Intercâmbios ficcionais

fevereiro 2012 / Intercâmbios ficcionais / Bestiários

Texto publicado na edição #142

Bestiários

  O trabalho do tradutor é um dos mais ingratos que existem, é um desses casos em que (no melhor […]

> Por CAROLA SAAVEDRA

O trabalho do tradutor guarda uma semelhança com o do mordomo: só nos lembramos dele quando algo dá errado

 

O trabalho do tradutor é um dos mais ingratos que existem, é um desses casos em que (no melhor dos casos) se o profissional for muito bom, ninguém percebe a sua existência. Como um mordomo, só nos lembramos dele quando algo dá errado, faltou champanhe, acabou o caviar, a cozinha pegou fogo. Acidentes dos quais, nós leitores, visitas ilustres e bem acomodadas na sala de estar, não deveríamos sequer tomar conhecimento, mas por culpa do mordomo (sempre ele), somos surpreendidos por uma estranha inquietude no rosto do anfitrião, e talvez até um início de fumaça que se esgueira cozinha afora.

Quando algo falha e a tradução é ruim, em geral os motivos podem ser compreendidos entre duas categorias extremas: ou o tradutor errou porque não respeitou o texto original, ou ele errou porque respeitou demais. No primeiro caso, o leitor, desavisado, acaba lendo algo que desvirtua o que o autor escreveu, não respeita o seu estilo, o ritmo escolhido, e em alguns momentos, suprime palavras ou até mesmo frases inteiras, como se elas fossem um estorvo e pudessem ser facilmente excluídas. No segundo caso, o leitor vê-se diante de uma espécie de palimpsesto indesejado no qual o texto original se sobrepõe à tradução. Os motivos podem ser vários, entre eles, o tradutor manteve-se ao pé da letra, ou se ateve à estrutura sintática original, causando um estranhamento não desejado pelo autor.

E para usar outra imagem (deixemos o mordomo em paz), se a tradução fosse uma mulher, no primeiro caso, ela teria sofrido tantas intervenções cirúrgicas que já em nada lembraria o seu semblante anterior. No segundo caso, como num filme B, a mulher jovem e sedutora ao se virar deixa entrever através da fenda do vestido um rabo de salamandra ou um pé de bode, e o leitor, já prevenido da sua verdadeira natureza, não se deixa mais seduzir assim tão facilmente. Pois no fundo a tradução é sempre isso, uma mulher mais ou menos sedutora que esconde seu pé de bode, ou seja, tenta impedir a todo custo que percebamos a aberração. O sucesso do tradutor depende do seu talento em vestir, maquiar, esconder tal detalhe, sem que por isso a mulher perca o seu frescor original.

Quem exprimiu essa idéia de tradução como aberração de forma mais radical foi Thomas Bernhard, escritor austríaco conhecido por suas declarações misantropas. Num documentário feito em 1986, passeando pelas livrarias de Madri, ele comenta, em tom que lhe era característico: “Um livro traduzido é como o cadáver de um autor, mutilado até tornar-se irreconhecível. (…) Tradutores são algo terrível. (…) Para que serve uma tradução?”.

Não é por acaso que os livros de Bernhard são famosos por deixarem os tradutores de cabelo em pé. Frases longuíssimas, às vezes estendendo-se por uma, duas páginas, repletas de orações intercaladas e conectivos, que levam ao extremo a sintaxe da língua alemã, e que muitas vezes “quebram” ao serem traduzidas para idiomas de estrutura diferente como é o caso do português. Bernhard tem um livro chamado Watten, cuja tradução é quase impossível. Watten é um jogo de cartas típico da região dos Alpes, e só existe lá, não tem tradução. O que não seria um problema não estivesse o livro todo estruturado a partir desse jogo e não repetisse a palavra Watten (como substantivo ou como verbo) a cada duas frases. Nesse caso, um tradutor paranóico poderia concluir que se trata de um plano mirabolante arquitetado pelo autor no intuito de desencorajar as traduções do livro. Sim, parece um exagero, mas considerando as palavras de Bernhard na entrevista em Madri, até que não é uma hipótese tão absurda.

