Ensaios e Resenhas

abril 2020 / Ensaios e Resenhas / Caixa-preta literária

Texto publicado na edição #240

Caixa-preta literária

Em livro de entrevistas, Herta Müller revê sua trajetória e a perseguição que sofreu do governo romeno por conta de sua obra

> Por ANDRÉ ARGOLO

Ilustração: Herta Müller por Fabio Abreu

Ilustração: Herta Müller por Fabio Abreu

Entrevista. Alguém faz perguntas e alguém responde. A pessoa que pergunta: O que a orienta? O que a move? O que dela própria está impregnado no que interroga? E quem responde: Como formula o que entende por lembrança? Mente, descaradamente, de parecer mais bonitinho, interessante? Deságua verdades como se diante de um analista, como se fôssemos pura sinceridade com psicólogos? O que é a entrevista? A que gênero pertence? Jornalismo ou literatura, quando o entrevistado é um escritor de ficção?

Veja bem: nos estudos de cartas aprende-se que missivas são fontes muito fartas, mas não sempre ou exatamente de fatos e confissões, ou seja, que não são “a realidade” simplesmente. São fartas, sim, de pistas, de entrelinhas, de indicações, de possibilidades a serem seriamente consideradas. É tanto! E é isso que me leva a encrencar com a entrevista como fonte de confissões e verdades, como costuma ser tratada (tanto a entrevista quanto a carta e o diário). Qual a chave de leitura dessa coisa, então? Devo ler sob o código da ficção, em que embarco para fruir e fluir pelo texto? Ou leio com a desconfiança dos bons jornalistas, mantendo certa distância para não comprar uma versão ou visão pelo todo? A leitura crítica talvez resolva a questão, porque é a possibilidade de conscientemente fazer as duas coisas ao mesmo tempo, perpassando as respostas com crença e dúvida de mãos dadas, abraçando as possibilidades dos depoimentos (mãos dadas, abraços… Vê como a coisa tem muito de carinho?). Nada pede ao leitor um carimbo ao final da leitura: acredito/não acredito. A questão, a chave, não seria acreditar, mas acumular, assimilar, refletir… guardar desconfianças de que aquilo realmente foi daquele jeito, de que aquilo não foi bem daquele jeito, de que aquilo foi daquele jeito, para aquele entrevistado, naquele instante da vida dele, nas condições em que foi realizada tal entrevista. Uia! Estou afirmando, então, que é bem provável que uma mesma pessoa possa responder de maneiras diferentes às mesmas perguntas, a depender de quando, onde, como, a quem, se frio ou calor, se na praia, na cidade ou na montanha, entre outras variáveis entre dor e humor.

Bem, esse texto é sobre uma longa entrevista publicada em livro. Estou virando especialista nisso? A última resenha que escrevi foi de livro do mesmo gênero, Tzvetan Todorov o entrevistado (Deveres e deleites, 2019). Agora, é Herta Müller. Coincidência: ambos nascidos no chamado Leste Europeu; ele na Bulgária, ela na Romênia, países que eram parte do bloco soviético, cobertos pela Cortina de Ferro. A entrevista é a primeira coincidência, as experiências deles com regimes totalitários é a outra. O horror ao totalitarismo os une em suas acentuadas diferenças. Dessas espécies de “escrita de si” que são as entrevistas, especialmente a da escritora, resultou um forte indício de que muitos detalhes do que conta estão emaranhados à criação literária dela mais que a criação “racional” de Todorov, num processo que brota da própria vivência de Herta Müller, enquanto vive ou recorda o que viveu. E também que o horror da ditadura cavou-lhe um fundo buraco gelado, íntimo e coletivo, compartilhado com milhões de outras pessoas, cada uma com a própria impressão e expressão disso, e que tão verdadeiramente nos faz acessar justo porque consegue fabular, justo porque sabe torcer as palavras e fazê-las pelo avesso serem precisas sobre a dor de sobreviver a um regime ditatorial. Sinto-me atado a esse horror, sem tê-lo vivido tão acentuadamente (ainda).

