Dom Casmurro

abril 2014 / Dom Casmurro / Biofobia

Texto publicado na edição #168

Biofobia

Trecho do romance inédito de Santiago Nazarin

> Por SANTIAGO NAZARIN

Ilustração: Fabiano Vianna

Ilustração: Fabiano Vianna

O que fazer com tudo aquilo? O que fazer com o cadáver de uma casa, uma vida, a mãe morta? Enterro ou cremação? Criogenia ou canibalismo? Incêndio e demolição. Cortar seu corpo em pedaços e servir ao cachorro. Entregar peça por peça aos parentes e amigos — distribuir os livros, os vestidos. Vender tudo. Derrubar a casa. Instalar-se lá e tentar começar uma nova vida, recomeçar a vida, retomar a vida da mãe, adotar sua identidade, seus vestidos ou seu cenário, construir um personagem. Ele não era capaz.

Ele era um incapaz. Mas sua mãe havia sido bem específica. Instruções para o funeral. Que música tocar. Que passagem ler. O que fazer com o corpo. O que fazer com a casa. Para quem distribuir os móveis, os livros; por que se preocupar? Depois de morta, para quê? Para que os filhos não se preocupassem. Independência e morte. Independente mesmo após. Tudo sob controle. Ela fizera suas próprias escolhas, não havia nada que ele pudesse fazer.

“André…” O advogado o recebeu no portão com um aperto no ombro e um sorriso paternal. Um sorriso paternalista. Um sorriso cansado. Talvez qualquer homem que pudesse ser seu pai já estaria cansado naquele ponto. Qualquer homem que pudesse ter sido seu pai já estaria numa idade avançada, velho, cansado, desiludido, decepcionado. Bastardo. Também havia o abatimento pela perda da amiga, e por pensar que ele estava a caminho. O advogado já respirava naquela realidade em que amigos começam a morrer por todos os lados.

Seguiram até a casa. “Você veio caminhando?”, o advogado o percebeu semiofegante, suor escorrendo da testa. André assentiu sorrindo. Sorriso triste. Mais do que demonstrar ao velho que ainda era jovem o suficiente para subir dois quilômetros a pé por uma estrada de terra, demonstrava que isso já o esgotava. O advogado devia olhar para seus olhos e ver como aquele menino, que ele conhecera ainda nas fraldas, já estava murcho, exaurido, ressaltava-lhe ainda mais a própria velhice. O advogado poderia ser o próximo da fila, mas André não tardaria a acompanhá-lo.

Entraram na casa e ele viu a mãe por todos os lados. Os restos da mãe. Os livros. O pêndulo do relógio batendo. Era como uma prova viva de que ela existia. Não mais viva, insistia por todos os lados. A mãe materializada em muito mais do que uma carcaça. Dizendo muito mais do que um epitáfio. Toda uma vida, em cada centímetro daquela casa. “Deixa só eu lavar o rosto.” André se dirigiu ao banheiro.

Uma viagem de sessenta minutos, de ônibus. Daí descia na estrada, quilômetro 59, e subia a pé por dois quilômetros de terra. Mochila nas costas. Tênis gastos nos pés. Camiseta do Suede. Indo para a casa da mãe. A mãe se escondia. Dificultava as coisas para quem não tinha carro, como seu próprio filho. Um refúgio, para escrever, já na terceira idade, na última curva, longe da cidade. André compreendia e apreciava aquele surto bucólico. Mas, para ele, era apenas um surto. Nunca conseguira passar mais de uma noite naquela casa, subindo pelas paredes. O tédio o consumia, o ar puro o intoxicava. Precisava gastar energia, sedando-se com as cachaças da mãe, as histórias da mãe. Precisava sair dali.

Por isso, a subida a pé fazia sentido. Era um processo. Mais do que um ritual, deixando a cidade para trás, a estrada para trás, o ônibus e a civilização, intoxicando-se com os gases rodoviários, André ia se amaciando, queimando combustível, preparando-se para se apresentar como o filho dócil, faminto por comida caseira. Preparando-se para se apresentar como filho, corado, saudável e em forma. A quem ele queria enganar? Chegou à casa e ao advogado como um ex-fumante de meia-idade, cansado, exaurido, que não sabia dirigir e mal conseguia respirar. Tatuagens desbotadas. Camiseta puída. Suado, desgrenhado e fedido, foi ao banheiro. Ao menos lavar o rosto.

Sobre a pia, encontrou os cremes da mãe, óleos, hidratantes, antirrugas. Não fizeram muita diferença num corpo cremado, a não ser que a pele hidratada tenha levado mais tempo para queimar. Restos de vaidade virando fumaça. André levantou o olhar para o espelho e se viu melhor do que esperava — ainda um pouco menino. Poderia ser por se olhar no espelho da mãe, pela lembrança de que, na casa dela, ele seria sempre o caçula. Provavelmente era mais pelo efeito das bochechas coradas pelo exercício, a má iluminação do banheiro, a boa iluminação do banheiro, a iluminação indireta, vinda da janela, filtrada pelo box, sombreando-lhe olheiras e as crescentes rugas de expressão. Seu cabelo também estava num bom dia. Untado pelo suor. A franja longa, escura. Era apenas obra do acaso. O acaso às vezes o favorecia.

