Dom Casmurro

fevereiro 2016 / Dom Casmurro / Biscoitos da sorte

Texto publicado na edição #189

Biscoitos da sorte

Aforismos de Miguel Sanches Neto dão continuidade ao livro "Linhas órfãs"

> Por MIGUEL SANCHES NETO

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

VOCÊ TAMBÉM É ESCRITOR?

No Brasil, a profissão de escritor é a nossa maior ficção.

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Lemos os livros produzidos na juventude como literatura estrangeira.

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Um texto só se faz verdadeiro ao interromper tarefas urgentes.

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Haicai: a força do mínimo; não o mínimo de força.

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Vento nas roupas estendidas

inflando ventres de mulher

nas saias e nas camisas.

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O bom editor está inteiro num livro, mas sem ser visto.

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Para diminuir a vadiagem e melhorar a literatura, criem-se presídios para escritores. Eu me candidataria a uma vaga.

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Os livros que abandonamos pelo meio também nos pertencem integralmente.

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Mesmo os livros que não lemos, amando-os a distância, cumpriram o seu projeto.

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Limpeza de fim de ano
Se as estantes com os livros amados juntam tanta poeira, imaginem as nossas velhas ideias.

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Boa parte do que se apresenta como crítica ou é balcão de negócio ou facção terrorista.

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Ser entendido até por quem não te compreende.

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Quem escreve romances espalha solidão ao seu redor.

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O poeta produz frases de efeito invariavelmente com defeitos.

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

O grande romance do agora é como escultura anônima na areia, refeita depois de cada maré cheia.

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Morrer de vez em quando em muito melhora a qualidade de sua obra.

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O memorialista faz turismo em si mesmo.

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Ler um poema é a forma mais plena de rezar. De rezar ao Deus Nada.

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A morte nesta cozinha.

Uma borboleta vai pro lixo

com os restos de comida.

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Há o escritor por insight e o escritor por insistência. Um tem uma inteligência felina; o outro, uma inteligência bovina.

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Revisar um livro de sua autoria é olhar-se minuciosamente no espelho, tentando identificar as imperfeições do próprio rosto.

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

Matemática da criação literária
A soma de várias brisas nunca formará uma tempestade.

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Escrever um romance equivale a estar apaixonado por alguém que nos aguarda. Queremos voltar o quanto antes para casa.

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São os livros que escrevemos que, na verdade, nos escrevem.

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Seu papel de parede era uma camada espessa de bons livros.

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Socialmente, o escritor não passa de um órgão excretor.

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A situação ideal do escritor é viver internado. Em si mesmo. Na biblioteca. No próprio quarto.

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Não confundir preguiça com paciência; dedicação extrema com pressa. Todo artista tem um ritmo que o inventa.

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Afirmação de identidades problemáticas
No vidro traseiro de um carro ferrugento, o proprietário escreveu: SOU POETA.

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Alguns escritores param de escrever ou começam a se repetir na maturidade talvez por deixarem de se interessar pelas gerações mais jovens.

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A literatura não entra em mentes literais.

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Toda obra de arte é financiada pela dádiva.

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Em textos literários, o uso de Photoshop está liberado.

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Somos todos refugiados da palavra.

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O memorialista, esse violador de túmulos.

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Todo poema que se presta permanece meio inédito.

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Por um segundo

a tarde de domingo.

Deserto fim do mundo.

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Nomes hoje obscuros vivem um recôndito futuro.

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O poder dos medíocres é o último modismo.

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O poder dos autênticos se chama tempo.

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Quem menos sabe escrever é quem mais disserta sobre a escrita.

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Não precisamos da linguagem para representar a incomunicabilidade.

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Um livro falso já se revela na foto do autor na capa.

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A escrita, mesmo a mais autobiográfica, como projeto extremo de anonimato. Sair de cena para dar lugar às palavras.

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Os bens do escritor condenado por desvio da realidade não puderam ser apreendidos. Eram todos fictícios.

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Autores hoje anunciados como centrais passarão às notas de pé página.

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É preciso escrever cada capítulo de um romance como se fosse a sua primeira página e tudo ainda estivesse por ser dito.

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Só podemos ser de fato influenciados por aquilo que nos revela. E aí não há nenhuma forma de influência.