Herta Müller nasceu em 1953, numa localidade rural da Romênia, onde não se falava romeno. Pelo o que ela conta, é filha de pessoas embrutecidas pelo que de medieval foi o século 20 na Europa. Da infância camponesa de surras diárias e apenas dois livros na casa — uma enciclopédia e um livro de doenças e curas —, Herta Müller tornou-se uma das mais importantes escritoras em língua alemã, dona de um Nobel de Literatura (2009). Ela é, assim, mais um exemplo agudo no meio literário de origem na pobreza que se acultura na adversidade e se estabelece na elite intelectual pelo caminho da escrita, impondo-se em vez de dobrada.

Boa parte de Minha pátria era um caroço de maçã (2019) trata da infância e da juventude da escritora. A entrevistadora, Angelika Klammer, conduz a conversa, na maioria das vezes, citando trechos de livros publicados por Herta Müller, entre romances e ensaios. Então a autora responde em tom ensaístico e poético, costurando memória e reflexão. Ela se mostra desacostumada a falar de um jeito comum, a usar lugares comuns. Além do que relembra, a forma é o que adensa a leitura ao mesmo tempo em que faz fluir de maneira mais convidativa.

Antes de mais elogios, um porém: faz falta na edição um acompanhamento com notas, oferecendo contextos, circunstâncias, informações pertinentes de natureza interdisciplinar, ou seja, históricas, sociológicas, geográficas, etc. — tempo histórico e geografia não são meros detalhes. Há muitas razões possíveis para que não haja tal acompanhamento: desde contratuais a financeiras. Dá trabalho e consome tempo construir esse paratexto, e não é qualquer pessoa que pode fazê-lo, portanto tem um custo, eleva o orçamento e, sabemos, livros são produtos. Mas uma coisa é buscar compreender a existência desses aspectos da produção editorial, outra coisa é apontar criticamente o que é desejável no livro. E o acompanhamento se faz desejável. Por conta das dúvidas em torno do gênero entrevista que elenquei no começo deste texto, também faz falta saber em que condições foi feita a entrevista. Quanto tempo levou, onde foi realizada, quando mais exatamente. Faz falta entender melhor de que período histórico ela trata em algumas passagens. Na Era da Desinformação em que vivemos, o empenho pela precisão torna-se um posicionamento político até. O que há de informação adicional está nas orelhas e nas páginas finais, um guia de obras usadas pela entrevistadora ao longo da conversa. Aliás, que recurso maravilhoso esse, que serve ao editorial, aos estudiosos, aos leitores atentos, aos fãs, ao marketing: esse livro é um guia-convite às outras obras publicadas de Herta Müller. Penso aqui: o gênero poderia bem ser adotado pelas editoras para valorizar seus principais autores no Brasil. Grandes entrevistas assim com Marina Colasanti, com Ignácio de Loyola Brandão, com Antonio Torres, com João Carrascoza, com Marília Garcia (sim, os mais jovens também!), com Chico Buarque… A lista é imensa (sou um gênio editorial ainda não descoberto? Ou somente uma besta editorial descarada? O tempo dirá).

Totalitarismo
Nada do que foi escrito antes é tão importante quanto o que será descrito a partir deste ponto. Minha pátria era um caroço de maçã é um manifesto contra o totalitarismo. Da infância sofrida à juventude, o que Herta Müller conta é uma dor intensa dos efeitos das guerras, dos desmandos ditatoriais que se desdobram em repressão ideológica, censura arbitrária, abuso do poder, esmagamento psicológico, supressão de liberdades fundamentais, por aí vai a lista de desumanidades (considerando humano o que tem a ver com solidariedade, cuidado com a vida).

O avô de Herta foi à Primeira Guerra. O pai dela foi soldado do exército nazista na Segunda Guerra. A mãe, deportada para trabalhos forçados num campo da Rússia por cinco anos — cinco anos que deformaram o restante da vida dela. Comunicavam-se em um dialeto alemão. A Romênia era governada por ditaduras: antes de Hitler, fascista; depois, comunista, sob o poder da União Soviética, como se nunca tivesse sido fascista e apoiado Hitler. Cínico assim. Direita, esquerda: a crueldade do totalitarismo não tem lados. O drama principal dos relatos da escritora se dá em torno da ação da Securitate, o serviço secreto romeno, braço armado do desmando e da kafkiana burocracia ditatorial.

