Ensaios e Resenhas

julho 2018 / Ensaios e Resenhas / Buscar o abismo

Texto publicado na edição #219

Buscar o abismo

"Minotauro", de Benjamin Tammuz, constrói-se de pistas falsas, alusões ambíguas, múltiplos pontos de vista

> Por Leandro Reis

Benjamin Tammuz, autor de Minotauro.

Benjamin Tammuz, autor de Minotauro.

É conhecida a teoria de Nietzsche na qual uma existência livre deve receitar-se para si apenas pequenas doses de saúde. É necessário adoecer lentamente, livrar-se do organismo e viver a vida como uma obra de arte. Nietzsche chama de espírito livre esse corpo que existe a título de experiência.

Para Gilles Deleuze, a própria escrita consistiria nisto, em dar em sacrifício o próprio corpo e regressar do abismo com os olhos vermelhos e os tímpanos perfurados para transmitir esse conhecimento. É Odisseu no Hades, encontrando sua mãe e o amigo Aquiles, voltando para restituir seu reinado em Creta.

A proposição nietzschiana não descarta, porém, o paradoxo da prudência — ao contrário, sustenta-se nele. Para evitar a queda, a fraqueza deve virar potência. Uma outra vitalidade nasce do contato com aquilo que é pesado demais: resiste-se para reportar o abismo.

É no centro do labirinto que está o guardião desse Conhecimento —– o Minotauro. A primeira aplicação, e mais óbvia, do mito homônimo ao livro de Benjamin Tammuz é a teoria musical do personagem Alexander. Para penetrar no cerne da música é preciso romper os círculos do entendimento. A música é uma fala, mas uma fala particular: “os sinais atingem somente quem sabe decifrá-los”. Música não se trata de ideias: ela é um exercício inconsciente, diz Schopenhauer, porque é uma cópia da própria Vontade.

Alexander pondera: é possível sobreviver ao Minotauro? Sua teoria musical levaria a um saber excessivo para quem o experimenta:

Mas eu penso que esse centro não é somente um local secreto, mas também perigoso. É um universo tão bonito, tão puro, que, se a pessoa penetra nele, tem dois problemas. O primeiro: como suportará toda essa beleza e permanecerá vivo? E o segundo: como poderá sair dali e continuar a viver no mundo normal?

A teoria de Nietzsche sobre a tragédia grega recai sobre uma contraposição fundadora: Apolo, a aparência, a ordem, o mundo cognoscível; Dionísio, o excesso, a fuga da representação. Se a linguagem não passa de uma simulação, é entrave para o conhecimento. Aprisionado no círculo inerte da representação, debate-se Dionísio: nele se encontra a matéria-prima do espírito livre, sua doença que se transforma em remédio. Mas há um preço: quem o experimenta concebe sua própria desintegração antes de atingir a Grande Saúde.

A diferença é que em Minotauro o desejo não é agarrar-se ao fio que leva à saída do labirinto, mas permanecer no centro com o monstro, onde repousa a Verdade. No vocabulário de Alexander, a Verdade é o Amor: esse amor em Minotauro não cede ao sentimentalismo — embora não o rejeite totalmente —, e sim reveste-se de um elemento heroico. Ele é o próprio centro do abismo — todo Conhecimento pressupõe sacrifício.

Janela indiscreta
Guardada pelo Minotauro está outro sentido do mito evocado por Tammuz: Téa, a personagem que passa a ser espionada por Alexander. Aos 41 anos, ele já é um agente secreto de Israel, veterano da Segunda Guerra Mundial e dos combates ininterruptos contra os árabes. Mesmo assim, é pego de surpresa. Em uma viagem de ônibus, Alexander avista os cabelos, a nuca, o perfil e logo a boca e os olhos de Téa, e não tem alternativa senão romper o terceiro círculo. A visão da jovem Téa engendra tradições e mitos, batalhas de outros tempos, povos originais.

Ao se lembrar do sol da infância, cerrou os olhos e conjurou os espíritos que lhe trouxessem a jovem que provinha daqueles povos antigos, a jovem que destinara para si, descendente de Hera, de alvos braços; de Astarté, mãe das prostitutas dos santuários; de Xarazade, a mais suave das mulheres e dona de artifícios; de Sulamita, que despiu sua túnica e terá de vesti-la de novo, perfumada como mirra; de Leila, a sonâmbula, cujo espírito paira sobre as aguas do rio.

Téa — deusa em grego — é, de certa forma, Dionísio. Ela representa esse ponto perigoso, fonte de um conhecimento antinatural. E, agora, como regressar à vida normal depois de se deparar com uma beleza insuportável? Para não sucumbir, Alexander mantém distância. Concebe uma maneira de viver a vida de Téa sem tocá-la. Descobre seu passado, seu nome, endereço, hábitos, desejos. Sob as coordenadas do espião, o casal passa a se comunicar por meio de cartas, deixadas em pontos estratégicos para evitar que os dois se aproximem. Passam os anos.

