Dom Casmurro

novembro 2017 / Dom Casmurro / Bill Berkson

Texto publicado na edição #211

Bill Berkson

Nove poemas de Bill Berkson

> Por André Caramuru Aubert

Bill Berkson, poeta norte-americano.

Bill Berkson, poeta norte-americano.

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

A New York School, movimento artístico que incluiu artes-plásticas, música, dança e poesia[1], teve quatro famosos poetas “fundadores”, Frank O’Hara, John Ashbery, Kenneth Koch e James Schuyler[2]. Mas naturalmente houve mais gente, inclusive na geração seguinte, da qual Bill Berkson (1939-2016) foi um dos grandes nomes. Assim como John Ashbery, Berkson leu e incorporou muito dos surrealistas franceses; e, como Frank O’Hara, recebeu uma forte influência das artes visuais[3], especialmente do expressionismo abstrato. Influências que tornam o trabalho de traduzir Bill Berkson um verdadeiro campo minado, com mais adivinhações do que certezas.

1. East End

Sometimes I think it’s here too,
which is to say the joy your dress
drags in with it.
To go from that to the nearest consolation
is enough to tear my soul apart.
So stay.
The mystery has been proven.

East End

Às vezes penso que isso está aqui também,
que é como falar da alegria que seu vestido
traz com ele.
Ir de lá até o mais próximo consolo
basta para fazer minha alma em pedaços.
Então, fique.
Provou-se o mistério.

2. Poem

Like angels, I can only arrive
On the point of your admiration,
And what kind of thing is that
For a grown man?
But what I really want
Is to do what I can
For nothing in particular,
Letting the black holes rip,
As they may, through your lives,
And golden light on the stones
Just before sundown, anywhere.

Poema

Como os anjos, só consigo chegar
Ao ponto da sua admiração,
E que tipo de coisa é essa
Para um sujeito já crescido?
Mas o que eu quero mesmo
É fazer o que for possível
Sem nenhum objetivo específico,
Deixando que os buracos negros rasguem
Como podem, através das suas vidas,
E da luz dourada nas rochas
Pouco antes do anoitecer, por toda parte.

3. To Marie Cosindas

The perfect pose
inundated by reflection
the group portrait groping for exposure
in the apartment forever 1966.
The world turns dolls into urchins
anemones, kelp, private mollusk and arachnid
till the string pops, inflection dings
subsumed
like dandies in shade
their handkerchiefs showing

Para Marie Cosindas

A pose perfeita
inundada por reflexos
o retrato do grupo hesitante se expondo
no apartamento para sempre 1966.
O mundo faz de bonecas ouriços do mar
anêmonas, algas, moluscos, aracnídeos
até que brotem os fios, soando as inflexões
como dândis à sombra
com seus lenços à mostra

4. From Whence it Came

In a red chair with a toothpick
A space heater agitating
Between categories, scarcely heeded

Destiny slipping away

But you caught the culprit
Bidding him drink of the inland sparkling sea
All dressed up, real pretty

De onde veio isso

Numa cadeira vermelha com um palito de dentes
Um aquecedor se agitando
Entre classes, incompreendido

O destino indo embora

Mas você agarrou o culpado
Oferecendo-lhe uma bebida no cintilante mar interior
Todo vestido, bem bonito

5. A Finial

I can see where the sky takes a bend that the fogbank
hasn’t blunted. I see the drawers pulled out
for access to same. If you are so inclined, matter can
be sensitive to the need for a shove.
I feel the finesse of particles at hand.
The origins of shape stare out from indelicate depths
where subjectivity can’t follow, spilling itself.
Evidently, perhaps.

Um ponteiro de telhado

Posso ver onde o céu faz uma curva que a massa
de neblina não atenuou. Vejo as gavetas abertas
para chegar ao mesmo. Se você está assim tão inclinado, a matéria
pode ficar sensível à necessidade de um empurrão.
Sinto à mão a delicadeza das partículas.
As origens da forma encaram, a partir de indelicadas profundezas,
onde a subjetividade não consegue seguir, derramando-se.
Evidentemente, talvez.

6. Salad Spinner
after Francis Picabia

You must grab time by the hair,
couple subconscious helixes
in the space of a secret.

You must tickle the improbable
and believe in the impossibility
of crossroads.

You must learn to suspend
ten grams of white, five grams of black
in hopes of true scarlet.

You must know how to fall from below
to favor the zenith
of mornings to the manner born.

You must love the four mouths
floating around the silky doubt
of dead assumptions.

Centrifugador de Salada
depois de Francis Picabia

Você deve agarrar o tempo pelos cabelos,
um par de hélices subconscientes
no espaço de um segredo.

Você deve entreter o improvável
e acreditar na impossibilidade
dos cruzamentos.

Você deve aprende a suspender
dez gramas de branco, cinco gramas de preto
na esperança do verdadeiro escarlate.

Você deve aprender como cair de baixo para cima
para socorrer o zênite
nas manhãs nascidas ao modo.

Você deve amar as quatro bocas
flutuando em volta da sedosa dúvida
das suposições mortas.

7. A-Frame

air blue
ocean plain
and glowing
woman turning
man on fire

Um Quadro

ar azul
planície oceânica
e incandescente
mulher deixando
o homem em brasa

8. Lady Air

The meaning of guitar practice
Slips between pine needles
A bird that thin
To the tune of “Start Me Up”

Rubrics of screen porch and firefly
Embolden the effort

All words are prophetic
Bare the thread, swallow the cloud
Reflected glory drives off
Leaving the original in demand

Repeat after me

Lady Air

O sentido de estudar violão
Desliza por entre as pontas dos pinheiros
Um pássaro tão magro
Para a melodia de “Start me Up”

Rubricas de varandas e vaga-lumes
Encorajam o esforço

Todas as palavras são proféticas
Desnude o fio, engula a nuvem
A glória refletida se vai
Deixando a original em busca

Repita comigo

9. Reverie
for Bruce McGaw

Close up on an ancient blue convertible rolling down Beach Road, orange cabana filled to bursting with complementary colors and one daring fluorescent orange that isn’t.
The trunk is open and empty;
the thief asleep in the passenger seat,
caught in the crosshairs
pink like the peony.

Devaneio
para Bruce McGaw

Olhos fixos num antigo conversível azul descendo a rua da Praia, quiosque laranja cheio a explodir com cores complementares e uma fluorescente e atrevida laranja que não é.
O porta-malas, aberto e vazio;
o ladrão dormindo no banco do carona,
pego na mira
cor-de-rosa como a peônia.

 

Notas

[1] O movimento, que começou em algum ponto dos anos 1950 e estendeu-se por mais de uma década, foi mais uma junção geográfica e temporal do que estilística. Poetas, artistas e músicos alimentavam-se dos trabalhos de uns e outros, mas os estilos podiam diferir enormemente. Na música, por exemplo, cabiam o jazz e a música conceitual de John Cage. Nas artes-plásticas, o expressionismo abstrato de Pollock e De Kooning convivia com o figurativismo de Jane Freilicher. Em poesia dava-se o mesmo, com o lirismo de Schuyler e o surrealismo de Ashbery vivendo lado a lado sem problemas.

[2] Já publicamos aqui no Rascunho poemas traduzidos de três deles: Frank O’Hara, na edição de dezembro de 2014, James Schuyler na edição de fevereiro de 2015, e Kenneth Koch na edição de dezembro de 2015.

[3] Bill Berkson foi também um respeitado curador e crítico de arte.

 

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