Dom Casmurro

outubro 2019 / Dom Casmurro / Campbell McGrath

Texto publicado na edição #234

Campbell McGrath

Seis poemas de Campbell McGrath

> Por Campbell McGrath

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Capitalist Poem #5

I was at the 7-Eleven.
I ate a burrito.
I drank a Slurpee.
It was late, after work, washing dishes.
The burrito was good.
I had another.

I did it every day for a week.
I did it every day for a month.

To cook a burrito you tear off the plastic wrapper.
You push button #3 on the microwave.
Burritos are large, small, or medium.
Red or green chili peppers.
Beef or bean or both.
There are 7-Elevens all across the nation.

On the way out I bought a quart of beer for $1.39.
I was aware of social injustice

in only the vaguest possible way.
Poema capitalista nº 5

Eu passei por uma 7-Eleven .
Eu comi um burrito.
Eu bebi um Slurpee.
Já era tarde, depois do trabalho, lavava louça.
O burrito estava bom.
Peguei outro.

Fiz isso todos os dias por uma semana.
Fiz isso todos os dias por um mês.

Para preparar o burrito você rasga o embrulho de plástico.
E aperta o botão 3 do micro-ondas.
Burritos podem ser grandes, pequenos ou médios.
Pimenta vermelha ou verde.
De carne, feijão ou ambos.
Há 7-Elevens por todo o país.

Na saída eu comprei uma lata de cerveja por 1,39.
Eu estava consciente da injustiça social.

da maneira mais vaga possível.

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Franz Wright

The moment, at dusk, after
the mirror shatters,
there is another moment
when
it assembles
the falling darkness
into a puzzle of the falling darkness,

and then it falls.
Franz Wright

No instante, no crepúsculo, depois
que o espelho se despedaça,
vem um outro instante
quando
ele junta
a escuridão que cai
num quebra-cabeças de escuridões que caem,

e então ele cai.

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Lux Australis

Early evening honey and whiskey, that sweetness,
bees in the ever-blossoming tresses
of your hair, darling, the touch of a hand
like water in a parched man’s cup,

the way memory chimes its silver-stringed guitar
like moonlight on a spiderweb,
milkweed stalks against rusted-out pickup trucks,
their wandering seed our only constellations,

bells in the velvet darkness before dawn,
that mystery, that consolation,
worn-down paths we walk fortified by trust in simplicity
and cans of beer in wind off the soon-to-be-planted fields.

O let us reseed the garden and eat vegetable soup
and never go to town, not even for bread.
Let us inhabit this moment forever and ever.
Live with me always in the scrap heap of my heart.
Lux Australis

Começo de noite mel e uísque, aquela doçura,
abelhas nas tranças sempre floridas
do seu cabelo, querida, o toque de uma mão
como água no copo de um homem com sede,

o jeito que a memória dedilha o violão de cordas de aço
como o luar numa teia de aranha,
flores do mato escalando camionetes enferrujadas,
suas sementes errantes nossa única constelação,

sinos no veludo escuro de antes do amanhecer,
aquela tristeza, aquele consolo,
caminhos arruinados por onde andamos protegidos pela fé na simplicidade
e latas de cerveja ao vento junto aos campos arados.

Oh, que possamos replantar o jardim e comer sopas vegetais
e jamais tenhamos que ir à cidade, nem mesmo pelo pão.
Que possamos viver este momento eternamente e para sempre.
Viva sempre comigo no ferro velho do meu coração.

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California Love Song

To ride the Ferris wheel on a winter night in Santa Monica,
playing nostalgic songs on a Marine harmonica,
thinking about the past, thinking about everything
Los Angeles has ever meant to me, is that too much to ask?

To kiss on the calliope and uproot world tyranny
and strum on a rhythm guitar Ron Wood would envy,
to long for the lost, to love what lasts, to sing
idolatrous praises to the stars, is that too much to ask?