Como a própria tragédia pressupõe a cegueira do herói prestes a cair, o labirinto que Alexander constrói aprisiona Téa. Venerada de longe, como se o interior de seu quarto vigiado por Alexander fosse um altar, a jovem tem a identidade esvaziada porque idealizada; sua santificação, embora sirva por um lado a esse amor antigo e tradicional, torna sua existência tão objetificada quanto a coisificação mais rasteira.

E Téa não é encarcerada apenas pela visão desse admirador-controlador secreto. Surge em sua vida o jovem G. R., que ocupará papel central na narrativa de Tammuz, sobretudo nos jogos de cena propostos pelo narrador a fim de deixar o leitor à deriva. G. R. emula um sentimentalismo tão estranho a nós, e também por isso não deixa de ter seu encanto. Mas isso não servirá a Téa, como ficamos sabendo logo de início.

Dissemos jogos de cena porque o próprio livro se constrói como um labirinto, repleto de pistas falsas, alusões ambíguas, múltiplos pontos de vista. A partir da estrutura do spy novel, Tammuz concebe uma espécie de confusão didática. Ademais, embora intrincado, o romance aposta no leitor para manter o texto conciso e evitar explicações ou verborragias. Importam mais as palavras omitidas.

Tradição de violência
A guerra em Minotauro é a chave para entender Alexander. Filho de imigrantes europeus, nasceu na Palestina nos anos 1920, isolado em uma casa na colina, na qual seus pais passaram a morar logo após a Primeira Guerra Mundial, fugindo da Europa que já se via à beira da ruína — a Terra arrasada de T. S. Eliot.

Até os seis anos, o pequeno Alexander foi apartado do convívio com “pessoas primitivas”, isto é, os judeus da colônia onde morava. Impõe-se o momento de ir à escola, misturar-se aos Outros. No primeiro dia, foi xingado e surrado pelos colegas por ser um apátrida, um não-judeu, mas levantou-se de punhos cerrados, permaneceu de pé, sem lágrimas, ferindo um dos agressores.

Em casa, tentou ser dissuadido a regressar no dia seguinte. Mas disse ao pai: “se eles voltarem, eu os matarei”. O alvo da vingança, Alexander não sabia, seria seu próprio corpo que se formava esculpido em rocha. Voltou às aulas, aceito à força pelos colegas como parte do grupo.

Ainda na infância, assistiu aos árabes atacarem sistematicamente as colônias judaicas. Aprendeu a odiá-los, generalizá-los, e assim despi-los de humanidade. Numa das incursões dos árabes, o pai de uma colega de classe foi assassinado. Alexander jurou vingar sua morte quando crescesse e tivesse meios para isso. A chance logo se apresentaria, e, na juventude, percebeu-se em cima de um beduíno, com as mãos em volta de seu pescoço morto. Já se formara soldado.

Na Segunda Guerra Mundial, tornou-se militar experiente apesar da pouca idade. Acompanhamos o processo de endurecimento inescapável de Alexander, desde a infância: o ódio não é ensinado, antes se apresenta como um modo de vida; na guerra, a identidade se define pela rejeição desse outro anônimo, desse outro que é tão mais odiável quanto mais imerso no escuro. A tradição de violência impõe seu caráter naturalizado.

Aqueles árabes que eu, na prática, maltrato, porque caíram nas minhas mãos algemados e derrotados, quem são eles senão os mesmos que trabalhavam no pátio de nossa casa; aqueles mesmos árabes em cuja companhia persegui lebres; aqueles árabes cujas mães trabalhadoras me seguravam secretamente à sombra do galpão e cobriam meu rosto de beijos; as primeiras mulheres de quem ouvi, quando tinha 5 anos, que eu era bonito, que queriam me raptar e me levar para a casa delas.

A velha batalha do homem contra a ausência de sentido atinge Alexander, cuja alma esculpida pela guerra constante leva seu corpo ao labirinto. Ele busca em Téa o sentido último que falhou em se apresentar quando tangenciava a morte pelos combates; busca também o pertencimento, incapaz que foi de encontrá-lo na própria tradição que defendeu com a vida. Sua teoria musical pretende romper os círculos que construiu ao redor de si, afastando-o do Conhecimento, da verdade perigosa que é o amor possível. Agora ele está próximo. Diante do Minotauro, Alexander se livra do fio que o conduziria para fora do labirinto e abraça com todas as forças Dionísio, no abismo.

 

 

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Minotauro
Benjamin Tammuz
Trad.: Nancy Rozenchan
Rádio Londres
192 págs.

 

O AUTOR
Benjamin Tammuz
Nasceu na Rússia, em 1919, e emigrou para a Palestina aos cinco anos de idade. Estudou Direito e Economia na Universidade de Tel Aviv. Em Paris, na Sorbonne, cursou História da Arte. Foi escultor, pintor, romancista, jornalista e crítico literário. O autor passou quatro anos como adido cultural da Embaixada de Israel em Londres. Seus contos e romances foram traduzidos para vários idiomas. Publicado pela primeira vez em 1980, Minotauro foi adaptado para o cinema em 1997, pelo filho do autor, Jonathan Tammuz. Benjamin Tammuz morreu em 1989, em Tel Aviv.

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