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A palavra não tem pressa.

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

 

VERDADEZINHAS MEIO VADIAS

Os falsos nunca fazem falta.

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Não há maior alienígena do que quem retorna à terra da infância perdida.

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Mesmo para o novo rico, todo pobre tem problemas de origem.

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Quem muito trabalha não tira folga por não ter o que fazer nessas horas.

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Cartaz para um lava-jato
Lavamos consciências sujas.

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Os argumentos de seu interlocutor são sempre expressos em uma língua estrangeira.

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Outrora, encrenqueiro-mor. Hoje, envelhece como conciliador.

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Qualquer pessoa solitária é maior do que uma passeata.

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As pessoas determinadas são como pregos; ou entram na madeira ou vergam sob as marteladas.

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Se finjo gostar de algo, minha face me desmente no ato.

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Reconhecer que está errado e deixar tudo do mesmo jeito só ajuda a aumentar a dimensão do erro.

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Um bom curso universitário deve ser uma clínica de envelhecimento.

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Nenhuma luta se faz por si só justa.

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Exibir teu corpo despido não é uma declaração de princípios, apenas provocação dos sentidos.

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Participa de manifestos como quem vai a muitas festas.

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Neste período de tanta falação, muitos trocariam um dos ouvidos por mais uma boca.

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A verdade anda só; a mentira, mal acompanhada.

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Aqueles que odeiam nunca tiram férias.

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Se apenas uma pessoa desfrutar da beleza ainda assim ela será eterna.

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Pertencia à espécie dos que nada esperam.

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Fazer, sim, protestos. Primeiro contra nós mesmos.

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Ninguém nunca convence aqueles que têm os próprios interesses.

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As terras mais distantes em que estive se chamam infância.

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Os intelectualmente surdos não dialogam.

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A menor certeza já é uma forma de surdez.

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Os domingos doem o mínimo.

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A maioria de nossas crenças: máscaras que se colaram à nossa cara.

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É preciso fazer política sem se fazer político.

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Turista, esse animal que paga para enfrentar filas.

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Quando você não quer nada além daquilo que só você pode fazer por você mesmo, o mundo fica mais ameno.

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Só ao fecharmos os olhos conseguimos ver o melhor da paisagem.

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Meritocracia no Brasil é o princípio de favorecer os bem-relacionados e os que têm berço.

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Só é possível crer naquilo que não vemos.

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TCU
Na prestação de contas de nossos próprios sonhos, somos sempre reprovados.

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Apenas no turbilhão da juventude podemos afirmar as bobagens mais rudes.

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Não existe maior protesto do que pensar.

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

AMOR, MORTE, ESSAS COISAS

“Não foi possível completar a ligação.” Na minha velha agenda, o telefone de tantos amigos mortos.

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Poderíamos amar muitas outras pessoas se não estivéssemos tão ocupados com os velhos trabalhos do amor.

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Na vida nunca dá zero a zero.

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Toda morte é um suicídio em segredo.

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Um amigo perdeu a mãe prematuramente. Aos 106 anos. A morte de uma mãe é sempre prematura.

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Sequelas
Os enforcados acabam afônicos.

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Só se termina um curso de humanidades quando enfim se morre.

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Ter poucas paixões mas intensas, para que uma vida seja suficiente.

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Entras em tua casa que permaneceu fechada por certo tempo como o morto que enfim fica só no próprio enterro.

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Só amamos verdadeiramente aquilo que não nos traz proveito.

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Espírito pacato, vez ou outra se metia em brigas, alegando ser bom para a carreira ter inimigos.

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Festas de fim de ano I
E a doença desejou ao corpo um ótimo ano-novo.

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Festas de fim de ano II
Aquele pior inimigo te desejou alegremente um inesquecível suicídio.

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Festas de fim de ano III
— Sacro tempo de paz! — gritou o homem-bomba antes de mandar tudo para os ares.

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A vida, esse imenso contínuo. O ano-novo desconhece o ano findo.

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Só é possível continuar amando uma pessoa enquanto ela tiver espaços não explorados.

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O tempo desenha em nosso rosto as sombras de um morto.

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Somos órfãos provisórios de nossa própria morte.

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Aqueles que não puderam nascer riem de nossos desesperos.

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