Voltou à sala e encontrou o advogado conversando com a empregada. “Quer um café?”, ofereceu-lhe. André assentiu novamente. O advogado o recebia como visita em sua própria casa — não, na casa da mãe. A casa não era dele, não era do advogado. A casa não era de ninguém. Era a casa de uma mulher morta. André sentou-se no sofá em frente à lareira apagada, o advogado na poltrona ao lado. Passou-lhe os papéis. “Esses são os que você precisa assinar agora. E esses eu vou deixar também para a sua irmã; quando ela vem?”

“Amanhã de manhã.” André passou os olhos por cima dos papéis e se concentrou em fazer a assinatura correta. Como a morte era burocrática. Um cadáver que se arrastava em tantos detalhes, toda uma vida, um legado, uma casa. O coração parava de bater, mas as unhas continuavam crescendo, o cabelo crescendo, os dentes amarelando, a pele se ressecando à espera de Lancôme. Sua mãe podia ter acabado com a vida, mas para dá-la por encerrada ele ainda teria muito a assinar, contas a fechar, flores a comprar, arregaçar as mangas e cavar ele mesmo uma sepultura. Depois cobri-la pá a pá, bater a terra, fazer uma missa, e rezar para que a mãe não desse nem mais um suspiro. Fogo fátuo. Um gás que escapava.

André levantou os olhos e encontrou os do advogado, que o examinava. “Diabos, esse moleque não é capaz nem de assinar os documentos da mãe morta”, pensou que o advogado pensava. A mãe cuidara de tudo. A mãe cuidara de se matar para que ele mesmo, e sua irmã, não tivessem de cuidar dela mais tarde. Fora cremada para que não houvesse nem sepultura a ser visitada. Nada de missa, nenhuma flor a murchar. Ele não era capaz nem mesmo de assinar os atestados de óbito. “Você tem firma em algum outro cartório? Os dois que você me indicou não estão reconhecendo”, dissera o advogado há alguns dias pelo telefone. Ele tentou se convencer de que aquilo era perfeitamente natural, ou de que o advogado acharia perfeitamente natural; acabara de perder a mãe, normal que o corpo tremesse, a mão vacilasse, assinatura irreconhecível. Já ele mesmo não podia se enganar. Há um bom tempo que isso acontecia. Ele tentando assinar como si mesmo; tentando provar por escrito ser alguém que ele não era mais. “É melhor você ir lá ao cartório fazer uma nova assinatura”, lhe recomendavam. Porém não havia assinatura nova. Ele não se reinventara. Seria incapaz de assinar duas vezes da mesma forma, de uma nova forma. De qualquer forma, o jeito era tentar imitar o melhor possível a antiga grafia; era difícil, mas às vezes ele conseguia. Talvez numa assinatura mais despreocupada. Talvez quando o tabelião estivesse distraído… Diabos, será que ele não podia simplesmente manchar o dedão e deixar sua impressão digital? Cogitava perguntar.

André repassou os papéis ao advogado, não totalmente seguro de que acertara sua assinatura. “Estamos quase terminando aqui, André”, disse o advogado, como quem lhe pedia um último esforço. Ele se esforçava. E gostaria de acreditar que o advogado acreditava que o esforço era apenas enterrar a mãe, vencer sua morte, superar o luto; André sabia que o advogado sabia além. O esforço era viver. E viver com a morte da mãe era algo-demais-além-do-demasiado. Estavam quase terminando, e depois? Estavam quase terminando o quê? Talvez estivessem terminando os dois. “Vamos lá, eu te ajudo com essas últimas pás de terra, depois é com você. Você não é mais um menino, e eu não tenho mais nada com isso. Minha amizade era com a sua mãe, é hora de você se virar sozinho. Pelo amor de Deus, acerte essa assinatura e damos por encerrado!” Era isso o que o advogado dizia?

Ele abusara, sabia bem. Abusara dos serviços do advogado, da amizade dele com a mãe, buscara seu socorro mais de uma vez, tarde da noite. Buscara o socorro dele algumas vezes de manhã também, lembrava-se. Amizade é uma forma de se permitir abusos, afinal. “Queria agradecer novamente por tudo o que fez pela minha mãe… por nós”, André comentou. Precisava deixar clara sua gratidão ao velho. O advogado fez sinal com a mão como quem dizia “deixe disso”, e André sabia que não era um sinônimo de “não foi nada”, sim uma maneira de acabar logo com aquilo. “Vamos acabar logo com isso. Daí não precisarei nunca mais te socorrer. Agora você está nessa sozinho.”

André ressentia a gratidão que sentia. André acostumara-se a tomar tudo aquilo como natural. Era fruto de seu talento, sua voz, seu rostinho bonito. Porém talento, voz, rosto, tudo murcha com o tempo, e ele tinha de agradecer pelo que ainda tinha. O advogado à sua frente. O trabalho que era poupado diante de todo trabalho que ele já tivera — que trabalho ele teve? Será que ninguém percebia que trabalho era (para ele) respirar todos os dias? Arrastar-se a cada manhã para fora da cama, na hora do almoço, de tarde, antes que escurecesse? O trabalho que era para ele conseguir chegar ao final da noite e apenas dormir? Ninguém tinha nada com isso. As pessoas conseguiam. As pessoas se levantavam de madrugada, pegavam ônibus, pegavam outro ônibus, trabalhavam, faziam fila com bandeja tentando encaixar no mesmo prato salada de batata, coxinha de frango, macarrão ao alho e óleo, bife de contrafilé, voltavam ao trabalho, pegavam um ônibus de volta para casa, pegavam outro, tropeçavam, levavam um tiro, eram atropeladas, e continuavam se arrastando. Ele era um adulto, e deveria ser fácil.

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