Dom Casmurro

dezembro 2018 / Dom Casmurro / Carlos Dala Stella

Texto publicado na edição #224

Carlos Dala Stella

Dois poemas de Carlos Dala Stella

> Por Carlos Dala Stella

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Partindo lenha

quando a lâmina em cunha do machado
está afiada e o golpe é bem dado
a lenha se abre à primeira machadada

a força é necessária, mas a qualidade
do golpe, a favor do veio seco
nunca contra, é que faz a diferença

o ângulo reto sobre o topo da acha
ou levemente inclinado desviando o nó
vai determinar a eficácia da batida

o estalido seco e rasgado das fibras
aquece antes do fogo o corpo
como o esforço físico despendido

aos oitenta e dois anos, minha nona
três dias antes de morrer, partia lenha
no tronco, sob o telhadinho do paiol

o vestido azul xadrez, o coque branco
o corpo magro e enérgico, e súbito
o quarto de círculo do golpe no ar

sem nenhum trejeito ou desperdício
de energia, concentrado em fender
no ponto certo o pinho ou a bracatinga

lembro do azul limpo e alegre dos olhos
em comunhão com o céu maior
da pele fina das mãos e das pernas

daquele modo justo de caber na vida
e eficiente, sem que no entanto
sua aura de alfazema se perdesse

O estreito de Bósforo

por aqui não passam os navios
que passam pelo estreito de Bósforo
também não há uma ponte pênsil
ligando as duas margens
mas o fluxo azul do tempo é o mesmo
é a mesma correnteza inesgotável
articulando dobradiças espelhadas à superfície
o mesmo casario vermelho ao sol
janelas abertas para o comércio com o mundo
janelas fechadas para os pequenos corações
das gaivotas que sobrevoam os telhados
e dentro os mesmos gatos de preguiça
as mesmas crianças incógnitas de alegria
e de mal digerido espanto
esse silêncio disfarçado de tédio
que faz do consolo ordinário dos latidos
mais uma página cifrada para os ouvidos
e que põe sobre a mesa os mesmos
olhos de sonho e as mesmas perdas
no mesmo vaso florido

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