Ensaios e Resenhas

outubro 2017 / Ensaios e Resenhas / Cadernos do tempo

Texto publicado na edição #210

Cadernos do tempo

Na obra de João Anzanello Carrascoza, o olhar para o sublime está no mínimo e não no grandioso

> Por CLAUDIA NINA

João Anzanello Carrascoza, autor de Trilogia do adeus.

João Anzanello Carrascoza, autor de Trilogia do adeus.

O que são os diários senão uma conversa íntima com o tempo? Aquela caixa que reverbera para dentro, inaudita, guardadora de eternidades. Um diário, teoricamente, é um texto encalacrado: escreve-se para ninguém a não ser o próprio dono da escrita. Um caderno é algo bem mais amplo — tem-se ali um diário compartilhado, pois está aberto aos olhos de qualquer um, já que não traz a tarja secreta do que, supostamente, é confissão.

João Anzanello Carrascoza é um dos autores que melhor falam sobre o tempo em seus textos-cadernos dilacerantes de tão lindos. Trilogia do adeus, composta por Caderno de um ausente, A pele da terra e Menina escrevendo com pai, está entre os trabalhos que alargam a textura dos diários para falarem ao ouvido de interlocutores específicos, mas que, no final, somos, claro, todos nós, entregues e arrebatados por um texto despedaçante.

Em Caderno de um ausente, o narrador escreve no presente para a filha no futuro. Ela é recém-nascida. Ele, aos 50 e poucos anos, enumera uma série de coisas a serem compreendidas por ela mais para frente na caminhada. A distância entre os tempos das existências é extensa, a menina já nasce com a marca da ausência do pai.

Bia, o tempo, que, pacientemente, te trouxe aqui, começou a contagem regressiva, o tempo é este alicate, o tempo puxa o fio da vida, estica-o, corta, emenda, torce (…).

Quando ela abrir a gaveta-caderno do tempo, irá encontrar pensamentos que são uma espécie de inventário dos bens perdidos, lições que ficaram suspensas na impossibilidade de serem compreendidas olho no olho: aceitar as vicissitudes como quem aceita a curvatura dos planaltos, descobrir que a jornada dói mesmo nas estações floridas e que os desejos se rasgam como papelão:  “colher a miudeza de cada instante, como se colhe o arroz nos campos, cozinhá-la em fogo brando, e, depois, fazer com ela um banquete”.

No presente em que se escreve, o presente-relâmpago, ambos estão juntos para dividir o período das levezas, isto é, quando ela ainda é um bebê e não descobriu nada do que, no futuro, irá ler nos cadernos. É uma época brevíssima e simples em que ambos estão vivos e eternos um diante do outro. A dor dilacerante — o acorde que perpassa todo o texto como um varal estendido — é justamente a consciência do tempo nunca capturado.

(…) quero continuar, Bia, a contar esta história pra ti; vais demorar anos pra entender o que eu te digo, terás de passar por milhares de dias e tuas células terão de se reproduzir incontáveis vezes, mas, já que estás aqui, no meu colo, fiquemos em silêncio, embalados pela paz deste momento, alheios à (invisível, mas não despercebida) brutalidade do fim.

Água corrente
Na outra ponta do tempo está Menina escrevendo com o pai. Uns cadernos chegam às mãos da filha após a morte do pai — o texto faz a ressurreição do mesmo tempo breve que dilacera sempre. A leitura que se segue é também escrita, pois ela comenta o que lê, enquanto escreve sobre a imensidão de uma ausência. Texto sobre texto; ausência sobre ausência, incluindo a da mãe da menina, morta quando ela nasceu, outro dilaceramento, palimpsestos da dor — “não importa que fim eu vá dar ao meu novelo, quem me desfiar chegará até ela”.