Arm in arm to gallivant, to lark, to crow, to bask
in a wigwam of circus-colored atomic smog,
to quaff a plastic cup of nepenthean eggnog
over one more round of boardwalk Skee-Ball,
to trade my ocean for a waterfall,
to live with you or not at all, is that too much to ask?
Canção de amor da Califórnia

Poder andar na roda gigante numa noite de inverno em Santa Monica,
tocando canções antigas numa gaita Marine,
pensando no passado, pensando sobre tudo o que
Los Angeles sempre foi para mim, será que é pedir muito?

Poder beijar no calíope e extinguir a tirania do mundo
e dedilhar uma guitarra deixando Ron Wood com inveja,
sentir falta do que se foi, amar o que restou, cantar
canções idolatrando as estrelas, será que é pedir muito?

De braços dados para vagabundear, zoar, me gabar, curtir
sob a lona de um circo pintado de cogumelo atômico,
esvaziando um copo de plástico de coquetel de gemada
depois de mais uma rodada de skee-ball de rua,
e trocar meu oceano por uma cachoeira,
e viver com você ou não querer viver, será que é pedir muito?

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Capitalist Poem #57

Like a sailor practicing knots in the darkness,
like a warrior sharpening his blade in the lull of battle,
like a blind man searching out the figure of a sleeping lover

the mind surges and eddies
through the concourses of the terminal
with its way stations and concessions

of bottled water sandwiches,
dot.com billboards trumpeting instant riches,
another gourmet coffee at the cappuccino bar,

grande decaf half-skim latte,
seeking to delimit its appetites and hungers,
as even Money magazine wonders

how much is enough?
Like one returned home after years of hard travel
I call out in greeting my familiars —

Avarice, trusted and faithful retainer,
Extravagance, mi compañero,
Greed, my old friend, my bodyguard, my brother.
Poema Capitalista nº 57

Como um marinheiro praticando nós no escuro,
como um guerreiro afiando a espada na pausa da batalha,
como um cego tateando em busca da amante que dorme

a mente vagueia e gira
através dos pátios do terminal
com suas áreas de embarque e quiosques

que vendem sanduíches água engarrafada,
anúncios de empresas pontocom trombeteando milhões instantâneos
mais um café gourmet no bar de cappuccino,

grande decaf half-skim latte,
tentando delimitar seus apetites e fomes,
de um jeito que até mesmo a revista Money pergunta

quanto será o bastante?
Como alguém que volta ao lar depois de anos de viagens difíceis
eu vou atrás de saudar meus familiares —

Avareza, guardiã confiável e fiel,
Extravagância, mi compañero,
Ganância, meu velho amigo, meu guarda-costas, meu irmão.

>>>

My Sadness

Another year is coming to an end
but my old t-shirts will not be back —

the pea-green one from Trinity College,
gunked with streaks of lawn-mower grease,

the one with orange bat wings
from Diamond Cavern, Kentucky,

vanished
without a trace.

After a two-day storm I wander the beach
admiring the ocean’s lack of attachment.

I huddle beneath a seashell,
lonely as an exile.

My sadness is the sadness of water fountains.
My sadness is as ordinary as these gulls

importuning for Cheetos or scraps
of peanut butter sandwiches.

Feed them a single crust
and they will never leave you alone.
Minha tristeza

Mais um ano vai chegando ao fim
mas minhas velhas camisetas não voltam mais —

a verde-ervilha do Trinity College,
manchada de óleo de cortador de grama,

e aquela com asas de morcego cor de laranja
da Caverna Diamond, no Kentucky,

desaparecidas
sem deixar rastro.

Depois de dois dias de tempestades eu caminhei pela praia
admirando a falta de apego que tem o mar.

Me encolho dentro de uma concha,
solitário como um exilado.

Minha tristeza é a tristeza das fontes d’água.
Minha tristeza é banal como estas gaivotas

que importunam querendo Cheetos ou pedaços
de sanduíches de pasta de amendoim.

Dê a elas uma só casquinha
e elas nunca mais largarão do seu pé.

 

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