Ruído branco

novembro 2011 / Ruído branco / Cabeça feita

Texto publicado na edição #128

Cabeça feita

A história da ciência e da filosofia é a história da busca da essência do mundo: o Ser, o Uno, […]

> Por LUIZ BRAS

A história da ciência e da filosofia é a história da busca da essência do mundo: o Ser, o Uno, a Verdade, o Eterno, Deus. Mas a existência de uma essência do mundo é uma ficção, porque tudo é transitório. Não há unidade, permanência ou verdade que não seja provisória. O universo é arte, é vontade dialética. Ação e reação: nos aproximamos dele e ele se aproxima de nós. Manipulamos sua pele e ele manipula a nossa.

Quando Borges compara o universo a uma vasta biblioteca, sua intenção é denunciar a força fisicamente transformadora dos livros. Inventamos a literatura. E a literatura, reagindo com igual intensidade, na mesma direção e em sentido contrário, está nos reinventando. Quanto mais lemos mais nos transformamos no que lemos. Encaramos o abismo e ele nos encara de volta. Combatemos os monstros e os anjos, e vagarosamente vamos nos transformando no que combatemos.

Livros. Ficção. Poesia. Com o tempo começamos a ver o mundo através da literatura. O hábito vira um vício, o vício vira a mais concreta realidade. Começamos a ver o mundo como literatura. Alguém pede um café ou abre o jornal ou espirra abafado e tudo isso já aconteceu antes, talvez em A paixão segundo GH ou em Grande sertão: veredas ou em Claro enigma. Um velho é atropelado ou ganha na loteria ou abraça o filho e também isso já ocorreu antes, talvez em Bandeira ou em Lygia ou em Graciliano.

Abrimos uma coletânea de contos ou de poemas e estão todos aí, no primeiro parágrafo ou na primeira estrofe, os nossos pensamentos mais recentes. Pensamos o livro enquanto o livro nos pensa, com tanta intensidade, que nossos cinco sentidos passam a sentir a substância da vida em blocos contínuos de situações literárias.

Então começamos a correr. Apagamos a luz da sala, trancamos a porta, entramos no elevador, damos a partida no carro e começamos a correr. É preciso manter a rotina sempre em movimento: trabalhar, pagar as contas, amar, dormir, levar os filhos à escola, alimentar os peixes do aquário. Até no supermercado dá pra sentir a página sendo virada, os capítulos ou os poemas passando em câmera lenta. Não ouvimos a voz do narrador onisciente ou do sujeito lírico, mas sabemos que ele está por perto. Talvez em cima, talvez embaixo.

Mais provavelmente dentro. Bem dentro de nós, instalado no núcleo de nossa subjetividade. Um alter ego. Olhamos nossas mãos e vemos as mãos de Julien Sorel. Ou de Álvaro de Campos. Lemos o horóscopo na revista feminina e notamos os olhos de Molly Bloom dentro dos nossos olhos. Arrepio. Examinamos nossos sentimentos homicidas e percebemos as inquietações de Raskolnikov. Ou de Aquiles.

Não apenas livros, ficção, poesia. Com o tempo começamos a escutar também a trilha sonora que sempre coloriu nossa vida. Fomos tantas vezes a shows e recitais, ouvimos tantos CDs, que aos poucos as composições mais marcantes passaram a pontuar nossa história. Com o tempo começamos a ouvir o mundo através da música. O hábito vira um vício, o vício vira a mais concreta realidade. Começamos a ouvir o mundo como música. Alguém telefona de madrugada ou viaja para Berlim ou denuncia um abuso de autoridade e tudo isso também já aconteceu antes, talvez marcado por A sagração da primavera ou por The dark side of the moon ou por A love supreme.

Então a vida fica muito, muito mais verdadeira. Cada gesto banal ganha um significado maior. Somos protagonistas de uma superprodução do cinema em que não há figurantes, todos são protagonistas. O menor problema doméstico ou profissional transforma-se numa reviravolta épica. Ir para o trabalho, de manhã, é partir para a conquista do Círculo Polar Ártico. Ou de Tróia.

Se vamos ao estádio de futebol, não estamos simplesmente indo ao estádio de futebol, estamos indo ao Coliseu. Somos gladiadores. Somos todos Maximus Decimus Meridius, comandante dos exércitos do norte. E há o céu estrelado dentro de nós e a lei moral acima de nós. E o oceano profundo. E as avalanches e os terremotos. E fantasmas e replicantes. As nuvens são imensos artefatos de outro lugar, de outro tempo, deslizando acima da superfície da Terra como amebas num espelho líquido.

Existimos nos livros, nas canções, nos filmes. Quando experimentamos a tristeza ou a alegria, é um sentimento de milhões de anos. Somos mais antigos do que os dinossauros. Penetramos o teatro, a dança, as artes plásticas. Vivemos os videogames. A cidade não é mais sólida e convencional, é um labirinto imaginário. Um ciclone maravilhoso, sujo, fedorento, radiante, rodopiando, girando as pessoas, os carros e os prédios.

A metrópole é uma orgia atravessada várias vezes pela eletricidade e pelo entusiasmo. É Lovecraft, Breton e Cortázar. É um espaço não-euclidiano, sua complexa geometria dribla o senso comum. É Philip K. Dick. É William Gibson. Sonho e realidade se misturam. As leis da causalidade são transgredidas ou reprogramadas. Essa cidade que agora se expande dentro de nós é Lobo Antunes. É China Miéville. É Italo Calvino.

Estamos no metrô. Uma mulher vem em nossa direção e, antes que fale qualquer coisa, nós já a reconhecemos: Emma Bovary. Ao seu lado, Camila Lopez. Mais atrás, Diadorim. Não existem mais pessoas, existem apenas personagens. O tio excêntrico é Dom Quixote. O cunhado paranóico é Josef K. Nosso século é um amálgama de todos os séculos e nossa geografia é uma mistura de todas as geografias. Diante das muitas possibilidades, a pergunta mais importante é: quem sou eu?

Então você, eu, todos nós descobrimos petrificados que podemos ser quem a gente quiser várias vezes por dia. Não somos indivíduos, somos enredos. Não existem mais nomes próprios. Existem títulos. Fulano é Trono manchado de sangue e beltrano é Magical mystery tour e sicrano é Cem anos de solidão. Contamos uma história — ou uma anti-história — enquanto vamos moldando o estilo, a linguagem. Todos os idiomas nos pertencem. De manhã falamos com os pássaros. À noite, com os insetos.

Freqüentamos o colégio, depois a faculdade. Aprendemos uma profissão. Mas o ensino formal não ocupa toda a nossa mente. A razão — sempre tão séria — enfim cede algum espaço ao desejo. Experiências emocionais externas invadem e encharcam nossa esponja acadêmica. Com o tempo nossa visão de mundo vai ficando mais quente. Mais irracional. Vilões e heróis do cinema e dos quadrinhos começam a passear nos shoppings, nos parques. Asterix lê Admirável mundo novo. Batman e Akira ouvem os Improvisos de Schubert. Nossas cordas vibram em múltiplas dimensões, como as de MC Escher.

Somos simultaneamente música e metáfora.

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