Translato

fevereiro 2018 / Translato / Bandeira tradutor

Texto publicado na edição #214

Bandeira tradutor

Sobre a estratégia de tradução, Manuel Bandeira é lacônico

> Por EDUARDO FERREIRA

É raro, sempre raro, encontrar obras que analisem a obra tradutória de um grande escritor brasileiro. As obras traduzidas ficam à margem, seja nas antologias, seja nas fortunas críticas.

Outro dia me deparei, na internet, com uma obra sobre o tradutor Manuel Bandeira. Trata-se de uma tese de doutorado, de Aglaé Fernandes, intitulada Poemas traduzidos do francês ao português por Manuel Bandeira.

Já tive oportunidade de escrever neste espaço sobre a faceta de tradutor de alguns autores de renome, como Machado de Assis, Clarice Lispector e o próprio Manuel Bandeira.

Bandeira traduziu bastante, poesia e prosa. Pode-se supor que a atividade tradutória contribuiu para a construção de sua obra, assim como para a obra de muitos outros grandes escritores. A tradução é assim: atividade ancilar que serve como sólido apoio para a escritura autoral.

Mas voltemos à tese de Fernandes. A autora enfoca especificamente a obra Poemas traduzidos, e, dentro dela, os poemas vertidos de originais franceses. Não entro aqui nos pormenores da tradução poética avaliados por Fernandes. Trago à baila só uma ou duas ideias inscritas no capítulo 1 da tese, dedicado ao perfil de tradutor de Manuel Bandeira.

Bandeira parece ter traduzido muito por impulsos externos. Por solicitações de terceiros ou por razões profissionais. É o que Fernandes qualifica como “caráter casual” das traduções do poeta brasileiro. É o que explica o próprio Bandeira, em advertência ao leitor constante de seus Poemas traduzidos, aduzindo que a maioria das traduções não tinha sido feita “em virtude de nenhuma necessidade de expressão própria, mas tão-somente por dever de ofício”.

Assim, por solicitações de terceiros ou por “dever de ofício”, Bandeira foi construindo sua obra tradutória, na qual despendeu não pouca energia intelectual e poética. É notável, a propósito, a descrição que faz Bandeira, conforme Fernandes, do processo de tradução de um poema do alemão Hölderlin. Diz o poeta brasileiro que esse trabalho foi “uma das maiores batalhas que já pelejei em minha vida de poeta”. Índice do grau de dificuldade da tradução poética e claro sinal de que a tradução da poesia se confunde com a própria poesia.

Sobre a estratégia de tradução, Bandeira, sempre segundo Fernandes, é lacônico. Ao responder a elogios de um crítico que comentara algumas de suas traduções, Bandeira se confessa refém da intuição, tanto na poesia original como na traduzida. Não que isso seja mal, em especial para quem a tem de sobra. Bandeira descartava, talvez com excesso de modéstia, haver construído soluções sofisticadas de maneira, digamos, racional.

Atribuía ao subconsciente e a lampejos intuitivos as fórmulas felizes que encontrara para exprimir em português a obra estrangeira. Sugeria que os poemas eram processados de maneira natural ou automática em seu cérebro de poeta, “porque as traduções me saíram quase ao correr do lápis”.

Mas ressalvava que suas melhores traduções dependiam de dois elementos significativos. O primeiro era o prazo distendido que dedicava à obra tradutória, deixando o poema “como que a flutuar por algum tempo dentro do meu espírito, à espera de certos pontos de fixação”. O outro era a empatia pela obra alheia: “só traduzo bem os poemas que gostaria de ter feito, isto é, os que exprimem coisas que já estavam em mim, mas informuladas”.

Tempo e empatia, na medida certa, constituíam a amálgama que desatava a intuição e gerava a boa tradução.

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