Na ditadura, cada um que tem algum poder sobre outras vidas tende a abusar. A sociedade torna-se, no limite, um encadeamento de submissões extremas. Herta Müller teve emprego numa fábrica. Convidada a cooperar como dedo-duro da Securitate, recusou, conforme conta na entrevista. E teve início seu inferno. Um dia chega ao trabalho e descobre que foi transferida para um serviço que não sabia realizar. Outro dia, vê-se expulsa da sala. Não a demitem, é uma pressão exercida com sarcasmo. Passa a trabalhar na escada, pois continua tendo de cumprir a jornada e entregar resultados, senão perde a “razão” e pode ser demitida por “justa causa”. Cinismo, sarcasmo… se na convivência de acordo com leis e no regime democrático eles estão presentes, no regime totalitário é o liberou geral da maldade.

É curioso notar que pessoas com bem menos feridas podem dramatizar muito mais sua vivência do que faz Herta Müller. Seus relatos não carregam no trauma, eles são o trauma reconstruído em palavras. E aí, o vivenciamos. E dói.

Quando ela descreve os campos de milho, no verão ardente ou no frio de neve e paralisia no pequeno vilarejo onde cresceu, a solidão é concreta. Conversava com as plantas e comia as plantas, querendo transformar-se em uma. Os personagens do lugar são como os da Aracataca que Gabriel García Márquez trans-habitou a sua Macondo em Cem anos de solidão (1967). Será que é essa palavra, aliás, que constrói em minhas pobres referências a ponte feita aqui? Vejamos: “Frequentemente estava sozinha no campo e observar as plantas ajudou. […] Experimentei todas as plantas, todo dia comia de tudo. Tudo tinha um gosto forte, azedo, picante ou amargo. Pelo visto nunca me deparei com algo venenoso”, relata na página 7. Ninguém notava o que a menina fazia. No trabalho da fábrica, o isolamento foi a consequência de não aceitar ser uma informante. “A solidão não é um efeito colateral, mas a intenção do serviço secreto. Quando alguém é perseguido, medo e solidão pertencem um ao outro. […] Comecei a escrever de tanta solidão, foi a segunda grande solidão.” Algumas figuras dessas lembranças da autora também nos levam a uma certa Macondo romena: o homem grande que vendeu seu esqueleto à prefeitura e vivia desse dinheiro, a mãe obcecada por limpeza, o avô que relia a enciclopédia inteira a cada inverno, os hábitos supersticiosos de cobrir o espelho quando alguém morria (para a alma não ir embora), entre outros, que existem lá no vilarejo da Romênia e em qualquer cidade aqui no Brasil.

Se a literatura está em todo lugar, em toda história, por que não está por todo lugar, em cada pessoa? Em Viver para contar (2002), García Márquez revela de Aracataca, na Colômbia, lembranças que se conectam imediatamente às transformações que fez para Cem anos de solidão e outras obras. Como a caixa preta de um avião caído revela desespero, fatos e números, mas nem sempre o motivo da queda, as memórias, nele ou Herta Müller, são arquivos da criação ao mesmo tempo em que são recriação — se fosse mais simples seria simplório e não literatura (ou vida).

Na leitura dessa entrevista com Herta, ficamos sabendo de como ela lembra dos detalhes das perseguições que sofreu, dos bastidores de seus livros, como passou a ser publicada na Alemanha e construir sua trajetória como escritora, da dificuldade em sair do país, de ficar no país, de estar fora do país de origem, e de muitos pontos de vista mais dessa vida intensa e emblemática do século passado, esse século assombroso cujos piores traços não pertencem somente ao nosso passado. Não ainda.

Herta Müller_Minha pátria era um caroço de maçã_240

Minha pátria era um caroço de maçã
Herta Müller
Trad.: Silvia Bittencourt
Biblioteca Azul
216 págs.

A AUTORA
Herta Müller
Nasceu em Nitzkdorf, no Banato, região de minoria alemã na Romênia, em 1953. Poeta e romancista, estudou literatura romena e alemã. Depressões, seu primeiro livro, de 1982, e os seguintes foram censurados pelo regime do ditador comunista Nicolae Ceauşescu. Em 1987, emigrou com seu marido para a Alemanha, onde passou a lecionar em universidades. Por sua carreira literária, com mais de 20 obras publicadas, recebeu dezenas de premiações, entre elas o Nobel de Literatura de 2009.

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