Dom Casmurro

fevereiro 2019 / Dom Casmurro / Carl Rakosi

Texto publicado na edição #226

Carl Rakosi

Cinco poemas de Carl Rakosi

> Por André Caramuru Aubert

Carl_Rakosi_226

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert
Carl Rakosi (1903-2004) nasceu na Alemanha, filho de um joalheiro judeu. Ainda criança, emigrou com o pai e a madrasta para os Estados Unidos, onde se formou na Universidade de Wisconsin. Começou a escrever poemas na faculdade, quando foi descoberto e apadrinhado por Ezra Pound. Usualmente ligado, pela crítica, ao movimento Objetivista, Rakosi, no entanto, considerava reducionista qualquer definição para sua poesia, que era por vezes lírica, outras vezes satírica, outras, ainda, meditativa ou imagética. Não sei se existe, mas não consegui descobrir nenhuma tradução anterior dos poemas de Carl Rakosi para o português.

The incurable illness

I am ninety years old.
I don’t think anymore.
It can’t help me.

Who could look at me
lying here
and know what I was?

A woman sobbed in the passage.
A doença incurável

Tenho noventa anos de idade.
Não penso mais.
Isso em nada ajudaria.
Quem poderia olhar para mim
aqui jogado
e saber o que eu fui?

Uma mulher soluçou no corredor.

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The dead father

Let me be an old dog in a corner
or a pair of favorite slippers
by your bed
and hear again about your early life
and have you care for me forever.
O pai morto

Me deixe ser um cachorro velho num canto
ou um par daqueles seus chinelos prediletos
junto à cama
e possa novamente ouvir as histórias da sua infância
e possa ter você para sempre cuidando de mim.

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You

in whom distrust lies
like a gall stone
and desire grows up aching,
a sharp tooth,
there are times your courage
rises over all
and knows no high airs
or aloofness.

Then I plant myself near you
and swear I shall never leave.
Você

em quem vive a descrença
como uma pedra na vesícula
e o desejo que cresce doendo,
um dente afiado,
há momentos em que sua coragem
se eleva sobre tudo
e ignora os ares elevados
ou a indiferença.

Então eu me planto junto a você
e juro que jamais irei embora.

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Song
After Jehudah Halevi

On the wind
in the cool of the evening
I send greetings to my friend.

I ask him only to remember the day
Of our parting when we made a covenant
Of love by an apple tree.
Canção
Depois de Jehudah Halevi

Sentindo o vento
No frescor da noite
Envio saudações a meu amigo.

Pedindo a ele apenas para se lembrar do dia
em que nos despedimos, em que fizemos um pacto
de amor sob uma macieira.

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At the open casket

We had the same mother,
the same father,
walked the same streets.
Often we were waylaid
on our way to school
and would scrap side by side.
Our underclothes
with the fresh smell of soap
used to lie
neatly folded
in the same drawer.

(Takes off his tie
and hands it to the undertaker)
“Put this on him.
He was always neat.”

In the end is the man
of flesh.
He leaped into the grave
for that principle.

His habits,
too, were principles.
His voice as a man,
the warmth,
thick in phlegm
far back of the palate.

The eyes
looking inward
a light entering
like a pin head
as a comic memory
came into his mind.
His bearing, modest;
he was taken for ordinary.

How lovable he appears
From this distance!

In the end is the man
of family.

I must look at him again.

The features are the same,
though less pinched, less nervous.
The color in his cheeks is fairly natural.
There’s dignity the way he’s stretched out.
Objective cancelled.
Out of work.

Lies as in a pause.
Very peaceful.
(I don’t remember that!)

That’s the undertaker’s specialty.
The man’s gone mad in physics.
I in metaphysics.
Diante do caixão aberto

Nós tivemos a mesma mãe,
o mesmo pai,
andamos pelas mesmas ruas.
com frequência levávamos sustos
no caminho para a escola
e enfrentávamos juntos.
Nossas roupas de baixo
com o fresco aroma de sabão
Costumavam ficar
cuidadosamente dobradas
na mesma gaveta.

(Tire fora a gravata
e entregue ao agente funerário)
“Vista isso nele.
Ele estava sempre elegante.”

No fim é um homem
de carne e osso.
Ele foi para o jazigo
baseado neste princípio.
Seus hábitos,
também, eram princípios.
Sua voz de homem,
doce,
densa em fleuma
vinda lá de trás do palato.

Os olhos
que olhavam para dentro
uma luz penetrando
como uma cabeça de alfinete
Quando a lembrança de algo engraçado
vinha-lhe à mente.
Sua atitude, simples;
Ele era visto como uma pessoa comum.

Quão adorável ele se mostra
Assim visto de longe!

No fim das contas é um pai
de família.

Eu preciso olhar novamente para ele.

As feições são as mesmas,
embora menos contido, menos nervoso.
A cor nas bochechas parece natural.
Há dignidade na maneira como está deitado.
Missão cancelada.
Não está funcionando.

Deitado como se estivesse numa pausa.
Em muita paz.
(eu não me lembro disso!)

É a especialidade do agente funerário.
O homem enlouqueceu na física.
Eu, na metafísica.

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