A literatura na poltrona

fevereiro 2012 / A literatura na poltrona / Canetti e as três realidades

Texto publicado na edição #142

Canetti e as três realidades

O realismo na ficção está cada vez mais distante de dar conta do mundo em que vivemos

> Por JOSÉ CASTELLO

Ilustração: Tereza Yamashita

Apaixonados pelo cinema, pela TV e pela internet, grande parte dos jovens escritores se dedica, hoje, a construir uma espécie de “novo realismo”. Imitam, assim, os grandes autores realistas do século 19, uma época em que este já era um projeto impossível. Pois hoje ele é mais impossível ainda. Hoje? Já em 1965, o escritor Elias Canetti, em um delicado ensaio de meia-dúzia de páginas, apontava o fracasso da opção realista.

Lá se vai quase meio século! E, no entanto, sufocados pela hiper-realidade virtual, hipnotizados por uma realidade que se parece com uma prisão, os jovens escritores insistem em buscar o impossível. Já em 1965, dizia Canetti — leio seu ensaio em A consciência das palavras, em edição da Companhia das Letras —, era preciso considerar que existem pelo menos três, e não apenas uma, realidades.

Fala Canetti da “realidade crescente”, da “realidade mais exata” e da “realidade do devir”. Sim, a realidade é uma construção (uma ficção) e suas possibilidades são infindáveis. Vivemos, na verdade, no interior dessas três realidades por ele propostas.
Realidade crescente: existem hoje (e ele vivia nos anos 1960!) muito mais pessoas, e também infinitamente mais coisas, do que nos tempos estáveis e fixos de Gustave Flaubert e de sua Bovary. Diz Canetti a respeito: “A ampliação de nossa realidade, sua
realidade crescente, a uma aceleração para a qual não se pode antever meta alguma, é também a causa de sua confusão”. Isso, eu insisto, há cinqüenta anos. E hoje?!

Realidade mais exata: vivemos hoje em uma realidade muito mais controlada pela ciência do que imaginaram autores “da objetividade” como Balzac ou Zola. Para este, por exemplo, o romance experimental devia se apoiar em modelos fisiológicos! “A exatidão se reflete também na propensão à completude”, diz Canetti. Outra vez: na obsessão pelo Todo, obsessão guardada na raiz de toda estética realista. Desde o século 19, o realismo quer “tudo mostrar”. Hoje, se temos nossas vidas devassadas pela web, esse desejo parece não só mais avassalador, como também mais perigoso.

Realidade do devir: o mundo está tão acelerado que o futuro parece grudado a nossos pés. Nós tropeçamos no futuro, já não o miramos mais. Diz Canetti a esse respeito: “O devir apresenta-se aqui de forma diferente da do passado: ele se aproxima mais depressa e é produzido de modo consciente”. Comenta, ainda, que a realidade do devir foi cindida: de um lado a aniquilação, de outro o bem-estar. Esse duplo devir é uma espécie de destino fatal a nos oprimir. “Não há ninguém que possa ignorá-lo”, Canetti escreve. Cada vez que avançamos para o progresso, avançamos também para a destruição. São as duas pernas de um mesmo monstro que, para se mover e andar, precisa de ambas, ou cai e se imobiliza. “Cada pessoa vê, ao mesmo tempo, o claro e o escuro aproximando-se numa velocidade angustiante. Pode-se afastar de um deles para observar o outro, mas ambos estão sempre aí, constantemente presentes.”

A ficção de nossos dias, portanto, se deseja ainda ser “realista”, não pode se limitar aos grandes painéis do contemporâneo, ou aos enredos de ação e objetividade. Precisa meter as mãos nesse grande fosso escuro, e em grande parte inviolável, no qual a realidade se triparte. Ou mais ainda: em que ela, hoje, cinqüenta anos depois do ensaio de Canneti, se fragmenta. A época dos retratistas terminou. Mesmo os mais avançados equipamentos digitais não podem dar conta do mundo em que estamos metidos.

O fracasso do realismo procede de um impasse: nenhuma imagem fixa corresponde mais à realidade em que vivemos. Para dela se aproximar, somos obrigados a manipular destroços, fragmentos, precárias simulações. A realidade não cabe mais dentro de nossa idéia de realidade. Em conseqüência, é bem mais prudente esquecer a idéia de realidade e pensar em outra coisa. Pessoalmente, acho mais útil pensar na idéia de ficção. Ou dizendo ainda melhor: de ficções.

O século 21 exige, portanto, outra idéia de literatura. É reconfortante e belo reler os realistas do século 19, mas suas narrativas, nos dias de hoje, se assemelham aos contos de fadas. Continuamos a amá-los, eles continuam a ser apaixonantes — mas já não nos servem como espelhos, já não dão conta do mundo em que somos obrigados a viver. Podemos pensar, no máximo, em uma grande malha de realidades (ficções), que lutam por novas posições, que se combatem, que se misturam, e nessa grande (mas rica) confusão levam nosso século a andar.

NOTA
O texto Canetti e as três realidades foi publicado originalmente no blog A literatura na poltrona, mantido por José Castello, colunista do caderno Prosa & Verso, no site do jornal O Globo. A republicação no Rascunho faz parte de um acordo entre os dois veículos.

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Desde o século 19, o realismo quer “tudo mostrar”. Hoje, se temos nossas vidas devassadas pela web, esse desejo parece não só mais avassalador, como também mais perigoso.