Inquérito

outubro 2018 / Inquérito / Boas faíscas

Texto publicado na edição #222

Boas faíscas

26 perguntas a Giovana Madalosso

> Por RASCUNHO

Giovana Madalosso, autora de A teta racional.

Giovana Madalosso, autora de A teta racional.

Giovana Madalosso nasceu em Curitiba (PR), em 1975. Sempre quis ser escritora. Chegou até a inventar uma língua na infância. Mas como temia pela sobrevivência na atividade, resolveu enveredar pelo jornalismo e publicidade. Em 2016, enfim, estreou como autora com os contos de A teta racional, finalista do Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional. Neste ano, lançou o romance Tudo pode ser roubado, cujos direitos foram vendidos e dará origem a uma série de tevê.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Acho que antes mesmo de saber o que era um escritor. Assim que me alfabetizei, comecei a escrever histórias em quadrinhos, versos e peças de teatro que encenava com meus primos. Poucos anos depois, passei a escrever contos e crônicas e criei até uma língua, para azar da minha melhor amiga, que teve que aprendê-la para se comunicar comigo. Então, desde sempre soube que o meu caminho era o da literatura. Tornei-me jornalista e redatora por força das circunstâncias, porque a literatura, no ambiente em que fui criada, não era vista como uma carreira possível.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Antes de começar um livro, junto ideias num caderno e também recortes de jornal e papéis que vou encontrando e podem ser interessantes para a minha narrativa. Em A teta racional, usei um cartão-postal para compor o conto A paraguaia e um mapa rodoviário para estruturar o Suíte das sobras. Em Tudo pode ser roubado, usei bula de remédio, radiografia. Eu costumo pregar essa papelada numa parede de cortiça que tenho no meu escritório, onde também esboço a linha narrativa do que estou escrevendo, porque, além de nortear o meu trabalho, sinto prazer em olhar para esses fragmentos e imagens, é uma espécie de inventário a ser decifrado, algo que tira a criação do estrito plano mental para confrontá-la com os acasos (ou não acasos) da vida e, ao menos para mim, dessa fricção saem boas faíscas. Outra mania que tenho, quando o texto já está pronto, é de gravar alguns trechos. A sonoridade é muito importante para mim. Às vezes há uma frase que diz exatamente o que quero dizer, mas não está funcionando porque não atende a um certo ritmo, então reescrevo-a até que soe perfeita.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Jornal de manhã e ficção a qualquer hora.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
O manual completo do suicídio, de Wataru Tsurumi.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Silêncio, cafeína e saber que não serei interrompida pelas próximas cinco horas.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Silêncio. Aliás esse é um dos motivos pelo qual gosto de ler, porque amo o silêncio, e a leitura me permite ouvir e viver uma história prescindindo de qualquer ruído.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Um dia em que eu faço algum avanço. Na produção literária, isso pode significar tantas coisas. Escrever uma boa página ou cinco páginas ruins que serão retrabalhadas depois. Resolver algum dilema. Enxergar um problema que eu estava tentando enxergar há tempos. Ou mesmo ter uma única ideia, mas significativa. Hoje penso que mesmo aqueles dias frustrantes, em que você investe sei lá quantas horas escrevendo páginas que acabarão no lixo, também são úteis, porque os acertos não são feitos só de uma centelha mágica mas de todos os erros que o precederam.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Duas coisas me dão muito prazer. Primeiro, o inesperado, partir sem saber muito bem aonde vou chegar e o que vou encontrar pelo caminho. Segundo, quando o texto flui a ponto de eu escrever sem pensar. Como disse Lobo Antunes, aquele momento em que a mão descola da cabeça.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
A insegurança. Só consegue escrever com profundidade quem acredita que tem algo relevante a dizer.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
O que me incomoda em qualquer outro meio: picuinhas, fofocas, miudezas.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Carola Saavedra. Talvez a melhor escritora brasileira hoje em atividade.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível: O segundo sexo, da Simone de Beauvoir. Descartável: qualquer um da Nora Roberts. Me obriguei a ler alguns de seus livros como pesquisa para meu próximo romance. Que pesadelo.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A falta de verossimilhança. Qualquer coisa que interrompa o fluxo de leitura e lembre ao leitor que ele está lendo uma ficção, que há um escritor por trás daquelas páginas.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Tudo pode e deve entrar na literatura, mas não costumo explorar a inveja. É um sentimento com o qual não simpatizo.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Acompanhei minha filha numa cirurgia espiritual onde fui orientada a me concentrar pois minha fé e entrega eram importantes. Porém, o cenário e a circunstância eram demasiado inusitados e, por mais que eu tentasse, não consegui fechar o olho de escritor que tudo observa. Também já tirei inspiração de uma caixa de remédio que encontrei no banco de trás de um táxi. Eu ia entregá-la para o taxista mas algo me fez pensar que deveria levar a caixa comigo. Chegando em casa descobri ser um genérico de Viagra, serviu como um insight para a condição pouco fálica do meu personagem Cícero, em Tudo pode ser roubado.

• Quando a inspiração não vem…
Trabalho sem ela. Mas quando a coisa trava de vez, recorro ao corpo. Danço, caminho ou ando de bicicleta.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Roberto Bolaño. Mas podemos mudar o cenário? Gostaria de encontrá-lo no camping onde ele trabalhava de vigia noturno, perto de Barcelona, e caminhar com ele madrugada adentro falando sobre literatura e, acima de tudo, sobre a vida.

• O que é um bom leitor?
Aquele que se entrega ao livro, que aceita o pacto proposto pelo escritor e avança pelas páginas com mais crença do que desconfiança.

• O que te dá medo?
Perder a lucidez.

• O que te faz feliz?
Ler no sol de inverno e comer e beber com quem eu amo.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Antes a dúvida de que eu seria lida. Agora a certeza de que serei lida. Ambas assustadoras.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Minha preocupação vem mudando ao longo do tempo. Quando escrevi os contos do meu primeiro livro, A teta racional, estava preocupada em não enlouquecer na solidão do puerpério. Claro que queria ser lida, publicada, mas não sabia se isso ia acontecer, então a minha maior motivação foi buscar algum alívio através do texto. No romance Tudo pode ser roubado me preocupei em escrever um livro que eu gostaria de ler, com uma narradora feminina forte e pouco óbvia, falando do nosso tempo, e com uma estrutura relativamente simples, que me permitisse acoplar ao fio central da história uma série de personagens quase aleatórios — digo quase porque nada é aleatório no texto literário — figuras que juntas compusessem uma imagem da minha geração. No romance que estou escrevendo agora, talvez pelo nosso momento político, a minha preocupação é discutir algumas questões de dominação. Conflitos camuflados sob a docilidade do âmbito doméstico que podem ser deletérios.

• A literatura tem alguma obrigação?
Causar desconforto.

• Qual o limite da ficção?
A ficção não tem limite.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
À mirtazapina 15 mg.

• O que você espera da eternidade?
Só acredito na eternidade experimentada através do agora.

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