Dom Casmurro

junho 2020 / Dom Casmurro / Bruno Ribeiro

Texto publicado na edição #242

Bruno Ribeiro

Três poemas de Bruno Ribeiro

> Por Bruno Ribeiro

Paciência

um dia teremos a paciência dos monges

ou talvez não consigamos
nunca
vencer as águas que nos tomam os remos
e que vencem as pontes
que despontam no horizonte

ou
dos desertos, as nuvens
que nos cegam

monto as peças
à revelia do que vejo

há poeira entre os dedos

a vida me passeia
como corpo nu
ao relento

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Como quem destece redes

Me comeu
e deixou na língua o ranço.
entre dentes, fiapos do fruto
azedo
o nojo no roxo da gengiva
a carne exposta
língua e saliva

a carne abafa o espírito
desabriga saídas
a língua de ponta
rachada
qual terra ressequida.

me comeu,
deixou exposto o osso,
um fosso
e aberta a porta
as pernas
caravelas perpassando
continentes.

e como se não existisse o breu
me comeu
e me deixou no seio
um dente

me comeu como quem destece
redes

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Homem de mergulhos

Havia ali um homem louco,
no translado da ponte

não sabia — imagino —
o vermelho da ferrugem

mas andava qual confiante
postura altiva, olhar invicto…

escolhera um destino:
o lado menos rasante.

Dali em diante
seria homem de mergulhos

em seu bolso,
pescados vivos

lhe dariam motivos
à superfície…

Havia ali um homem louco
eu sei, vi em seus olhos

a distância percorrida
entre a pausa

e a descida.

Vi um homem.

Em seu corpo,
o orgulhoso traçado

o repaginado da ponte

dos rabiscos à corrente,
louco,
costurando o horizonte

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