A menina passa pela infância, adolescência e fase adulta, tecendo-reconstruindo a figura do pai, linha por linha, a partir deste novelo que se desenrola com a leitura. O tempo range as lembranças:

O tempo, igual uma dessas portas, de vaivém, sem fechadura, sem chave, o tempo velho, as dobradiças rangendo, a gente entra e sai fácil do passado para o presente, e vice-versa, como agora (…)

Há momentos de uma intensidade imensa, condensado em minúsculos grãos, mini-cenas do cotidiano, como só Carrascoza sabe criar: “Fecho os olhos com força e peço, baixinho, ao destino, que se atrase, nós juntos um pouco mais desse lado. Fecho os olhos com força e sinto a água quente vazando pelo rosto abaixo”. O tempo deslizante nas mãos como água corrente, metáfora-referência na obra do autor, é o curso líquido e transparente de uma narrativa que igualmente desliza nas horas de um presente eternizado poeticamente. A dor, claro, é a veia pulsante:

(…) eu pensei que a juventude dela iria me dar, nesta segunda chance de abrir uma família, a paz e o recolhimento que todos desejam no inverno, mas, eis que, embora viver seja coisa grande, é também a força que lhe contraria, e não há como vencê-la, senão aceitando que a dor desenha em nossa pele, com esmero, um itinerário de pequenos cortes, ora arde um, ora sangra outro (…)

Peregrinação
Em A pele da terra, o caminho percorrido por um pai e um filho é a possibilidade do encontro depois de uma longa ausência. A proximidade física faz com que, entre as poucas palavras alternadas por um grande silêncio, povoado de gestos e passos, ambos tentem se conhecer apesar das diferenças e desacertos.

A peregrinação transforma a pouca intimidade em um ritual de desvendamento: as lembranças do pai se misturam aos momentos do presente e, de repente, um vai ressurgindo diante do outro. A metáfora do caminho como terra prometida:

E, então, conheci uma parte sua que ainda não palmilhara. E estava tão grato que comecei a assobiar. E, como queria também que você conhecesse um trecho de mim ao qual eu mesmo nunca ia — não porque não quisesse, mas porque a camada de tudo o que vivemos é inevitavelmente soterrada pelo agora (…)

Como tudo é depressa, há uma urgência em tentar capturar o instante. É neste presente cheio de paisagens e de estradas palmilhadas, que o pai observa cada centímetro de vida ao redor para que nada passe sem que a emoção e a memória registrem: “(…) como se na folha do trigo, pendulando ao vento, não houvesse uma história de grãos castigados pelo sol e pela chuva (…)”.

O cenário das “miudezas”, cheios de miúdas alegrias, é, aliás, uma referência na obra de Carrascoza, autor que permeia a obsessão pelo tempo, brutal e poético, em praticamente tudo o que escreve, a exemplo de Aquela água toda e Aos 7 e aos 40. O olhar para o sublime está nos mínimos e não no grandioso; nada é somente aquilo que existe; a observação transfigura os disfarces da banalidade. As paisagens escondem a memória do sol e da chuva, enquanto as pessoas são trechos, caminhos, países. Há tanto o que se descobrir de cada um que só mesmo a literatura dá conta — ou não.

A linha finíssima que une as três obras é delicada. Os livros estão ligados entre si como as engrenagens que justapõem os afetos em um tempo histórico, enlaçados uns aos outros em um grau quase insuportável de amor, mas também estão dispersos; soltos em seus mundos girantes, pois nunca se sabe quando partirão de nós.

Palavras “rascantes” são o marca-passo deste para sempre adiado momento: “(…) não há como esconder a morte ante a estreia de uma vida”.

 

Joao_Anzanello_Carrascoza_Trilogia_adeus_210

 

Trilogia do adeus
João Anzanello Carrascoza
Alfaguara
400 págs.

 

 

LEIA TAMBÉM

Joao_Anzanello_Carrascoza_Volume_silencio_210

O volume do silêncioJoão Anzanello Carrascoza
Sesi–SP
216 págs.

 

O AUTOR
João Anzanello Carrascoza
Nasceu em Cravinhos (SP). É autor de diversos livros, como Aquela água toda, Aos 7 e aos 40, Diário das coincidências, entre outros. Recebeu os prêmios Jabuti, APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Fundação Biblioteca Nacional, e os internacionais Guimarães Rosa (Radio France) e White Reavens (International Youth Library Munich).

 

 

 

Print Friendly