Ensaios e Resenhas

fevereiro 2013 / Ensaios e Resenhas / Caminhos que se cruzam

Texto publicado na edição #98

Caminhos que se cruzam

A primeira mulher, de Miguel Sanches Neto, é um romance cuja trama, recheada de acontecimentos surpreendentes, pode nos tornar um […]

> Por VILMA COSTA

A primeira mulher, de Miguel Sanches Neto, é um romance cuja trama, recheada de acontecimentos surpreendentes, pode nos tornar um tanto perplexos quanto aos caminhos de leitura a seguir. O autor em entrevista apresenta-o, entre outras coisas, como um romance quase policial. A trama instiga a leitura pela via do suspense através de elementos que vão se incorporando, pouco a pouco, no tom enigmático que adquire. Um menino desaparecido há anos, uma mãe atormentada e candidata em evidência sofrendo ameaças, chantagens, seguranças, eminências pardas, armas, riscos de morte, imprensa sensacionalista e manipuladora, atentados, negociações e falcatruas são componentes da ficção policial, sem dúvida. Entretanto, esse aspecto limita-se a um quase na medida em que muitas outras questões submergem dessa trama, secundarizando o papel de detetive amador do protagonista, lançando-o numa outra direção. É amador sim, não só na função de detetive que lhe é atribuída pela ex-namorada, mas no sentido etimológico da palavra. Ama as mulheres, a literatura, a vida e nelas transita, perde-se, busca-se em labirinto. O seu caráter de amador o distancia bastante do tradicional detetive movido, predominantemente, pela racionalidade científica, colecionador de pistas, observador de uma estrutura lógica, na qual os elementos da trama se encadeiam e levam à solução definitiva de um enigma, como: onde se encontra o corpo? Qual a causa do crime? Quem é o assassino?

É quase policial como muitas narrativas contemporâneas, tem muitos elementos de suspense, entretanto, esses são meios de garantir a narratividade de um amador em sua conturbada afetividade. O suspense é um dos fios desse tecido textual, mas não tem um fim em si mesmo, não pretende o grande desfecho de soluções acabadas. Neste sentido, é quase. Não porque fique devendo, mas porque é mais que isso, outros fios sustentam a trama e ganham importância, tanto na constituição da temática amorosa, quanto na discussão da linguagem que experimenta dizer o indizível. Este aspecto talvez seja o de maior relevância, pois parece se constituir enquanto sintetizador dos diversos eixos temáticos. O texto literário pensando a literatura e sua linguagem, portanto, com enfoque metaficcional, possibilita uma discussão do processo de produção, sua fisionomia de ensaio, tentativa, experimento, arte, artifício. Ao mesmo tempo em que a estrutura narrativa segue um fluxo contínuo, dentro de uma via realista factual, sofre fragmentações tanto na sua linearidade temporal, que discutiremos mais adiante, quanto na sua caracterização enquanto gênero literário.

Oito fragmentos numerados de um poema cortam o texto em prosa e com esta dialoga. Tudo indica tratar-se de uma manifestação lírica do professor de literatura que considera o poema como “uma versão autoral do Cântico dos cânticos bíblico”, batizada por ele de Jardim em chamas. Avalia, ainda: “era uma reflexo de minha vida erótica variada e sem sossego”.

Questionamento
O texto, montado a partir de uma narrativa sobreposta à lírica ou entrelaçada a ela, oferece uma discussão do fazer literário para além de uma tipologia de gênero. Prosa e verso convivem no mesmo espaço de papel e tinta da ficcionalidade. Se ainda estão separados por séculos de definições e especificidade, hoje, essas fronteiras são porosas e permitem o trânsito de uma forma a outra, uma ligação mais estreita entre os vários tipos de textos. Jardim em chamas é uma versão profana e contemporânea do cântico de Salomão adaptada para o romance, no sentido de enfatizar a temática amorosa em suas variedades e desassossegos e, ao mesmo tempo, questionar os gêneros fixos e a literatura em vários aspectos. Para garantir a ficcionalidade do texto, outros recursos e tipos de textos vêm corroborar para a construção da narratividade, poesia, crônica, crítica e tudo mais que for preciso. Miguel Sanches Neto realiza, de certa forma, nesse romance e em livros anteriores, suas inquietações de intelectual múltiplo da contemporaneidade. Poeta, crítico, cronista, professor, romancista, homem do seu tempo enfim, com seus vazios e suas certezas provisórias. “Mas prosa e poesia se interpenetram nos meus textos. O último capítulo do romance Chove sobre minha infância foi escrito como um poema. E os poemas de O olvidado vivoforam escritos como prosa aforística”, afirma.

