Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Breve história de um fracasso

Texto publicado na edição #114

Breve história de um fracasso

Narrativa curta, porém contundente, Olhos secos, de Bernardo Ajzenberg, traz a trajetória de Leon Zaguer, que no livro é apresentado […]

> Por FABIO SILVESTRE CARDOSO

Bernardo Ajzenberg, autor de Olhos secos

Narrativa curta, porém contundente, Olhos secos, de Bernardo Ajzenberg, traz a trajetória de Leon Zaguer, que no livro é apresentado em dois momentos. Na juventude, seus anos de formação exalam esperança, num desassossego típico da idade que quer mais, embora não saiba exatamente o quê. Nessa busca, o jovem, em viagem pela Europa, flerta com experiências políticas, estéticas, culturais e afetivas que, de certa maneira, lhe moldariam o caráter, tornando-o mais sensível ao mundo que o cerca. Em contrapartida, na vida adulta, Zaguer é um homem pálido, tolhido pela burocracia do mundo do trabalho, co-dependente de seu relacionamento amoroso, e refém das vicissitudes dos acontecimentos. É vítima, sempre vítima, mas está sempre se desculpando por isso. Entre as grandes esperanças do jovem Leon e o lamento do homem sem qualidades que se tornou Zaguer, está o autor, como que a perguntar: qual é a razão do fracasso?

Com efeito, pode-se ler este sexto romance de Ajzenberg como um contraponto à narrativa triunfalista dos homens de sucesso da atualidade, posto que muitos deles, nas grandes empresas e até mesmo na política, saíram da estaca zero para se transformar em exemplos de como a determinação, a tenacidade e o esforço podem, sim, recompensar. O trabalho dignifica, pregam os teóricos da prosperidade, como se a saída para o fracasso fosse apenas lastreada pela vontade de querer fazer. Cheia de som e fúria, a vida teima em refutar essa simplicidade. Com isso, sobram no caminho inúmeras pessoas que não se adequaram a esses fundamentos que outrora pareciam tão claros. E o resultado é apenas frustração e arrependimento.

Enquanto jovem, no entanto, o leitor descobre um Leon vibrante com as possibilidades de um mundo que, aparentemente, o espera. Aqui, o autor é hábil ao apresentar essas impressões por meio de um diário, um relato tão ingênuo quanto impressionista. As questões que mais tarde seriam fundamentais para o futuro, nesses fragmentos, são ora minorados, ora desprezados, e a interpretação é a de que Leon será capaz, sim, de “fazer acontecer”. O protagonista ignora aqui que, do mesmo modo que tudo pode dar certo, há a chance de as coisas não funcionarem como planejado. E mais do que isso: é preciso saber lidar com os problemas e, por extensão, com a frustração, de alguma maneira. Do contrário, sua força vital se esvaziará.

Competição frenética
Já velho, Zaguer é confrontado inúmeras vezes com essa condição. Nenhum de seus planos se concretizou da maneira como ele gostaria. Tanto na família, que o despreza solenemente — a despeito de ele se fazer presente junto ao pai moribundo —, como no seu trabalho, que é a representação essencial do seu estatuto de perdedor. De alguma forma, o autor consegue inserir na narrativa um detalhe ao mesmo tempo elementar, mas não tão óbvio, que é o valor dado à realização profissional, ou ao chamado mundo do trabalho. Num momento em que a noção contemporânea de família está se esfacelando, uma vez que é carente de significados, o que sobra é a competição frenética de homens e mulheres por um lugar ao sol, sendo reconhecidos por seus feitos e conquistas.

Eis, a propósito, um dos aspectos que mais chamam a atenção na história contada por Ajzenberg. Em vez de adotar um discurso politicamente correto, pretensamente mais preocupado com as camadas menos privilegiadas da população, o autor escolhe retratar o universo dessa classe média, que paga plano de saúde, escola particular e consome tevê a cabo. Esse retrato é certamente cruel, mas a fidelidade é tamanha, que certos dilemas dessas mentalidades estão previstos ali. Observa-se, por exemplo, a necessidade de o personagem central contar com a presença de um colega de infância para lhe dar apoio e, em certa medida, funcionar como elo junto àquela época remota. Esse amigo, que também é seu confidente, simboliza certa aversão do homem contemporâneo por relacionar-se com o mundo de forma mais madura. Com isso, tão logo os problemas aparecem, são essas pessoas a quem se recorre para ajudar, aconselhar, compartilhar e esbanjar.

