 horas por dia: estou o tempo todo pensando. Não num enredo. Estou juntando idéias. Trabalho com cadernos. Vou a uma exposição, faço minhas anotações. Vejo um filme, vou anotar. Ouvi um diálogo interessante, anoto. Penso em possibilidades de enredo que poderei desenvolver algum dia, mas que provavelmente nunca vou usar. Vou juntando, mas sem pensar em escrever nada. Acho que isso também é parte do processo de criação de um livro. Mesmo que você não esteja pensando em algo específico. Depois de um ano, um ano e meio, aí sim, surge a necessidade: “Agora tenho alguma coisa a dizer”. E encontro uma solução para as perguntas que estou me fazendo o tempo todo.

 

“Que importa o que escrevi, ou se alguém vai me ler? Que importa se vou ser esquecida? Não faz a menor diferença.”

 

 

• Língua de formação
O português é o idioma da minha formação intelectual. Como eu disse, fui para o colégio e depois fiz faculdade no Brasil. Toda a minha formação intelectual foi em português. O espanhol, para mim, está muito ligado às emoções, à família. E o português ficou sendo o modo como lido com o mundo. Esse é um ponto. Outro é que não foi uma escolha consciente. Não houve um momento em que me disse: “Vou escolher o português”. Sempre me perguntam: “Por que você não escreve em espanhol?”. Curiosamente, isso nunca me passou pela cabeça. Eu poderia escrever em espanhol. Mas nunca tive essa necessidade, essa vontade. Foi uma escolha tão óbvia, desde o começo, que nunca me passou pela cabeça escrever em espanhol. Era uma coisa muito clara, mas não de uma forma consciente. As coisas se deram naturalmente. Acho que tem a ver com isso, com a minha formação intelectual. Minhas leituras, desde criança, foram em português.

• Trinca em alemão
Há autores em língua alemã de que gosto muito. Thomas Bernhard, talvez um dos que mais me marcaram, comecei a ler na Alemanha. W. G. Sebald, que agora começou a ser traduzido aqui. É um autor fantástico, que trabalha a fotografia em suas obras. Um dos escritores que mais me chamam a atenção, foi muito presente na minha vida na Alemanha. E Robert Walser, um autor pouco conhecido aqui.

• O Brasil em Berlim
Quando falei que as universidades alemãs estão cheias de literatura brasileira, não é bem assim. Eu estava em Berlim. Lá, você tem o Instituto Ibero-americano, que conta com a maior biblioteca de literatura latino-americana do mundo. Você encontra tudo lá. Se um autor publicou, aqui ou na Argentina, você o encontrará naquela biblioteca. Incrível. Pessoas de todos os lugares do mundo vão pesquisar naquela biblioteca. Jornais, revistas, tem tudo o que você possa imaginar. Agora, a literatura brasileira é muito periférica. Não tem muita importância. Na Europa, nos países de língua inglesa, é uma dificuldade muito grande. A literatura em língua espanhola, não. Ela chega mais, por algum motivo. Já o Brasil ficou um pouco isolado. Portugal também. A Alemanha tem poucos tradutores de literatura do português para o alemão. Poucos professores realmente bons, que conheçam o assunto. O que tem é muita gente que estudou literatura espanhola, ou hispano-americana, fez um curso de português, passou alguns dias aqui no Brasil e resolveu estudar literatura brasileira. E daí não pode surgir coisa muito boa. Há muita ignorância ainda. Agora, é claro que você tem ilhas. Em Berlim, por exemplo, você tem o Instituto de Estudos Brasileiros, que é muito importante para a Europa. Mas são ilhas. Você tem alguns bons estudiosos pesquisadores de literatura brasileira na Alemanha. Mesmo assim, é coisa de muito pouca importância. Uma pena.

• Desejo do exótico
Há um desejo do exótico. Na Europa, quando vão escolher livros brasileiros para traduzir, sempre querem alguma coisa típica do Brasil. Índios, por exemplo. Agora, depois do filme Cidade de Deus, é a violência, a favela. Temas que interessam os europeus dentro da imagem que fazem do Brasil. E tudo que foge disso, tudo que foge da imagem estereotipada, não interessa. “Ah, por que eu vou traduzir isso, do Brasil, se eu o tenho aqui, na França?” Eles pensam assim. Há exceções, claro, há editores que não pensam dessa forma. “Mas por que vou traduzir um texto que poderia ter sido escrito por um europeu? Se vou traduzir um brasileiro, é para que nos fale de assuntos que não temos aqui.” Então, isso parte de um clichê que não sei se é fácil de mudar a curto prazo.

• Trinca brasileira
Autores que, para mim, no Brasil, foram e são muito importantes. Bernardo Carvalho. É um dos grandes autores contemporâneos. Gosto muito do Luiz Ruffato. E o Sérgio Sant’Anna também foi muito importante. Tem alguns outros. Mas esses são os autores que leio e acho importantes.

• Crítica estelar
O que me incomoda no Brasil é que faltam críticos. Falta a figura do crítico. Existem, claro, críticos famosos e muito importantes, mas ainda é muito pouco. Para que a literatura de um país se desenvolva, você precisa de mais críticos, de pessoas que questionem os autores, dialoguem com eles. Gosto muito da literatura argentina. E você vê, nos jornais argentinos, críticas impressionantes. Mesmo críticas de jornal, muito bem feitas, muito detalhadas. Falta aqui um pouco dessa idéia de que o crítico é importante. Na Alemanha, ele é quase uma estrela, tão importante quanto o autor. E aqui todo mundo tem que ser autor. Mas, se todo mundo for autor, não haverá ninguém com quem dialogar. Esse diálogo é importantíssimo. E aqui faltam ainda mais possibilidades. Não me refiro só a resenha de jornal. Sinto falta também de um diálogo com a academia. O que é que eles estão produzindo? Não só para mim, como escritora, mas seria importante também para o leitor ter acesso àquilo que se está escrevendo na universidade. Esse tipo de comunicação, de diálogo, é importantíssimo para a literatura.

• Uma contradição
Um autor sempre fica muito contente quando aquilo que escreveu toca o outro de alguma forma. Sempre estou falando da impossibilidade de comunicação. Mas há essa contradição: existem momentos em que, sim, há uma comunicação. Não é que a literatura não sirva para nada. Ela serve para o que você quiser. Você não vai escrever um livro para que ele sirva para alguma coisa. Mas o leitor faz com o livro o que quiser.

Edição: Luís Henrique Pellanda

LEIA RESENHA DE PAISAGEM COM DROMEDÁRIO

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