Carlos Eduardo, em A primeira mulher, se diz fascinado pelo “amor de Salomão e Sulamita”. A partir da estrutura do poema que separa a voz de cada amante por estrofes, ou grupos de estrofes, ele avalia que o fato de o “casal está a um tempo junto e separado, sugere a mobilidade do amor, que não se realiza como união plena entre os amados, mas como um encontro que se revela desencontro, uma satisfação insatisfatória, um diálogo que súbito vira monólogo”. A incompletude do ser que, segundo George Bataille, impulsiona o homem para o encontro erótico é, em si, a busca obsessiva por uma plenitude impossível, mas sempre perseguida. Não estaria a busca pela expressão através da literatura e das artes em geral ligada a esse movimento de mobilidade do amor e dos sentidos?

No romance essa relação é sugerida através de um enredo relativamente simples, embora a gama de fios condutores e eixos temáticos torne a trama complexa. O professor de literatura é convocado por uma ex-namorada de juventude a lhe prestar assessoria no momento crítico em que se encontra. Solange, a primeira mulher candidata a prefeita da cidade, ameaçada por chantagens, sem ter em quem confiar, solicita a Carlos Eduardo (Edu) proteção e serviço de investigador da secreta rede que contra ela conspira. Um filho desaparecido em menino, fato que justifica sua luta e sua ascensão, retorna como ameaça de chantagem. O fato, em si, não ser muito convincente não tem relevância. O que importa é a contextualização do mundo da política institucional e suas redes de corrupção e interesses, mundo este em que o protagonista se vê mergulhado e cuja vivência anterior nos livros e na literatura lhe é inútil.

O professor acaba envolvido pela mulher que no passado havia escolhido casar-se com outro, mais bem sucedido socialmente. Paralelo a isso se encontra Lírian, aluna e namorada, muito jovem que parecia ser como tantas outras. À margem de sua vida afetiva conturbada estava dona Ilza, a mãe amorosa e abnegada em sua vida simples, moldada pelas cultura e estética televisivas, bem distante dos interesses literários do filho.

Chave de leitura
O romance vem organizado em três capítulos, intitulados, respectivamente, Segunda, Terceira e Primeira, esta desordem numérica sugere uma chave de leitura, já que não deve estar aí à toa. Para bom entendedor o erro é pista, a pista é falsa, os caminhos se bifurcam a se perderem de vista. Cada uma dessas partes são subdivididas por subcapítulos, estes mantêm uma seqüência relativamente linear, no que se refere ao tempo, com predominância do presente narrativo. As reminiscências e as conexões com o passado, entretanto, volta e meia, sobressaem como elementos integrantes do discurso. Voltam como lembranças de um tempo fantasma que povoa o presente e não o deixam seguir seu curso natural. Solange evoca vinte anos de juventude deixados para trás mas dos quais Edu não consegue se livrar. Preso em suas redes, reproduzindo como um D. Juan, a insaciável e, portanto, compulsiva sedução de jovens alunas. A lembrança dessa juventude escapa com os anos por entre os dedos. Lembranças, afinal, são como outra face da memória: o esquecimento. Às vezes, chegam-lhe diálogos inteiros. Outras, só visualiza o vazio. Da senhora Ribas Fonseca e seus saltos altos… “não tinha memória, apenas notícias”. Isso porque “a memória fazia suas escolhas”. Walter Benjamim, em fragmentos de Rua de mão única, comenta: “Nunca podemos recuperar totalmente o que foi esquecido… O choque do resgate do passado seria tão destrutivo que, no exato momento, forçosamente deixaríamos de compreender nossa saudade”.

