Dom Casmurro

maio 2011 / Dom Casmurro / Borges em Pessoa

Texto publicado na edição #134

Borges em Pessoa

  Jorge Luis Borges sai de um hotel próximo à estátua de Pombal na Avenida Liberdade e desce em direção […]

> Por TARSO GENRO

 

Theo Szczepanski

Jorge Luis Borges sai de um hotel próximo à estátua de Pombal na Avenida Liberdade e desce em direção ao Largo dos Restauradores.

O Marquês, em bronze com o seu leão, olha o Tejo ao longe derramado em prata e azul, num julho lavado de brilho e luz. Sua vista já passa rente à rua Augusta, onde estão os melhores prédios que o Marquês construiu após o terremoto de 1755.

Borges quer visitar uma velha Pensão no Rossio, onde Antonio Tabucchi localizou Fernando Pessoa, moribundo, numa tarde cinza de Lisboa, na década de trinta. O bar ainda existe, “A Ginginha“, onde bêbados e turistas e turistas-bêbados sorvem o licor traiçoeiro.

Agora a tarde em azul e branco é cortada em fatias pela bengala prateada do velho Borges. Ele vê luz e cores, cores e luz. Mas não distingue feições, pessoas, contrastes. O mundo é um quadro impressionista e cada passo do seu andar trôpego é um desvendamento de labirintos. São labirintos que conduzem a mais labirintos e mais espelhos.

Borges só quer conversar com Fernando Pessoa. Propor-lhe novos enigmas, tigres, punhais, poetizar sobre mortes gratuitas no pampa, assuntos de arrabalde onde as cidades terminam, onde terminam os campos já fatigados em pequenas chácaras: pobres espaços de sobrevivência com dignidade, ilusões da cidade e desconfortos herdados de um passado amortecido pelo sonho. Os limites, sempre os limites, entre campo e cidade: peões e assassinos de subúrbio, civilização e barbárie, encontros do sonho possível tornado ridículo pelo real fantástico.

Pela rua das Pretas, Borges vai em direção à rua das Portas de Santo Antão e já se esgueira nas suas calçadas finas. Cheiros de pescados e azeitonas, balcões avançados sobre os passeios. Ternuras das cozinhas ampliadas até as ruas, pelas quais Pessoa caminhou às vezes soturno, mas quase sempre enigmático.

Borges já sente que está próximo, pois, à direita, a estátua de D. Pedro IV borra de verde-escuro o céu límpido do Rossio. Quando um jato de luz e uma lufada de vento fresco lhe fazem redescobrir a aritmética e o espaço, Borges quer uma porta lateral para buscar o quarto de Fernando Pessoa. E acha. Funga para sentir quem sabe um cheiro de Fernando Pessoa ou para inspirar o que restou da sua época.

Um velho porteiro lhe pergunta “onde vais? queres ajuda?”. Borges diz que procura o poeta, o Pessoa, que veio dormir aqui fugido do Hospital, onde o destino lhe obrigaria a se encontrar assepticamente com a morte.

O velho diz “Temos três: o sr. Ricardo Reis, o sr. Alberto Caieiro, o sr. Álvaro de Campos” e prossegue: “o das odes, o das paixões reprimidas ou o das metafísicas do absoluto?”. Borges pensa: “estou variando, estou com febre, isto não aconteceria nem num conto meu. Mas talvez eu esteja num conto e tenha conseguido dissolver, pela primeira vez e em definitivo, os limites entre a arte e a vida”.

O velho diz que é possível encontrar os três, mas, para tanto, seria “necessário contar um conto dentro do outro”. Reabrir a estória das mil e uma noites depois da tradição indiana, persa, magrebi, para torná-la então uma literatura lusitana. Já limpa, processada, subtraída das ilusões irracionais do oriente, para incorporar outros contos com aventuras infinitas, amores perversos e mortes repentinas, mas tudo já solúvel e ordenado.

Borges já está muito cansado. Não entendeu o porteiro e seu labirinto. Foi derrotado pela primeira vez e só queria visitar Pessoa, fazer com ele algumas frases, como fazia com Leopoldo Lugones, e Felisberto Hernandez. Queria apenas rever seus amigos e mestres num sonho meticulosamente reconstruído com a matéria da vida. Mas, Borges mesmo contrariado fica contente, pois conhecera o gênio dentro do gênio, fora de si mesmo. Por isso já poderia morrer. Mesmo sem desvendar o fabuloso enigma que separa e une a arte e a vida, tanto no cotidiano como na história.

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