Mas não é preciso a misantropia de Bernhard para enlouquecer um tradutor. Há o exemplo de Kafka, cuja expressão “ungeheures Ungeziefer”, traduzido como inseto monstruoso, é a chave intraduzível que permeia toda a Metamorfose. Há inclusive no imaginário popular a idéia de que Gregor Samsa acorda de sonhos intranqüilos transformado numa barata, a famosa barata de Kafka. Na realidade Kafka em nenhum momento especifica o inseto em que Samsa se transformara, e talvez esta seja uma questão essencial. Kafka não escolhe a palavra Ungeziefer por acaso. Ungeziefer pode ser traduzido como inseto, porém designa em alemão, não insetos em geral, mas refere-se mais especificamente a insetos nocivos, daninhos. O alemão, aliás, é um idioma que jamais generaliza, ao contrário, e se os esquimós, como dizem por aí, têm vinte palavras para a cor branca, os alemães tem vinte palavras para cada uma das cores do universo. Mas voltando ao Ungeziefer, não se trata de um inseto qualquer, mas daqueles desagradáveis, que trazem doenças, que devastam as colheitas. Mas isso não é tudo, é necessário buscar a origem da palavra, Ungeziefer vem de Geziefer, palavra bíblica, que se refere a um animal que pode ser oferecido em sacrifício. Já o Ungeziefer, o prefixo un- em alemão designa uma negação, é justamente o animal que, segundo os preceitos bíblicos, não serve para ser sacrificado, o que inclui insetos, claro, mas também camelos, bodes, salamandras. Ou seja, trata-se de outra coisa. Gregor Samsa, que até então havia servido (em sacrifício) à família, e de forma mais geral à sociedade, de um momento a outro perde essa serventia. Ao acordar de sonhos intranqüilos, Gregor Samsa não servia mais ao sacrifício. Essa leitura tem o aval das últimas páginas, quando, após a morte de Samsa, os pais olham com outros olhos para a irmã, e percebem de repente, que ela havia se tornado uma moça de grande beleza.

Mas voltemos à tradução, Kafka escolhe a palavra Ungeziefer, que carrega em si toda a conotação acima. Mas em português não há palavra correspondente, afinal, inseto não é Ungeziefer, inseto é apenas, segundo o dicionário etimológico, um Insectum, animal segmentado. O que faz o tradutor? Bom, nada, se for um bom tradutor, escreve monstruoso inseto e pronto, se for ruim, diz que é uma barata. Resta aos acadêmicos, aos estudiosos de Kafka e leigos que resolvam se preocupar com o assunto esclarecer as origens e possibilidades da palavra.

Por essas e outras sempre me pareceu curioso que se fale tanto da angústia diante da folha em branco, mas tão pouco da angústia diante da folha escrita. O que fazer diante do texto que nos encara exigente e cheio de recriminações? O que fazer diante de Watten? Ou de um Ungeziefer? Que solução encontrar para aquilo que não tem solução? É a pergunta que o tradutor se faz a cada página, sabendo que faça o que fizer, ele (assim como o mordomo) sempre será o culpado.

Afinal, como todos sabemos, o tradutor é um traidor. A questão é que precisamos dele. É claro que se tivermos sorte, e com algum esforço, podemos aprender inglês, francês, espanhol. Mas e russo, por exemplo? Certamente, muitos morreremos sem falar russo. Está certo, sem falar russo tudo bem, mas por que teríamos que morrer sem ter tido lido Dostoiévski? Até pouco tempo atrás, Dostoiévski era traduzido do francês. Aliás, até pouco tempo atrás era muito comum traduções serem de segunda mão, ou seja, traduzia-se Dostoiévski, Brecht, e tantos outros do francês, o que muitas vezes tornava as traduções uma espécie de telefone sem fio, um dizquemediz, fulano que falou para sicrano e disse para beltrano, até finalmente chegar aos nossos ouvidos, ou melhor, aos nossos olhos sabe-se lá o quê. Afinal, ninguém falava russo. Continuamos não falando russo (com raras exceções), e nunca conheceremos o semblante original de um Raskólnikov, por melhor que seja a tradução, nunca vamos acompanhar as palavras originais, os seus gestos, nunca vamos saber a especificidade do seu tom de voz, nunca vamos ter acesso às escolhas exatas do autor. Mas e daí? Antes um Raskólnikov com pé de bode do que Raskólnikov nenhum.

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