À medida que a narrativa se desenvolve, surge o confronto inevitável, ao que parece, entre a virtude e o vício. Daquela, o velho Zaguer parece não ter guardado nada, apenas um lastro de amargura que permeia a sua existência. Um tipo de atitude em relação à vida que não é a de confronto, mas, sim, de resignação contrafeita. Nesse ponto, a certa altura do livro, o protagonista está frente a frente com seu pai quando este lhe acusa de ser fraco, de não saber agir nos momentos de decisão, característica que teria sido identificada pelo pai nos primeiros anos de vida do garoto. As palavras são fortes, mas Zaguer parece estar acostumado aos ataques e, mesmo adulto, não se abala quando alguém lhe passa uma descompostura. O que de fato o incomoda é a pressão no trabalho, forçando-o a tomar uma decisão drástica, algo que o jovem Leon jamais faria.

Lágrimas preguiçosas
Curiosamente, é do jovem Leon a afirmação mais singular do livro, que, com efeito, consegue unir os dois personagens do livro: “Há quinze minutos, eu chorava, mais que fraco, um tanto quanto desesperançado. Tentava chorar, como sempre, em busca das minhas lágrimas preguiçosas, que insistem em não querer conhecer a luz do dia, preferindo o escuro do meu corpo. É uma sina que, acho, vou carregar a vida inteira, esses olhos secos.”

Os olhos secos do jovem Leon se confundem com os olhos secos do velho Zaguer. Não há qualquer traço de bipolaridade aqui. Apenas dois homens, em circunstâncias e momentos históricos distintos, que se encontram e descobrem o significado de sua apatia, da sensação de estar à beira do colapso depressivo e, obviamente, do fracasso de seus projetos.

Na narrativa de Bernardo Ajzenberg, Leon Zaguer representa o fracasso de um tipo comum das classes médias, outrora confiante no futuro e no futuro do país. Com algum talento, ele seria capaz de realizar grandes projetos, tão comuns às gerações das décadas de 1970 e 1980. Os garotos queriam mudar o mundo, ficaram em cima do muro e, por fim, resignaram-se em sua insignificância. Assim, se a crítica hoje é endereçada à fatia mais esclarecida dos jovens, que aparentemente dá de ombros tanto às grandes marchas quanto aos grandes projetos, também é possível observar que sua sanha individualista é mais certeira e objetiva. Logo, as metas são sempre alcançadas. Humanista, Leon Zaguer não rendeu frutos no passado, muito menos num mundo em crise de valores, que só quer saber do sucesso, e não das raízes do fracasso. Em Olhos secos, essa inadequação está à mostra para quem souber enxergar.

LEIA A PARTICIPAÇÃO DO AUTOR NO PAIOL LITERÁRIO.

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BERNARDO AJZENBERG

É escritor, tradutor e jornalista. Nascido em 1959, publicou seu primeiro livro, Cabeças cortadas, em 1989. É autor, ainda, de Variações Goldman e A gaiola de Faraday, entre outros. Já foi ombudsman da Folha de S. Paulo e diretor executivo do Instituto Moreira Salles. Atualmente, é proprietário do sebo Avalovara, em São Paulo (SP), onde vive.

Zaguer enfiou um pedaço de carne na boca. Veio-lhe à mente a imagem do engraxate de largos bigodes que trabalhava no caminho que ele sempre usava para ir ao cartório, no Largo do Arouche. O homem reinava na esquina com a Vieira de Carvalho. Altivez, hombridade, tenacidade, honra, nobreza — substantivos assim sempre lhe ocorriam quando pensava naquele trabalhador capaz de transformar um sapato numa jóia que dava medo de usar de tão delicada.

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Bernardo Ajzenberg
Rocco
183 págs.