Apesar disso tudo, a perda de sentido dessa saudade só se processa com o choque do resgate destrutivo desse passado, transcendendo o esquecido, resgatando o recalcado, mesmo quando isso é impossível totalmente. É entre esse passado revisitado no presente vazio de sentido que transita o personagem. O amor retomado na primeira mulher já se efetua num corpo maduro e numa vida tão impenetrável e não partilhável quanto à de juventude. Esgotada a possibilidade de reviver os dias mortos no corpo dessa mulher, o corpo de Lírian perde o sentido de réplica da juventude descartável e ganha atributo próprio de mulher, como chance do personagem “ficar no presente não como um foragido mas, sim, como contemporâneo daquele corpo”. Além de tudo isso, o narrador do romance não nos deixa esquecer que “a primeira mulher de um homem é sempre a mãe… o jardim ancestral… a terra… satisfação arcaica”. É, portanto, entre Solange, Lírian e dona Ilza que Carlos Eduardo busca um lugar para seu desassossego e sua falta de pertencimento.

Fora do centro
O país, a cidade, as letras, os corpos amantes e materno são territórios perseguidos, mas jamais plenamente habitados. “Raramente eu me sentia confortável no mundo…” Como se Carlos Eduardo, a exemplo do nosso outro Carlos, tivesse recebido a maldição do anjo torto. “Vai, Carlos! ser gauche na vida.” Curiosamente, Miguel Sanches discute isso em entrevista, partindo da sua vida pessoal para sua identidade paranaense. Se esta existe, afirma, “…deve estar na falta de pertencimento”. Avalia que “o paranaense é um homem que não pertence plenamente a um espaço… está sempre fora do centro, saudoso de um outro lugar …” Talvez o poeta de um modo mais amplo desde que foi expulso da República de Platão também já passasse por isso. O modernista brasileiro evocava seu desejo: “Vou embora pra Pasárgada”. O estrangeiro,de Albert Camus, citado no romance, problematiza essa questão. São tantos os exemplos que encontramos na vida e na literatura que somos obrigados a pensar que a questão da perda da territorialidade, do vazio existencial de pertencimento é hoje um constituinte do homem contemporâneo. Elemento que vem se radicalizando e tomando novas feições a cada dia, em cada obra artística ou literária, em cada indivíduo em particular, no momento em que os grandes projetos e as grandes ilusões totalizantes estão em xeque. É esse homem e o tempo em que ele vive, ou sobrevive, com todos seus delírios, sonhos, paraísos artificiais e infernos naturais que estão em discussão aqui.

Segundo o narrador, os espaços de poder estão corrompidos, inclusive a literatura, enquanto espaço institucionalizado. “A cidade está vazia…” como o homem que a habita, mas prenhe de desejo de uma completude impossível. Não se trata aqui de um moderno romance de formação. Já não é mais possível o tempo linear do progresso, da ascensão linear de uma personalidade em ascensão que aprende a cada passo a liberdade e a totalidade de uma identidade fixa. O tempo é circular, do caos ao seio da terra, do seio da mãe, à perdição no mundo, numa falta de pertencimento radicalizada e sem remédio.

A primeira mulher mistura tudo isso, amor, literatura, vida, morte, memória, suspense, prosa, poesia, crítica literária, crítica político-social, ética e até didática. Os amores do protagonista e seus ensaios poéticos e literários possuem esse caráter erótico no sentido mais amplo, digamos mitológico. O fazer literário, neste sentido, vai além de uma forma, evoca conteúdos, simbologias e transitividade dos recursos expressivos, impossíveis de serem pensados ou ensaiados sem considerar essa mistura como uma poética, mais ampla do que simplesmente a disposição de versos. Relembrando Octavio Paz, em Dupla chama: amor e erotismo: “A relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda é uma erótica verbal… A imaginação é o agente que move o ato erótico e o poético”. A poética é corporal não apenas pela tematização do corpo amado enquanto objeto de desejo e de encontro, enquanto fugaz território de pertencimento. O corpo do texto transfigura-se nesse objeto, incorpora e acolhe todas as formas como no enlace amoroso, pelo menos é o que pretende a erótica verbal que ganha corpo, movida pela imaginação criadora do bom poeta romancista amador de sua arte.

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Miguel Sanches Neto

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Nasceu em Bela Vista do Paraíso (norte do Paraná), em 1965. É autor, entre outros, de Chove sobre minha infância, Um amor anarquista e Venho de um país obscuro. É colunista do jornal Gazeta do Povo e mora em Ponta Grossa (PR).

Miguel Sanches Neto_livro

Miguel Sanches Neto
Record
335 págs.