Ruído branco

outubro 2014 / Ruído branco / Bom, mediano ou ruim?

Texto publicado na edição #174

Bom, mediano ou ruim?

Essa pergunta continua incomodando. Ela norteou os dezesseis capítulos da Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil, publicados aqui de […]

> Por LUIZ BRAS

Essa pergunta continua incomodando.

Ela norteou os dezesseis capítulos da Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil, publicados aqui de maio de 2013 a agosto de 2014.

Mesmo encerrada, nossa pesquisa informal recebeu recentemente três novos comentários.

Três opiniões divergentes reunidas agora num definitivo epílogo.

Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?

Nelson de Oliveira
Faz quase três anos que saí do Brasil. Mesmo estando a mais de três mil quilômetros da praia tupiniquim mais próxima, ainda consigo acompanhar a cena literária brasuca. A contragosto, é claro. Afinal, saí do país justamente pra ficar uma temporada longe da cultura, da política e da economia brasileiras. Saí pra me desintoxicar do Brasil. Mas o vício é mais forte que minha vontade, e nesta praia deserta do Caribe, vejam só, a conexão wifi jamais falha.

Respondendo sem rodeios a pergunta acima, em minha opinião a literatura brasileira está num momento muito bom. Dezenas de editoras de grande, médio e pequeno porte lançam semestralmente dezenas de autores de grande, médio e pequeno porte. Todos os gêneros são contemplados, há iguarias para todos os paladares. Se você aprecia ficção científica ou autoficção, poesia hermética ou satírica, não ficará de olhos e mãos abanando. Mesmo se você já se cansou da tendência mais chique e afetada de nossas Letras, a margem está cheia de autores e livros excêntricos (fora do centro de poder) muito interessantes.

Em sua obra revolucionária, Darwin empregou a palavra evolução para definir um processo de modificação e adaptação ao longo do tempo. Espécies e indivíduos respondem à pressão externa ajustando-se — ou desaparecendo. É nesse sentido que vejo a evolução da literatura brasileira. Não no sentido teológico ou teleológico, do imperfeito para o perfeito. Mas no sentido biológico: uma resposta interna a uma forte demanda externa, a fim de evitar a extinção. O cenário sociopolítico não pára de mudar no mundo inteiro. A prosa e a poesia brasucas estão acompanhando essa mudança, adaptando-se, evoluindo.

Há autores escrevendo para o mercado internacional, tentando acontecer na Europa e nos Estados Unidos. Isso é muito bom. Há autores construindo uma obra profundamente pessoal, tentando fugir das modas e das vogas. Isso também é muito bom. Os leitores que apreciam mais a literatura de elite encontrarão bons livros nas butiques físicas e online. Isso é ótimo. Os leitores que apreciam mais a literatura marginal encontrarão bons livros nas bodegas físicas e online. Isso também é ótimo.

A oferta é imensa, então o grande desafio para o leitor, hoje, é encontrar seu autor predileto. Se este aparecer na festa badalada ou no programa de tevê, encontrá-lo será mais fácil. Mas apenas uma parcela muito pequena de autores frequenta tais lugares. A grande maioria está distribuída em camadas de visibilidade mais rarefeitas. Sabendo disso, cedo eu me eduquei a mergulhar fundo, em busca do tesouro que não está nas vitrines bem iluminadas. Sempre encontro coisa boa. E o esforço do mergulho redobra o prazer.

A diversificação frenética, apesar de assustar, é um fenômeno que me agrada bastante. Livros às centenas, aos milhares. O cenário hoje é tão colorido que consigo passar horas admirando-o sem esbarrar nas cores que me entediam, por mais unânimes e premiadas que sejam. Sou um leitor egoísta. Não estou nem um pouco preocupado com o cânone nacional ou a formação de leitores. Estou atento apenas ao meu cânone pessoal, sou o único leitor que me interessa formar.
Nelson de Oliveira é autor de Ódio sustenido (Língua Geral, 2007).

Guilherme Scalzilli
Sob a perspectiva de um autor que observa da margem (e não sem algum ressentido ceticismo), o circuito midiático da literatura brasileira parece medíocre, condescendente e previsível. A monotonia temática, o narcisismo obsessivo, a diluição dos cânones, a pobreza dos enredos, a covardia política e o desleixo narrativo marcam boa parte dos títulos adotados pelas esferas privilegiadas do campo literário.

A banalidade norteia as dinâmicas legitimadoras do mercado porque estas são baseadas em relações interpessoais e corporativas. A escolha do original pela editora, a entrevista, o convite para a feira, a resenha do suplemento, o conto ou o poema ali publicado, a seleção pelos jurados de um concurso: quase todos os pequenos sucessos que formam a reputação literária passam por alguma teia de apadrinhamento. O fenômeno não deixa de existir só porque, na maioria das vezes, é automático e inconsciente; nem por ser talvez inevitável, num ambiente saturado de concorrência e falto de oportunidades.

O predomínio da influência empobrece os critérios avaliativos do meio, acomodando-o à ilusão de que as obras reconhecidas são de fato as melhores de seu tempo, ou de que conquistaram apreciação por méritos intrínsecos. O padrão hegemônico no chamado mainstream vira referência do que é a boa literatura contemporânea, justificando o anonimato da multidão sem colegas nem contratos. Então o círculo de reconhecimento se fecha no já aceito e influente, preservando-o ao infinito.

Enquanto isso, na periferia do sistema, os desconhecidos vagueiam entre nichos, tribos e seitas, gastando saúde, tempo e dinheiro em obras que ninguém lerá. Iludidos pela falsa popularidade da internet e por esporádicos aplausos nos convescotes provincianos, jamais terão sequer uma ideia de seu real valor. Mas continuam alimentando a mitologia de uma efervescência literária da qual permanecerão inexoravelmente excluídos.
Guilherme Scalzilli é autor de Crisálida (Casa Amarela, 2007).

Paulo Sandrini
Fato é que temos mesmo muita quantidade, o que acho bom, todos têm o direito à escrita e isso se tornou mais acessível entre nós nas últimas décadas. Por outro lado, tenho lido poucos livros dessa produção. Gostei dos últimos do Marcelino Freire e do André Sant’Anna. Da poesia, posso dizer muito pouco ou nada, pois não a venho acompanhando. Mas sinto que há uma forte tendência editorial que privilegia o romance de autoficção. Um vício que parece deixar pouco espaço para a literatura de invenção, lembrando que essa tem pouca tradição entre nós. Nossa atual literatura carece de humor, de iconoclastia. Tudo me parece meio baseado nos romanções ao modelo inglês e norte-americano. São páginas e páginas numa estrutura muitas vezes sem desafio de linguagem. Isso eu vi naqueles em que dei uma lida nas livrarias mesmo. Pra mim, o momento é médio. E por que motivo acho isso? Não é nem pela qualidade dessas tantas obras, e sim pelo fato, outro, de que também não temos obras que busquem uma profundidade filosófica. Fica-se muito no campo das relações humanas de modo a contar historinhas de vida, de sofrimentos individuais. É uma literatura sem alteridade. Portanto, ela é mediana. Sem espaço para a invenção e sem espaço à reflexão de caráter mais profundo, filosófico. Uma literatura de ínfimo questionamento. A qualidade da escrita ou da arquitetura literária já não me basta pra ler uma obra, tem que ter mais que isso. E a profundidade filosófica é o que mais tem nos faltado.
Paulo Sandrini é autor de Exposição das tripas (Kafka, 2014).

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